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OS MAIAS

- A linha da tragicidade -

 

O incesto era já o tema fulcral de uma tragédia como o Rei Édipo, de Sófocles. Pelo seu caráter de ocorrência excecional, está desde logo talhado para servir uma ação que reúna dois requisitos importantes no contexto da estética da tragédia: a impossibilidade de solução pacífica do conflito instaurado e o facto de atingir, com o seu impacto destruidor, seres dotados de condição superior e acariciados pela felicidade.

A destruição referida consuma-se por meio de um agente tão eficaz como dissimulado: o destino, essa força motora que comanda os eventos conducentes à catástrofe final.

Se as referências mais ou menos explícitas à força do destino são significativas por configurarem uma atmosfera trágica, não o são menos os presságios, constituídos por todo o tipo de afirmações ou acontecimentos suscetíveis de fazer prever uma fatalidade inevitável.

Já na Poética, Aristoteles fixara como partes essenciais da acção trágica a peripécia, o reconhecimento e a catástrofe; e particularizava, afirmando ser a peripécia «a súbita mutação dos sucessos, no contrário».

Carlos Reis, Introdução à Leitura d'Os Maias (adap.), Livraria Almedina

 

Efetivamente, a trama de Os Maias apresenta uma dimensão trágica. A história, a natureza e o percurso dos amores de Carlos e Maria Eduarda (e até a da família Maia, genericamente falando) constituem uma história bem à medida das tragédias gregas, como o comprova a existência dos múltiplos elementos trágicos que passaremos a explicitar:

 

 

Elementos trágicos

Definição e/ou aplicação à obra

Temática

 

O tema do incesto.  Tal como na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, o incesto é o tema fulcral da intriga, o qual, pela sua natureza, torna o desenlace inevitável, impossibilitando qualquer solução pacífica.

 

As personagens

Carlos e Maria Eduarda, os protagonistas, sáo figuras aristocráticas, da burguesia.

O Ethos (caráter)

Tal como os heróis da tragédia grega, Carlos e Maria Eduarda destacam-se dos que os rodeiam pelo seu caráter excepcional e superior.

Anankê

 

Fatum, força do destino ou fatalidade.

• A presença do Destino, um elemento essencial da tragédia, é uma constante ao longo do romance. Com efeito, n' Os Maias é o destino que afasta Carlos e Maria na infância, junta-os e fá-los apaixonar-se um pelo outro, em adultos. Ao longo da obra, são vários os momentos em que o destino é presentificado:


— Logo no capítulo I se refere que Vilaça, face à decisão de Afonso em vir habitar o Ramalhete, procura dissuadir o velho, aludindo, entre outros motivos, "... a uma lenda, segundo a qual eram sempre fatais aos Maias aas paredes do Ramalhete" (página 7).

 

— Maria Monforte escolhe o nome de Carlos Eduardo para seu filho - "um tal nome parecia-lhe conter todo um destino de amores e façanhas" (Cap. II, pág. 38). Carlos Eduardo, o nome do "último Stuart", como Carlos será o último Maia.


— Ega refere-se ao destino quando diz que Carlos e a mulher que há-de ser sua estão "ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente marchando um para o outro" (Cap. VI, pág. 152).


— Ega, ainda, pensando no amor de Carlos e Maria Eduarda: "e agora, só pelo modo como Carlos falava daquele grande amor, ele sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal tornando-se daí por adiante, e para sempre, o seu irreparável destino" (Cap. XII, pág. 417).


— Carlos, ao saber o nome de Maria Eduarda, pensa: "Maria Eduardo, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos" (Cap. XI, pág. 346).


— Mais tarde, Carlos, ao aludir ao passado irregular de Maria Eduarda e pensando na impossibilidade de o avô perceber essa irregularidade, recorre inconscientemente a justificações que se prendem com o destino: "o avô nunca compreenderia os motivos complicados, fatais, iniludíveis, que o tinham arrastado para Maria Eduardo." "Para perceber este acaso, de um carácter nobre apanhado dentro de uma implacável rede de fatalidades, seria necessário um espírito mais dúctil, mais mundano que o do avô" (Cap. XV, pág. 516).


— No capítulo XVII, após a conversa com Ega e Carlos sobre os papéis que revelam a identidade de Maria Eduarda, Afonso "afastou-se todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho, o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto" (Cap. XVII, pág. 646).

 

Hybris

 

Desafio.

• Carlos desafia  o avô, a instituição do casamento (o adulteriozinho é que tornava mais picantes, mais saborosas, as suas relações amorosas) e os cânones do amor natural, quando comete o incesto consciente.

 

Agón

 

Combate ou luta empreendidos pelos protagonistas, um combate que é levado a cabo contra os preconceitos sociais.

 

Pathos

 

Sofrimento dos protagonistas.

• Carlos e o seu círculo de amigos e familiares vivem um profundo conflito interior. Sofrem o peso do seu destino, das suas inquietações, das suas angústias, dos seus comportamentos irrefletidos.

 

Peripécia ou peripeteia

 

Peripécia(s), constituída(s) pelo(s) acontecimento(s) imprevistos que fazem avançar a intriga, às vezes alterando completamente o seu rumo.

