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FERNÃO LOPES
- Linguagem -
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Com menos latinismos do que a de D. Duarte ou de D.
Pedro, a linguagem de Fernão Lopes tem ainda um sabor
bastante arcaico. É fértil em anacolutos e outras
irregularidades sintáticas. Mas é naturalmente incisiva,
diz tudo o que quer sem rodeios e principalmente |

Assinatura do cronista Fernão Lopes.
Torrre do Tombo.
Coleção especial, cx.33, n.º 15 |
com muita familiaridade. O tom de conversa (coloquialidade), de
«fallamento» (como ele diz), mantém-se vivo do princípio
ao fim, em todas as crónicas. Não recorrendo a uma
adjetivação abundante, narra sempre com simplicidade e,
às vezes, com muita elegância: «Ora assi foi que ainda a
manhãa com sua claridade nom alumiava bem a terra, e já
os muros e lugares altos eram cheios de homẽes e
mulheres, pera ver» (Crónica de D. João I, 1.ª parte,
cap. 133).
Mas esta simplicidade não nos deve levar a crer que a
arte do cronista fosse fortuita. Escreveu páginas de boa
qualidade literária, onde não falta ordem preconcebida e
onde os efeitos estéticos foram, sem dúvida, uma séria
preocupação. A título de amostra, veja-se parte da
descrição da tempestade que surpreendeu o Mestre de Avis
numa viagem a Sintra (Crónica de D. João I, 1.ª parte,
cap. 164): «E
eles indo pelo caminho, nom mui longe da cidade, naceróm
no céu ũas leves nuveẽs, com escuro envorilhamento,
molhando a terra de ligeiros orvalhos. E, crecendo mais
sua espessura, foi assi o ar coberto de negridom
chuivosa, que a noite mostrou sua grande tristeza ante
das horas perteecentes. Os montes começarom de se lavar
com multidom de grossas chuivas, e, decendo as estradas,
seu trigoso escorrimento dava gram torva aos armados,
que queriam seguir seu caminho; de guisa que dos pobres
regatos, hu adur morava hũa simprez rãa, se faziam tam
grandes ribeiros, que poinham espanto de se poder
passar. E, seendo cada vez moor a aspereza de tam
esquivo inverno, parecia que naciam no céu novas
maneiras de chuvas, pera soverter o mundo outra vez com
mortal dilúvio; assi que os rios, crecendo fora de
mesura e cobrindo as acostumadas pontes, adur eram os
homens ousados de provar seu medroso passamento [
... ]. Em este comeos, seendo já as trevas de todo
çarradas, com infernal escuridom, naceu de suspeita ũu
pesado som, avondoso de grandes ventos, mesturado com
çarraçom e saraiva; e, partindo-se o vento, o céu se
soltou todo em lâmpados e torvões fora do razoado
costume [...]. As trevas eram em tal quantidade,
que a neũu lume de lâmpadas leixavom dar ousio de vista
que prestasse [...]».
A tempestade é descrita com exata gradação: leves nuvens
nascem no céu, ligeiros orvalhos começam a molhar a
terra, a espessura dessas nuvens adensa-se, caem depois
grossas chuvas, transformando os regatos em rios,
seguem-se finalmente trovões, ventos e relâmpagos. É
graciosa a vivificação prosopopeica (personificada) da
noite, que mostra mais cedo do que é costume a sua
tristeza; também as nuvens nasceram e os montes, cheios
de vida, se começaram a lavar. Repare-se ainda na forma
hiperbólica de anotar a pequenez dos ribeiros («hu adur
morava huma simprez rãa»), na colocação dos adjetivos
antes dos nomes, na multiplicidade de termos agrupados
no campo lexical da «escuridão», em tantos registos de
subjetividade próprios da linguagem literária.
Ainda no tocante a este tipo de linguagem subjetiva, o
cronista, além de metáforas e outras imagens, lança mão
com assiduidade de expressivas comparações: «As
gentes dos Castelãos som aqui tantas a par de nós, mais
que as ervas dos campos»
(Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. 56); «Os
Portugueses nom pareciam mais ante eles que o lume de
uma pobre estrela ante a claridade da Lua»
(Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. 42); «E
assi como é natural cousa a mão ir amiúde onde see a
dor, assi uns homens, falando com outros, nom podiam em
ai departir senom em a míngua que cada um padecia»
(Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. 148).
BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura
Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.
Joaquim
Matias da Silva
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