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OS MAIAS
- Personagens
- PEDRO DA
MAIA -
O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara
pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da
raça, da força dos Maias; a sua linda face oval de um
trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e
irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se, faziam-no
assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera-se lentamente,
sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, a
flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais
vibrar naquela alma meia adormecida e passiva: só às
vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Itália.
Tomara birra ao Padre Vasques, mas não ousava
desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento
contínuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em
crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias
mudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já
velho. O seu único sentimento vivo, intenso, até aí,
fora a paixão pela mãe.
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Afonso quisera mandar para Coimbra. Mas, à ideia de se
separar do seu Pedro, a pobre senhora caíra de joelhos
diante de Afonso, balbuciando e tremendo: e ele,
naturalmente, lá cedeu perante essas mãos suplicantes,
essas lágrimas que caíam quatro a quatro pela pobre face
de cera. O menino continuou em Benfica dando os seus
lentos passeios a cavalo, de criado de farda atrás,
começando já a ir beber a sua genebra aos botequins de
Lisboa... Depois foi despontando naquela organização uma
grande tendência amorosa: aos dezanove anos teve o seu
bastardozinho.
(Cap. I, p. 20)
Leonel Vieira, no papel de Pedro da Maia. |

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A caracterização desta personagem obedece aos cânones
naturalistas
A hereditariedade (características psicofisiológicas):
ele é em tudo parecido com a sua mãe Maria Eduarda Runa:
pequeno, nervoso, mudo, murcho, amarelo, devoto,
melancólico, triste;
O meio social: é influenciado pelo "romantismo torpe",
vagueia pelos botequins e lupanares lisboetas, leva vida
boémia, alternando com as suas inserções no ambiente
beato do lausperene e nas leituras devotas;
A educação: beata, tradicional, deformante, romântica
(daí o seu casamento sentimentalmente instável e falhado
e o suicídio como fuga).
Com
efeito, o Pedrinho:
É o prolongamento físico e
temperamental da mãe.
É vítima do meio baixo lisboeta.
É
vítima de uma educação retrógrada.
Falha no casamento.
Falha como homem, suicidando-se.
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Eça de Queirós,
Os Maias (Episódios da Vida Romântica), Edição
Livros do Brasil, de acordo com a primeira edição
(1888). Lisboa
Joaquim Matias da Silva
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