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FERNÃO LOPES - Conceção de história

 

- Prólogo da Crónica de D. João I -

 

 Alexandre Herculano afirma (Opúsculos, V. Bertrand, 5.ª ed., s. d., pág. 8) que «poucos homens têm nascido historiadores como Fernão Lopes» e que o cronista «adivinhou os princípios da moderna história».

Certifiquemo-nos destas afirmações, estudando a conceção da história tal e qual o grande mestre a expôs no prólogo da Crónica de D. João I.

 

 

Crónica de D. João I

 

Começa por dizer que todos os homens ganham extraordinária afeição à terra onde nasceram e onde vivem e que, por via disso, quando contam alguma coisa a seu respeito, nunca exprimem a verdade nua e crua: o bem exageram-no e o mal ocultam-no ou atenuam-no. Foi o que aconteceu - prossegue - aos que escreveram os feitos de Portugal e Espanha, sobretudo os referentes ao Rei da Boa Memória e ao seu homónimo de Castela. Relativamente a este último, Fernão Lopes quer atingir implicitamente Lopez de Ayala, que se referiu ao nosso D. João I “pondo parte dos seus bõos feitos fora do louvor que mereciam” e contando outros como não se deram na realidade. Tudo isto por exagerado amor pátrio.

Assegura-nos em seguida que não se deixará arrastar por essa «mundanal afeiçom».

 

A história, segundo acabámos de ver, deve expor a verdade sem outra «mestura». Assim, ao relatar os acontecimentos bons, deve omitir «todo fingido louvor», e «nuamente mostrar ao poboo» os factos desagradáveis. Mas isto não obsta a que o cronista possa errar num ponto ou noutro. Distinguindo escolasticamente entre verdade e certeza e entre mentira e erro, admite a possibilidade de errar; mentir é que nunca mentirá. Apesar de tudo, confia que não errará, pois fez quanto pôde para obter a certeza dos factos, procedendo a aturadas investigações.
 

No capítulo 159 da 1.ª parte desta mesma crónica, volta Fernão Lopes a insistir nas informações que colheu em «podres scripturas» e até em «bitafes antigos» (epitáfios = pequenas inscrições elogiosas em monumentos e/ou cemitérios).

Urna vez conseguida a certeza dos factos, o historiador não receia sacrificar a beleza de possíveis narrações menos verdadeiras à exposição realista da verdade total na sua eloquente simplicidade.

 

Da análise que acabamos de fazer a este prólogo se conclui que a história é para Fernão Lopes:


a exposição da verdade toda;


na sua natural simplicidade;


livre de qualquer parcialidade gerada por um excessivo amor pátrio (não inventando façanhas nem ocultando desastres);


com a certeza obtida através de séria investigação, pondo de parte lendas, tradições, todos os factos que não possam ser garantidos por documentos.

 

 

BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.

 


 

Joaquim Matias da Silva

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