Atente nestas duas estâncias de Os Lusíadas,
extraídas do canto X:
Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E à sua pátria e Rei temido e amado
E prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.
QUESTIONÁRIO:
1.
Identifique o processo fonológico presente em
assi (est.1, v.1) > assim e em
naceram (est.1, v.4) > nasceram.
2.
Explicite a diferença de valor da unidade lexical
“que” nos versos 1 e 5
da segunda estrofe, por um lado, e nos versos 5 e 6 da
mesma estrofe,
por outro. 3. Na cadeia de referência dos versos 3 a 6 da
primeira estância, aponte um exemplo de uma anáfora e de
uma catáfora. Justifique a sua resposta. 4. Considere as sequências textuais:
- O Poeta interpela a Musa e diz que tem a sua voz
enrouquecida, dado que tem cantado para gente surda;
- A Lira que o Poeta sente destemperada leva-o a pedir à
Musa que lhe acenda o engenho, para prosseguir o seu
canto.
2.
Nos versos 1 e 5, a unidade lexical “que”
tem um valor causal - relativo, enquanto nos versos 5 e
6 esse valor é relativo - causal.
3.
Como exemplo de anáfora podem ser apontados a expressão “em que”
(v. 4), a qual remete para o lexema “terreno”,
mencionado no verso 3, ou o determinante possessivo “sua”
(v. 6), cujo referente, "marinheiros" (eles – subentendido),
aparece referenciado em versos anteriores.
Como exemplo de catáfora, temos o lexema "terreno" (v.
3) que é o correferente de "pátria" (v. 6); logo, surge
antes do elemento linguístico que indica o referente, ou
seja, só sabemos posteriormente (mais à frente) que o termo "terreno" se
refere a "pátria".
4. A primeira sequência tem quatro orações: oração
coordenada copulativa (O
Poeta interpela a Musa),
oração coordenada copulativa - relativamente à anterior
- e subordinante - em relação às subsequentes (e
diz),
oração subordinada substantiva completiva conjuncional
ou integrante (que
tem a sua voz enrouquecida)
e oração subordinada adverbial causal (dado
que tem cantado para gente surda).
A segunda sequência tem, de igual modo, quatro orações:
oração subordinante (A Lira
leva-o a pedir à Musa),
oração subordinada adjetiva relativa restritiva (...
que o Poeta sente destemperada),
oração subordinada substantiva completiva conjuncional (que
lhe acenda o engenho)
e oração subordinada adverbial final (para
prosseguir o seu canto).