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OS MAIAS
- Personagens
- MARIA
EDUARDA -
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Entravam então no peristilo do Hotel Central - e nesse
momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do
lado da rua do Arsenal, veio estacar à porta.
Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção,
correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito
magro, de barba muito negra, passou-lhe para os braços
uma deliciosa cadelinha escocesa, de pêlos
esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois
apeando-se, indolente e poseur, ofereceu a mão a
uma senhora alta, loura,
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com um meio véu muito apertado e muito escuro que
realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante
deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente
bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um
reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um
casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento
sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas
botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de
xadrezinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o
preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncio a
voz de Craft murmurou:
- Très chic.
(Cap. V, pp.156-157)
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Apresentada
como uma "deusa", quem era esta personagem que surge em
Lisboa como se de uma aparição se tratasse?
Até aos 16 anos viveu num
colégio perto de Tours;
Viveu depois, em Paris, com o
irlandês Mac Green, de quem teve a filha Rosa; |
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Morto Mac Green na guerra contra
os alemães, conheceu o brasileiro Castro Gomes e, “como
esposa” deste, chega a Lisboa;
Esclarecida a sua situação de
amante de Castro Gomes e não de esposa, Carlos
apaixona-se por Maria Eduarda. Passam uma vida
transitoriamente feliz; Guimarães destrói essa
felicidade, apresentando os documentos da sua verdadeira
identidade;
Parte para Paris e acaba por
casar com Mr. de Trelain, casamento, segundo o ponto de
vista de Carlos, de dois seres desiludidos.
Ela e Afonso da Maia apresentam
características muito próximas:
Quanto ao perfil psicossomático, ambos são
possuidores de distinção, nobreza interior,
simplicidade, uma certa passividade;
Quanto ao perfil humano, destaque para o bom gosto,
a bondade, a caridade, a amizade para com os animais e
para com as crianças, o prazer pela vida caseira, pelo
lar;
Quanto ao perfil cultural, são de relevar o seu
gosto pela leitura e pela cultura em geral, uma certa
irreligiosidade, as mesmas ideias políticas (defesa da
república e de uma sociedade mais justa), a discordância
em relação à retórica, ao culto da forma (o empolamento
frásico, o "chilrear sem ideias " ).
Pode dizer-se que é vítima do
meio pernicioso onde passa a infância, a adolescência e
a juventude.
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Eça de Queirós,
Os Maias (Episódios da Vida Romântica), Edição
Livros do Brasil, de acordo com a primeira edição
(1888). Lisboa
Joaquim
Matias da Silva
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