Os historiadores que precederam Fernão Lopes não foram
capazes de nos dar uma visão de conjunto da sociedade
que descreveram. Até os justamente nomeados Froissart e
Ayala pouco mais fizeram do que apontar a objetiva nos
grandes senhores, reduzindo as suas narrações a uma
sucessão movimentada e contínua de feitos cavaleirescos
e intrigas palacianas, anotados dia a dia.
A narração histórica, tal qual hoje a concebemos, deve
abranger todas as infraestruturas que sustentam a
sociedade; há de examinar os múltiplos fatores que
orientam ou fazem ziguezaguear a marcha dos
acontecimentos; terá de ser uma tomada de vistas em
grande plano geral.
Ora, Fernão Lopes fez assim a história e, sob este
aspeto, foi superior a todos os do seu tempo. É claro
que as suas narrações seguem o molde da crónica, isto é,
limitam-se, de cada vez, aos acontecimentos ocorridos na
vida de um rei. Mas, circunscritas a esse período de
tempo, analisam os vários aspetos da vida nacional,
retratam-nos a sociedade inteira, introduzem-nos na
barafunda da existência que então se viveu.
E a principal inovação de Fernão Lopes está em
relacionar toda esta imensa variedade de factos e
fazê-los convergir para um grandioso plano de conjunto.
Não se limita a arquivar os acontecimentos na sua
sucessão fria, ano a ano, como quem redige efemérides.
Sobretudo na Crónica de D. João I, dentro de uma
urdidura onde há princípio, meio e fim, nós vemos todos
os factos narrados a agruparem-se e a desenharem o
estupendo painel da revolução social que caracterizou a
época, ou seja, a passagem de Portugal do feudalismo
para a burguesia dos tempos modernos.
A guerra
Assistimos ao recrutamento de soldados e marinheiros,
vemo-los nos acampamentos iluminados, vibramos com eles
quando atacam, estremecemos quando um virotão (=setas
curtas) se lhes espeta na fronte, somos surpreendidos
até com o número exato de pedradas atiradas contra um
forte, como sucedeu, por exemplo, no cerco de Melgaço.
Representação da batalha de Aljubarrota
A vida na corte
Vemo-lo a fazer o retrato das principais personagens da
vida política de então, conhecemos o caráter de cada
uma, somos enredados nas suas intrigas e baixezas, nos
seus amores e escândalos, e presenciamos vinganças
horrorosas. As bodas e outras festas e as caçadas em que
tomamos parte, deslumbram-nos.
As relações com outras potências
Podemos ler e comentar os tratados de alianças, as
cartas diplomáticas, as bulas pontifícias. Ouvimos
Cardeais Legados a pôr fim a dissensões entre famílias
reinantes, assistimos à eleição de Papas, vemos o início
do Cisma do Ocidente.
A
economia
Tomamos conhecimento da quebra da moeda, vemos o novo
dinheiro feito por D. Pedro, ficamos a par de muitos
processos utilizados pelos monarcas para aumentarem os
seus tesouros e até do modo como os administravam,
assistimos ao lançamento do imposto das sisas, da
promulgação das leis de D. Fernando em prol da
agricultura, da concessão de privilégios à marinha
mercante.
A
nova nobreza
Congratulamo-nos ao ver patriotas vilãos cumulados de
honrarias a inventar pergaminhos de nobreza, adotando
apelidos de velhas linhagens, a usarem títulos pomposos
e o tratamento de dom, a tomarem conta de mercês
rendosas com que o Mestre os compensou da lealdade e dos
sacrifícios suportados na causa da independência.
O povo
É no meio do povo que o cronista nos guia como em
própria casa. A «arraia miúda» fascina-o. Faz-nos ouvir
as vozes escandalizadas de tanoeiros, alfaiates,
ovelheiros, cabreiros, que gritam contra o casamento de
D. Fernando, ou contra os partidários de Castela;
leva-nos ao encontro de homens e mulheres que, em
Santarém, vaiam os que arvoram o pendão de D. Beatriz;
mete-nos no meio de toda a população de Lisboa, que se
junta à volta do paço de Leonor Teles, com machados,
escadas, feixes de lenha, disposta a tudo incendiar e
arrasar, só porque lá dentro o Mestre parece correr
perigo; aponta-nos os «ventres ao sol» a cercar castelos
e a tomá-los com denodada valentia e desprendimento
total da vida; arrasta-nos para dentro da Capital
cercada pelos Castelhanos e faz-nos ver a gente humilde
toda numa azáfama: uns a irem de noite buscar trigo a
Almada, outros a combater nas ameias e torres, alguns a
tocar sinos a rebate, bastantes a morrer de fome e a
chorar e a rezar, todos a sofrer horrivelmente; e,
mudando de cenário, mostra-nos os cidadãos a beijarem-se
e abraçarem-se, doidos de alegria, após as vitórias; ou
então, conduz-nos até ao Porto, para assistirmos à
receção que esse burgo faz a D. João I, com danças,
cantares, muitos vivas, ornamentações, cortejos
fluviais. Não resta dúvida: Fernão Lopes foi o
historiador do povo, porque foi o povo quem salvou
Portugal em 1383, pelo que o cronista coloca os destinos
da Pátria livre nos ombros dos mais humildes, numa
autêntica epopeia, onde o herói é a «arraia miúda», o
povo anónimo.
Receção de D. João I, no Porto.
Não interiorizemos, todavia, a ideia de que o cronista
não faz outra coisa senão elogiar as multidões. Muito ao
contrário. Quando a verdade o exige, também põe a nu as
suas monstruosidades. É o que faz ao descrever a morte
do Bispo de Lisboa, defenestrado da torre da catedral
pela «cega sanha que em taes feitos nenhuma cousa
esguarda» (Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. 12). E,
como historiador de magnífico critério, vai atrás das
intenções que movimentam as turbas e nem sempre descobre
nelas autêntico patriotismo. É o que acontece ao afirmar
que houve populares que se revoltaram a favor do Mestre
com os olhos fitos no roubo (Crónica de D. João I, 1.ª
parte, cap. 44). Instintos pérfidos e sanguinolentos viu
ainda Fernão Lopes nos amotinados de Évora que prenderam
uma abadessa beneditina, a violentaram e depois «a
tirarom fora da Sé desonradamente, e a levarom pela rua
da Selaria atá a Praça; e naquel lugar lhe deu um deles
uma cuitelada pela cabeça, de que caiu morta em terra, e
des i os outros começaram de acuitelar per ela, cada um
como lhe prazia» (Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap.
45). Assim, o historiador insigne tem a preocupação de
nos mostrar o «povo» na sua generosidade heroica e nas
suas baixezas mais hediondas. Em vez de, à semelhança de
outros, passar o tempo a bajular os grandes senhores,
introduz o «povo» na história como agente de pleno
direito.
F
BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura
Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.