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EUGÉNIO DE ANDRADE

 

- O malabarista da palavra -

 

(Página ainda em construição)

 

Nascido na Póvoa de Atalaia, no Fundão, em 19 de Janeiro de 1923, Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinha) passou a sua infância com a mãe devido ao abandono do pai, circunstância que o levou a varrer da sua poesia a figura paterna desde o seu primeiro livro – Adolescente. Aos nove anos viajou para Lisboa e aí permaneceu até aos vinte, altura em que fixou residência no Porto para desempenhar funções na Inspecção Administrativa dos Serviços Médico-Sociais.

 

Afastou a ideia de um curso de filosofia para se dedicar à poesia e à escrita, actividades pelas quais desde cedo demonstrou profundo interesse, a partir da descoberta de trabalhos de Guerra Junqueiro e António Botto. Camilo Pessanha foi outra forte influência do jovem poeta Eugénio de Andrade. Sem filiação em qualquer corrente literária, são, no entanto, evidentes, nos seus textos, para além das já supracitadas influências, tendências medievais, tendências populares e algumas tendências estilísticas contemporâneas como o neo-realismo, o surrealismo, o neobarroquismo hispânico e o esteticismo modernista que primeiro o inspirou. Nesses textos, as palavras fluem magicamente como notas numa pauta musical, constituindo cada poema uma breve unidade em que a imagem, a dicção e o ritmo se aliam numa simbiose perfeita. Na verdade, "Poeta da intensidade" (como lhe chamou Vergílio Ferreira), Eugénio de Andrade sabe escolher as palavras e as imagens para nos transmitir o sentido do maravilhoso, da esperança e da plenitude. Não vemos na sua obra o religiosismo barato, piegas ou beato; não vemos na sua obra marcas fadistas ou saudosistas; não vemos na sua obra o tom declamatório ou reclamatório de outros escritores portugueses. Por isso é que se diz que Eugénio de Andrade é um escritor e um poeta singular.

 

A sua poesia-música constrói-se com uma originalidade espantosa, porque se trata de uma poesia de poemas breves, de versos breves, de frases breves, de uma poesia eminentemente oral e coloquial, de uma poesia com um léxico simples e concreto, de uma poesia que é feita com imagens e metáforas elementares, mas que toda a gente compreende e lê sempre com agrado.

 

Tematicamente, a sua obra goteja temas de amor, de erotismo e relacionados com a natureza, assumindo-se o autor como o "poeta do corpo". Os seus poemas privilegiam a evocação da energia física, material, sobretudo através do sentido do tacto. Mas há nessa poesia três vertentes que merecem uma atenção especial: a dignificação do homem, a dignificação da natureza e a dignificação da palavra. A dignidade do Homem passa pela sua capacidade e coragem de mostrar, revelar e contar as experiências da vida, e dar a sua opinião acerca delas, sejam boas ou más, fascinantes ou intoleráveis para os outros. Nesta perspectiva, o acto poético é o empenho total do ser para sua revelação, pois é através da poesia, proveniente das mãos humanas, que não só o poeta se revela, mas toda a Humanidade se revela com ele, numa comunhão universal. Quanto à Natureza, esta é um berço, uma escola de aprendizagem, um lugar de realização. Símbolo do ventre materno e da fertilidade, da segurança e da perfeição criadora, nela o poeta reencontra a mãe, o paraíso da infância, a quentura e a intimidade com a terra. As flores e os frutos, ou as árvores, são frequentemente metáfora do corpo e do toque amoroso.

 

Finalmente, no que concerne à palavra, esta faz parte da magia, permitindo-lhe traduzir e provocar emoções. Na sua poesia, a palavra certa é colocada com precisão, segreda sentimentos, revela o desassossego do espírito, transporta-nos ao mistério da vida que se reflecte como um espelho. Palavra luminosa, tanto serve para exprimir o alvoroço e a inquietação como para revelar memórias e exteriorizar nostalgias ou para a demanda do lugar exacto do Homem, numa harmonia consigo e com o cosmos. Não é, pois, de admirar que a sua poesia seduza gente de todas as gerações. Por um lado, porque é muito comunicativa, intimista e coloquial, criando um espaço que é sempre o comum da terra e até um espaço que partindo da terra tende para o alto, numa dinâmica ascensional; por outro lado, porque é uma poesia que ancora sobre um tempo quotidiano, sobre um tempo de mudanças que proclamam quase sempre a primazia do calor e da luz, sem esquecer, porém, que há também o peso da sombra do mundo, de obscuros domínios que é necessário enfrentar e iluminar.

 

Poesia “flash”, a poesia de Eugénio de Andrade é uma poesia que nos encanta, é uma poesia que tenta pelo canto enganar a morte e que, nessa medida, nos ajuda a viver, segundo confidenciou Arnaldo Saraiva.

 

Elemento da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da Academia Internacional "Mihail Eminescu" (Roménia), Eugénio de Andrade foi galardoado com os seguintes prémios: Pen Club (1986), Associação Internacional dos Críticos Literários (1986), Dom Dinis (1988), Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989), Jean Malrieu (França, 1989), APCA (Brasil, 1991), Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996), Prémio Vida Literária atribuído pela APE (2000).

 

Autor de uma importante obra literária, de que se destacam As Mãos e os Frutos (1948), As Palavras Interditas (1951), Ostinato Rigore (1964), Os Afluentes do Silêncio (1968), Obscuro Domínio (1971), Limiar dos Pássaros (1976), Até Amanhã (1976), Rosto Precário (1979), O Peso da Sombra (1982), Branco no Branco (1984), O Outro Nome da Terra (1988), Rente ao Dizer (1992). À Sombra da Memória (1993), Ofício da Paciência (1994), O Sal da Língua (1995), Eugénio de Andrade é, talvez, a seguir a Pessoa, o escritor português mais lido no estrangeiro e mais traduzido.

 

Em 1991, um grupo de amigos decide criar a Fundação Eugénio de Andrade, instalada na Rua do Passeio Alegre, na Foz, inaugurada pelo Presidente da República Mário Soares em 1993 e aberta ao público em 1995, há precisamente dez anos. Em 1994, Eugénio de Andrade muda residência para a sede da Fundação.

 

Joaquim Matias da Silva

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