Foi Fernão Lopes um homem rigoroso, probo? As suas obras
contêm imprecisões? É o que veremos em seguida.
F
O
rigor e a probidade em Fernão Lopes:
O rigor e até a própria honradez de Fernão Lopes
foram postos em dúvida por mais de uma vez. Em 1924, o
general Morais Sarmento, no livro D. Pedro I e a sua
época, atacou asperamente o cronista, acusando-o de,
por aliciações do clero, ter viciado o caráter do Rei
Justiceiro. O então professor em Coimbra, Dr. Manuel
Gonçalves Cerejeira e o Prof. Damião Peres demonstraram,
porém, que Fernão Lopes, no que deslustra o monarca em
questão, não fez mais do que seguir à letra a
documentação da Chancelaria Real.
De nada mais precisaríamos para crer na isenção
do cronista. Nem o dinheiro nem a amizade foram
capazes de contribuir para o levar a esconder os
excessos do excêntrico avô de quem lhe pagava,
interpretando a seu modo os documentos coevos.
No entanto, há mais.
Confronta a cada passo documentação
contraditória ou discordante e decide-se pela
mais razoável: «e
esta razom, segundo nos parece, ocupa mor parte
da verdade que as outras.»
(Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap.
181)
Refuta afirmações tendenciosas de Ayala (= cronista
espanhol que, em muito, inspirou Fernão Lopes),
transcrevendo bulas de Urbano VI e Bonifácio IX (Crónica
de D. João I, 1.ª parte, capítulos 125 e 126).
Aponta inexatidões ao mesmo cronista espanhol, apelando
para conhecimentos geográficos incontestáveis. Ayala,
para explicar uma derrota castelhana, afirma que as
tropas do seu país se não podiam movimentar com
facilidade por terem dois vales pela frente, quando, em
outro lugar da sua história, já diz que se encontravam
em campo chão. Esta contradição não passou despercebida
a Fernão Lopes, que elucida ser o terreno em causa uma
charneca, como toda a gente sabe (Crónica de D. João
I, 2.ª parte, cap. 35).
Quando não consegue obter a certeza dos acontecimentos,
limita-se a exarar as diferentes versões, como no caso
do matrimónio de D. Pedro com Inês de Castro, “deixando
cárrego ao que esto leer que destas opiniões escolha
qual quiser»
(Crónica de D. Pedro, cap. 29).
Em caso de dúvida, prefere o documento das chancelarias
à opinião dos narradores que tem à mão.
As
imprecisões na obra de Fernão Lopes:
É claro que Fernão Lopes não esgotou a
documentação existente no seu tempo e que, num ponto ou
noutro, não foi imparcial, pelo facto de ser português.
Aqui e além, com efeito, favorece, embora veladamente, a
política da Casa de Avis.
Está hoje provado que alguns dados cronológicos
e geográficos das campanhas militares não estão certos.
Parece que gostava de olhar mais para o aspeto heroico e
cavaleiresco dos combates do que para a sua fixação no
espaço e no tempo.
O Prof. Costa Pimpão (ob. cit., pág. 245) alude
à fraqueza de o cronista se deixar mover, nas
encruzilhadas, por aquilo a que ele próprio chama
«rezam» ou «razoado entendimento». Mas a verdade é que
esta «rezam» se transforma, uma vez ou outra, em puro
sentimento patriótico, levando-o a exageros e ironias.
Rodrigues Lapa (ob. cit., pág. 364) indica sumariamente
algumas destas inconveniências:
alguns espanhóis foram encontrados mortos em Aljubarrota
e não tinham qualquer ferimento (morreram, então, de
quê?);
Representação da batalha de Aljubarrota
os Castelhanos fugiam só porque os nossos gritavam: «já
fogem! já fogem!»;
na refrega da batalha da Bramadeira, os Portugueses
lutaram na proporção de um contra seis e as baixas
foram, do lado de Castela, 226 mortos, 12 prisioneiros e
1 ferido; e, do lado de Portugal, 1 morto e 1 ferido!
Outras incongruências do género se encontram na
obra do cronista. Isto, porém, compreende-se. Quando
Fernão Lopes escreveu, é natural que os feitos dos
heróis de Aljubarrota andassem já na boca do povo em
relatos épicos e quase lendários. E o amor que votava à
causa do Mestre, impediu o escritor de reduzir muitos
desses feitos às proporções normais. Estas inexatidões
são, no entanto, tão raras e esbatidas, que pouco
deslustram a clareza da verdade que se reflete, como sol
doirado, em toda a sua obra.
Para além de tudo isto ainda, é bom não esquecer
que o cronista recria imaginosamente os pormenores de
muitas cenas. Na Crónica de D. João I sobretudo,
são frequentes, por exemplo, as falas vivas e exaltadas
quer de indivíduos, quer de multidões. Serão cópia da
realidade, isto é, serão aquilo que na verdade foi dito?
É difícil de crer. Tais falas parecem não passar de
produto Ia imaginação de Fernão Lopes, que, através
delas, interpreta, com rigor, o estado de espírito das
pessoas quê movimenta.
BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura
Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.