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FERNÃO LOPES
- Realismo e
visualismo -
Fernão Lopes parece-nos preocupado com um único anseio:
fazer-nos presenciar os acontecimentos como ele próprio
os viu, depois de os investigar. Tem a obsessão do
pormenor realista, a cuja anotação ajusta as palavras
com primor. Os quadros saem-lhe perfeitos e todas as
tintas e traços convergem para criar uma grandiosa visão
de conjunto. É um pintor, mas a sua paleta de cores é
substituída por palavras.
Exemplos do que se acaba de afirmar não faltam na obra
do cronista. Veja-se, a título ilustrativo, a
extraordinária pintura das tribulações que Lisboa
padecia por míngua de mantimentos
(Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. 148).

Causa das tribulações.
A escassez de mantimentos na cidade sobe cada vez mais,
pois a população está constantemente a aumentar: são os
da frota do Porto que chegam, são os das aldeias
vizinhas que ali se acolhem com medo do inimigo. Só
muito a custo conseguem alguns sitiados mais corajosos
ir buscar trigo a Almada. E com que perigos! Era
necessário atravessar o rio Tejo de noite e
sujeitarem-se a frequentes ataques dos Castelhanos.
Apesar de tudo, foram sempre bem-sucedidos, menos numa
ocasião em que um traidor os denunciou. Mas o que
traziam era insignificante. Os géneros começavam a subir
proibitivamente de preço. O cronista diz-nos o preço do
alqueire de trigo, da canada de vinho, da posta de
porco, das galinhas, da dúzia de ovos, dos bois, etc.
Até aqui a descrição tem a minúcia de um relatório.
Tribulações físicas.
É neste ponto que a pena do historiador nos retalha os
sentidos todos, um a um. Assim:
Nós vemos, no lugar onde costumavam vender o trigo,
«homens e moços esgaravatando a terra, e se achavom
alguns grãos de trigo, metiam-nos na boca, sem teendo
outro mantimento.»
Nós estamos a ouvir «moços de três e quatro anos pedindo
pam, pela cidade, por amor de Deus, como lhe ensinavam
suas madres.»
Nós provamos com relutância e experimentamos o amargor
dos que «se fartávom de ervas e bebiam tanta água, que
achavon mortos homens e cachopos jazer inchados nas
praças e em outros logares.»
Nós sentimos a fome negra dos que comiam «pam de bagaço
de azeitona [ ... ] e raízes de árvores e d'outras desa.
costumadas cousas, pouco amigas da natureza.» Nós temos
de acompanhar judeus e «mancebas mundairas» e pobres
doentes, todos expulsos da cidade a fim de não gastarem
a comida dos defensores válidos, até ao arraial
castelhano; temos de os ver pedir aí esmola, tanta é a
fome, e temos de tapar os ouvidos para não escutarmos os
açoites com que os recebem, ou os gritos que soltam ao
serem desalmadamente aprisionados.
As sensações que experimentamos ao ver este quadro ferem
a nossa imaginação como pungentes espinhos.
Tribulações morais.
Não são menores os sofrimentos que atormentam a alma de
toda aquela pobre gente.
Choram os adultos a quem os miúdos pedem pão: - «Muitos
- non tinham outra cousa que lhe dar senou lágrimas, que
com eles chorávom, que era triste cousa de veer.»
Choram as mães: «Desfalecia o leite naquelas que tinham
crianças a seus peitos [...] e, veendo lazerar seus
filhos, [... ] chorávom a miúde sobr'eles a morte, ante
que os a morte privasse da vida.»
Choram os pais, ao ver «estalar de fome os filhos que
muito amávon, rompiam as faces e peitos sobre eles, nom
teendo com que lhes acorrer senom planto e espargimento
de lágrimas.»
Desesperam todos, gritando: «Ora veesse a morte ante do
tempo, e a terra cobrisse nossas faces, pera nora
veermos tantos males.»
Ao dar a última pincelada neste quadro, Fernão Lopes não
se contém que nos não convide docemente: «ora esguardae
como se fossees presente». O realismo e a visualidade da
sua prosa é de tal ordem que parece que nós estamos
mesmo presentes, que vemos tudo, que tudo sentimos. A
séculos de distância quase sofremos com o atribulado
povo de Lisboa de 1384.
Para seduzir o leitor, ele recorre a vários processos,
de entre os quais podemos destacar:
As perguntas retóricas, que são um convite à reflexão;
As frases exclamativas, interjetivas (ato ilocutório
expressivo), entrecortadas, sincopadas ou reticentes, a
traduzirem toda a emoção do momento e a despertarem o
lado mais sensível do leitor;
As frases apelativas/imperativas (ato ilocutório
diretivo) que estreitam a relação narrador/leitor.
A descrição pormenorizada das coisas e dos
acontecimentos/situações, com constantes anotações
sensoriais;
A reiteração de promessas/compromissos que faz ao
interlocutor, no sentido de não o vir a defraudar (ato
ilocutório compromissivo);
O caráter assertivo das suas declarações (acto
ilocutório assertivo), garantido a sua credibilidade
junto do leitor.
F
BARREIROS, António José, s/d. História da Literatura
Portuguesa, vol. I. Braga: Editora Pax (9.ª ed.),
c/ adaptações.
Joaquim
Matias da Silva
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