Além de lirismo, na história de Fernão Lopes também há
drama, pois as personagens que nela surgem são vivas:
agem e falam. Com efeito, os tipos que copiou do real
são fiéis e inconfundíveis. Deles distinguimos nas suas
obras duas espécies: os coletivos e os individuais.
Tipos coletivos
As multidões, a começar no primeiro e a acabar no último
dos seus livros, são como as enxurradas em inverno
rigoroso. Levantam-se eletrizadas, rolam furibundas e
nada há que resista ao seu ímpeto. O movimento de que o
cronista as anima, só voltará a surgir em Herculano e
Oliveira Martins.
Raro é o capítulo onde se não sente o arfar ciclópico da
onda popular. A imaginação do artista recriou então
cenas inesquecíveis.
Veja-se, por exemplo, o povo anónimo a ferver, quando
soube do suposto perigo que podia correr o Mestre de
Avis na altura em que matou o Andeiro (Crónica de D.
João I, 1.ª parte, cap. 11). Um pajem corre pela cidade
e dá o rebate de que querem matar o Mestre:
«As gentes que esto ouviam saíam aa rua veer que cousa
era; e, começando de falar ũus com os outros,
alvoroçavom-se nas voontades e começavom de tomar armas,
cada ũu como melhor e mais asinha podia [ ... ] Nom
cabiam pelas ruas principaes e atravessavam lugares
escusos, desejando cada ũu de seer o primeiro; e,
perguntando ũus aos outros quem matava o Meestre, nom
minguava quem responder que o matava o conde Joam
Fernández, per mandado da Rainha. E, per voontade de
Deus, todos feitos de ũu coraçom com talente de o
vingar, como forom aas portas do paaço, que eram já
çarradas, ante que chegassem, com espantosas palavras
começarom de dizer:
- U matom o Meestre? Que é do Meestre? Quem çarrou estas
portas?
Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes
hi havia que certificavom que o Mestre era morto, pois
as portas estavom çarradas, dizendo que as britassem
pera entrar dentro, e veeriam que era do Meestre ou que
cousa era aquela. Deles braadavom por lenha, e que
veesse lume para poerem fogo aos paaços e queimar o
treedor e a aleivosa; outros se aficavom pedindo
escaadas pera subir acima, pera veerem que era do
Meestre [...J. E nom soomente era isto aas portas dos
paaços, mas ainda arredor deles, per hu homẽes e
mulheres podiam estar. Ũas viinham com feixes de lenha,
outras tragiam carqueija pera acender o fogo, cuidando
queimar os muros dos paaços com ela, dizendo muitos
doestos contra a Rainha.»
Os imperfeitos verbais, cheios de dinamismo,
arrastam-nos até às ruas de Lisboa. Nada nos é narrado a
frio. Nós estamos lá e vamos assistir a tudo.
Iluminura
alusiva ao cerco de Lisboa de 1384, na crónica de Jean
Froissant.
O cronista começa por apontar gradativamente os motivos
que criaram a multidão: as pessoas ouvem os gritos do
pajem, vêm à rua saber de que se trata, falam uns com os
outros, ferve-lhes o sangue no peito, pegam em armas.
Depois, sem perder tempo, sacode a multidão em correria
louca: uns através de ruas largas, outros por atalhos.
Em seguida, põe todo o mundo a gritar: estes pedem
lenha, aqueles escadas, vários tentam arrombar as
portas. Todas estas pessoas formam um só corpo, como se
tivessem uma consciência coletiva. A insistência com que
falam no Mestre e o facto de todos desejarem saber o que
é feito dele dizem-nos bem o amor que dedicavam ao
futuro D. João I.
Tipos individuais
Vamos destacar alguns da imensa galeria das crónicas. O
processo de que Fernão Lopes se serve para os desenhar,
é duplo: ou acumula factos sobre factos (caraterização
indireta), ou então esboça o retrato em traços rápidos e
precisos (caraterização direta). Mas quase sempre
prefere os factos ao apontamento abstrato.
D. Pedro – Gago, amigo da caça, folião, sobretudo
justiceiro, é tratado numa série de episódios que são
outros tantos capítulos da respetiva crónica.
D. Fernando – Primeiro vemo-lo «ledo, namorado,
amador de molheres»; depois, enlouquecido, fraco de
coração e extremamente abatido e até envergonhado.
D. João I – «Cobiçoso d'onra per sua ardente natureza
e grande coraçom», é desenhado num conjunto de factos
que o mostram intransigente com os fracos,
condescendente com os grandes e, em muitas alturas,
indeciso.
D.
Pedro I
D.
Fernando
D.
João I
D. Nuno – A figura do Condestável é a dum santo.
Fernão Lopes mostra-no-lo valente, fascinante, caridoso
até ao
extremo de repartir o pão com as mulheres e filhos dos
vencidos, puro como Galaaz. Um dia, no cerco de Vila-Lobos, o Mestre mandou decepar seis moços só por terem
ido à erva sem sua licença. Em vão D. Nuno intercedeu
por eles. Quando viu tão desproporcionado castigo, «o
Conde [...] saiu-se fora, nom falando, com vulto triste
e choroso, e foi-se logo pera sua tenda e deitou-se de
bruços em cima da cama; e, posto que suas lágrimas
constrangidamente fossem retraídas, nom o pôde tanto
encobrir, que os que eram derredor o nom ouvissem chorar
muito e dar muitos soluços por tal justiça como aquela»
(Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. 109).
Leonor Teles – Fernão Lopes descobriu nesta mulher a
perversidade encarnada. Pérfida, ambiciosa, intriguista
ousada, esperta, sensualona, encobria um inferno de
maldades com esmolas e favores e ainda com uma formosura
de estontear.
D. Maria Teles. Irmã da anterior, quis enredar nas suas
tentações diabólicas o Infante D. João, como Leonor
enredara D. Fernando. Era «sesuda
e fremosa e pera cobiçar».
Pagou bem caro a sua ousadia.
D. Leonor Teles de Menezes
D.
Nuno
Autores modernos foram buscar às obras do Cronista
elementos para comporem algumas das suas melhores obras
de romance ou teatro histórico: "O Monge de Cister" -
Alexandre Herculano; "Lendas e Narrativas" - Alexandre
Herculano; "O Arco de Santana" - Almeida Garrett; "Alfageme
de Santarém" - Almeida Garrett; "Vida de Nun'Álvares"
-Oliveira Martins; "Leonor Teles" - Marcelino de Mesquita;
"As Duas Irmãs" - Manuel de Figueiredo.
BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura
Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.