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FERNÃO LOPES

 

- Interação com o leitor -

 

Até aqui, Fernão Lopes foi apresentado como historiador. Agora, será estudado como literato, como escritor.

 

 

No prólogo da Crónica de D. João I, Fernão Lopes não nos prometia «fremosura de palavras». Certamente que o fez por modéstia, caso contrário teríamos de concluir que a arte de bem escrever lhe era tão natural como o ato de respirar. De facto, se o conteúdo da sua história é primoroso, a estética em que o embelezou não lhe fica atrás. Como o conseguiu? Recorrendo a processos que passamos a enumerar:

 
Comunicação graciosa com o leitor (coloquialidade)
 

Se um bom comunicador precisa de convencer o auditório, fazendo uso de um estilo interativo, de um modo de falar que costuma usar-se entre amigos à lareira, Fernão foi-o. Na verdade, a sua coloquialidade e, dir-se-á mesmo, afabilidade nas narrações, são notáveis. Cria um dialogismo com o leitor, parecendo, muitas vezes, que entrava com ele uma sociabilidade amiga, ela própria enformadora da sua heurística desveladora. A cada passo parece pegar-nos no braço ou tocar-nos no ombro para nos segredar: «ora esguardae, como se fossees presente». Desta maneira, é deveras cativante a simpatia que mostra pelo leitor nos seus típicos «fallamentos».

Mas isto não é tudo. Como um guia solícito, conduz-nos graciosamente, familiarmente, dum tema a outro, sem nos aborrecer, sem dar tréguas à nossa curiosidade e interesse, como o comprovam alguns exemplos extraídos da Crónica de D. João I:

Tendo D. Filipa dado à luz, o Rei veio juntar-se-lhe em Santarém. Depois de contar esta jornada, acrescenta o cronista:

«Des i veo-se a Lisboa, onde fique folgando com seu primogénito filho, e nós partiremos com os embaixadores, por veer se em Caste aconteceu depois tal cousa que nos convenha poer em renembrança.» (2.ª parte, cap. 141).

 

D. Nuno, após campanhas esgotantes, acampou em reconfortante trégua. Exposto o facto, prossegue Fernão Lopes:

«Nun'Álvares er apagou seus fogos por cobrar o sono que dan perdera, onde fique com boas noites; e nós tornemos veer a atribulada Lisboa em que ponto está» (1.ª parte, cap. 147).


Tendo-se referido à preparação da frota do Porto, o historiador divagou por vários assuntos e fez-nos acompanhar o Condestável até à fronteira. E continua:

«Onde leixemos estar Nun'Álvares por guarda de sua frontaria, e vejamos se chegou já a frota que partiu do Porto a Lisboa e do que i aconteceu.» (1.ª parte, cap. 127).


Ao relatar a morte do Conde Andeiro, conta como Fernão de Alvres e Lourenço Martins vieram fechar as portas do palácio e dá ordens a um pajem para que fosse pela cidade gritando que matavam o Mestre. Em seguida confidencia-nos:

«Leixemos o page ir hu lhe mandarom e vejamos em tanto o que fez no paaço da Rainha» (1.a parte, cap. 10).

 

Esta maneira de narrar (utilizando a chamada função fática da linguagem), frequentíssima nas obras de Fernão Lopes, exerce sobre o leitor uma fascinação que enleva. Aprendeu-a em frequentes leituras das novelas de cavalaria, sobretudo “Demanda do Santo Graal”.
 

A Pátria é madre que gera e defende todos os seus habitantes; é uma sociedade de abrigo e proteção e salvação como a Igreja. Por isso diz o cronista que, na crise de 1383, o Mestre de Avis mandou D. Nuno e seus companheiros a pregar pelo Reino o Evangelho Português, tal qual Jesus, depois da Ressurreição, mandara os discípulos a espalhar pelo mundo a Boa Nova da Redenção. Do Minho ao Algarve, esses “evangelistas” mobilizaram os povos e a salvação não se fez esperar (cf. Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. 159).

 

 

Esta salvação coletiva, que se irmana com a vida da Pátria, está acima de pais e irmãos, acima de todos os interesses particulares. Só obedece a um imperativo: o bem comum.

 

 

A Pátria vê-a Fernão Lopes representada no Rei e na Capital. É sugestivo o diálogo que sustenta com a cidade de Lisboa, perguntando-lhe quem é o seu esposo, quem são os seus mártires, quem são os seus confessores (cf. Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. 160 e segs.). E ela responde que é o Mestre de Avis, que são todos os cidadãos e terras que estiveram a seu lado na luta com Castela e a preservaram da morte.

 

Pela primeira vez, a Pátria é de todos. Vinha-se, como é sabido, do retalhado domínio senhorial, onde as terras e os seus habitantes seguiam o destino arbitrário dos seus donos. Mas agora Portugal não quis acompanhar para Castela a herdeira do trono. Ganhou consciência da sua forte personalidade e doravante não será mais a Nação que pertence ao Rei mas sim o Rei é que pertencerá à Nação. E, se qualquer Rei pensar um dia destruí-la, os Portugueses, todos unidos, saberão, como souberam em 1383, escolher o que melhor lhes convém.

 

Para interagir com o leitor, Fernão Lopes recorre a vários processos, de entre os quais podemos destacar:

 

As perguntas retóricas, que são um convite à reflexão;

As frases exclamativas, interjetivas (ato ilocutório expressivo), entrecortadas, sincopadas ou reticentes, a traduzirem toda a emoção do momento e a despertarem o lado mais sensível do leitor;

As frases apelativas/imperativas (ato ilocutório diretivo) que estreitam a relação narrador/leitor.

A descrição pormenorizada das coisas e dos acontecimentos/situações, com constantes anotações sensoriais;

A reiteração de promessas/compromissos  que faz ao interlocutor, no sentido de não o vir a defraudar (ato ilocutório compromissivo);

O caráter assertivo das suas declarações (acto ilocutório assertivo), garantido a sua credibilidade junto do leitor.

F

BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.
 

Joaquim Matias da Silva

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