• As revelações de Mr. Guimaran (o Sr. Guimarães) desencadeiam a tragédia.

 

A anagnórisis ou anagnórise ou ainda agnorisis

 É o reconhecimento.

Com o reconhecimento ou identificação da relação familiar entre Carlos Eduarda e Maria Eduarda tudo se precipita. Para Aristóteles, o reconhecimento deveria dar-se juntamente com a peripéteia, ou seja, a peripécia, que mais não é, como já foi dito,  do que um acontecimento que altera, quase sempre, de forma radical, o rumo da intriga, até pela sua imprevisibilidade, invertendo, assim, a marcha dos acontecimentos e precipitando o desenlace.

 

Compaixão

 

O sentimento de compaixão é despoletado nos leitores, que veem as personagens a perder-se irremediavelmente, enredados nas teias de um destino cruel e na sua fraqueza anímica e comportamental.

 

Clímax

 

Ponto auge da tragédia, quando é descoberto o incesto e quando, por exemplo, na sequência disso Afonso morre no banco do jardim.

 

Katastrophé

 

Catástrofe, que corresponde ao desenlace fatal, quando ocorrem todas as desgraças.
• O desenrolar dos acontecimentos vai provocar a tragédia, com a morte de Afonso e a separação forçada dos dois amantes (Carlos e Maria Eduarda).

 

Coro

 

 É a "voz " do senso comum, que tenta moderar a exaltação desmedida dos protagonistas.

• As  digressões reflexivas têm como função moderar as exaltações e os comportamentos mais exacerbados das personagens. Em certa medida, Ega também desempenha o papel de coro, ainda que procure a todo o transe manter-se afastado dos acontecimentos após as revelações de Guimarães.

 

Indícios ou presságios

 

Pequenos sinais pressagiadores de desgraça mais ou menos iminente.

A tragédia grega, na sua notável construção, vai preparando o espetador para o desenlace trágico, fornecendo-lhe indícios subtis que apontam para esse desenlace.

São sinais que pressagiam o desfecho terrível e que antecipam a fatalidade inultrapassável.
Também Os Maias estão povoados desses indícios, alguns deles já implicitamente apontados em cima, já que eles se ligam, naturalmente, à força inexorável do destino que se vai abatendo sobre as personagens.

No capítulo I, quando vê Maria Monforte pela primeira vez, Afonso fixa-se num elemento simbólico, que ganha então uma dimensão indicial: "Afonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate que agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolvê-lo todo como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sobre o verde triste das ramas" (Cap. I, pág. 29 e 30).
A mancha de sangue que Afonso pressente será, afinal, o sangue derramado por Pedro, o sangue irmão de Carlos e Maria Eduarda que levará à destruição da família.
Ao falar dos amores de Carlos, Ega diz: "hás-de vir a acabar desgraçadamente como ele [Don Juan], numa tragédia infernal" ou, muito expressivamente, "... estais ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o outro." (Cap. VI, pág. 152).
No capítulo XI, Carlos, em casa de Maria Eduarda, olha "um vaso do Japão onde murchavam três belos lírios brancos" (Cap. XI, pág. 347). Os três lírios que murcham na jarra não serão afinal o indício da desgraça que se abaterá sobre os três Maias (Carlos, Maria Eduarda, Afonso) devido à relação que vai nesse dia começar a estabelecer-se entre os dois primeiros?
Tal como pressentira um sinal do destino na semelhança do seu nome e no de Maria Eduarda, Carlos encontra semelhanças entre a sua amante e o avô (Cap. XI, pág. 368). Do mesmo modo, Maria Eduarda acha Carlos parecido com sua mãe. "Sabes tu com quem te pareces às vezes?... É extraordinário mas é verdade. Pareces-te com minha mãe!" (Cap. XIV, pág. 471).
O quarto de Maria Eduarda nos Olivais está carregado de indícios. Na parede, uma tapeçaria "onde desmaiavam, na trama da lã, os amores de Vénus e Marte", os irmãos incestuosos. Numa outra parede, um quadro representando a "cabeça degolada, lívida, gelada no seu sangue" de João Baptista, vítima da paixão de Salomé.
E finalmente, para completar a decoração indiciante, temida por Maria Eduarda, "de cima de uma coluna de carvalho, uma enorme coruja" olhava agoirenta o "leito de amor". Aliás, o quarto é visto como destinado a "voluptuosidades grandiosas de uma paixão do tempo de Lucrécia ou de Romeu" (Cap. XIII, págs. 433, 434). A própria casa a "Toca", com a dimensão semântica (animalesca) que o nome lhe confere, e ainda o facto de Maria Eduarda o querer "pintar em letras vermelhas sobre o portão" (Cap. XIII, pág. 433), são elementos indiciadores.
Na primeira noite passada com Carlos, "os olhos de Maria Eduarda perdiam-se outra vez na escuridão como recebendo dela o presságio de um futuro onde tudo seria confuso e escuro também" (Cap. XIV, pág. 458).

 

A Katársis, catarse ou cataroia

 

Tem a ver com o facto de os leitores, depois de sentirem vibrar as cordas da sensibilidade e de verem despertar sensações, ficarem mais purificados e com ganas de lutar contra todas as formas de injustiça/perseguição do destino.

 

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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