Tudo se passa entre 28 e 30 de abril de 1846, no
povoado de Vilar e nalgumas serranias vizinhas.
INTRODUÇÃO - é feita a descrição, de forma muito sucinta,
desses quase lugarejos (a sua insignificância não
merece grandes passagens descritivas).
23-25
Cena I
Sargentanas, um sargento às ordens do
coronel (Matamundos) da Rainha (D. Maria II),
com os préstimos de um Fiscal de Impostos, de um
Soldado-Ordenança e de um constrangido Regedor,
arrola várias pessoas de Vilar, suspeitas de
conspirarem. Esse arrolamento (inventário) é
feito por baixo da janela do Padre Casimiro,
cuja casa foi transformada em quartel-general
das forças do regime.
Cosme Manuel Silva é acusado de ter material em
casa (enxofre, carvão de vide e salitre,
almofariz de pedra...) para proceder "a
trabalhos de fábricas de pólvora".
Entretanto, um ferreiro é detido por se ter
recusado a dar alojamento às praças/forças da
Rainha.
Para dar mais crédito aos autos lavrados, tentam
arranjar testemunhas. São sugeridas duas: o
próprio Soldado-Ordenança, que até se mostra
surpreendido com a falta de parcialidade/
legalidade do ato; e, por sugestão do Regedor
(irónico), um cego que por ali passava!... E
qeriam ou diziam-se eles cumpridores da lei,
segundo palavras do Fiscal de Impostos!...
O Regedor mostra-se crítico e faz-se
desentendido. Sargentanas fica tão irritado com
esta atitude que empurra o Regedor. Este cai
cena fora, arrastando consigo o pobre Cego.
Maria Henriques é acusada de compor trovas
políticas contra "as
casas da Justiça"
e a "pessoa
dos ministros".
Ficamos a saber que, na noite passada, houve um
motim.
Matamundos ordena ao Fiscal de Impostos para
produzir quaisquer elementos que, pela sua
essência, possam esclarecer o móbil da revolta e
para que, com os seus testemunhos, se possam
identificar os responsáveis pelo motim.
Fazendo-se desentendido, o Fiscal (Leonardo
Marques Borrego) joga com as palavras "testemunhos"
e "testemuhas".
Garante que, para além dele próprio, e do
escrivão da Fazenda, António Maria Possolo, mais
ninguém presenceara os acontecimentos. Ora, como
ambos tinham sido as únicas vítimas dessa
sublevação das mulheres de Vilar, não poderiam
constituir-se como "testemuhas".
Mas o que Matamundos queria era "testemunhos",
algo mais que permitisse "identificar
os cabeças da revolta".
Em que consistira, afinal, a revolta de "uma
velha no meio de uma dúzia de galdérias"
(réplica de Matamundos) ou de "uma
matilha de saias em cima de nós"
(segundo réplica do Fiscal)? O próprio
Matamundos esclarece-nos: em deitar às balsas o
Fiscal de Impostos e o escrivão da Fazenda, em
roubar-lhes documentos do Estado e em
mijar-lhes em cima!...
O Regedor acusa Angelina, uma pastora do Casal,
filha do Pernas, de chefiar a rebelião,
acusando-a de ser um "traste" e insinuando que a
causa da revolta residiria no facto de tentar
esconder os registos de um
herdamento do Brasil.
Matamundos queria à viva força que o Cego fosse
testemunha (de acusação). O Regedor faz-lhe ver
que não pode ser porque ele não pode assinar o
nome.
27
28
29-31
31
32
33
33
34
35
36
37
Cena II
O Cego encontra duas Comadres. Pede-lhes esmola,
que é recusada.
Os três fazem crítica. Falam da fome, do povo
que é espoliado pelos políticos ao
sobrecarregá-lo de impostos, do roubo dos seus
alimentos para manter a tropa, da
industrialização que destrói as ocupações
tradicionais, dos barões que engordam à custa
dos trabalhadores e para quem foram construídas
as estradas sobre os seus terrenos aráveis, do
enterro dos mortos nos cemitérios ("enterram
os cristãos fora dos telhados de Deus"),
da perseguição aos padres, do sal que é taxado
("e
ao sal carregam-no tanto de impostos que já não
salga, queima").
Entretanto, o Cego conta o que se passou em
Vilar, dizendo ironicamente que um "cego
só serve para testemunhar o que os sãos não veem".
Na verdade, queriam obrigar o Cego a ser
testemunha de um mundo que não foi feito por
ele.
Em Vilar, segundo o cego, a justiça faz-se "de
espingarda e caça às revoltosas".
Assim, as mulheres de Vilar são vistas como "inimigas
dos Cabrais",
como se de autênticas Marias da Fonte se
tratasse.
Depois do relato do Cego sobre o que se passou
em Vilar, as Comadres desaparecem na noite
porque já se não sentem seguras.
39
40-42
42
43
43
44
Cena III
Vilar e as zonas limítrofes foram saqueadas.
Matamundos manda arrolar tudo. Mesmo os
instrumentos de trabalho (foices, roçadouras,
sachos, forquilhas...
Depois do arrolamento, seguir-se-ão os
interrogatórios, a começar pelos mais velhos,
pois "os
velhos quanto mais velhos mais amor têm ao pêlo".
O terreiro fica totalemte às escuras. É noite,
símbolo de terror, de morte, de congeminações
revoltosas, mas também de fecundação, de
esperança em regenerar o país, caso a revolta
fosse levada a bom porto.
45
46
47
Cena IV
No quartel-general do coronel Matamundos (a
antiga casa do Pe. Casimiro), O Dr. Gaspar
Benedito Silveira, desembargador do Porto, lente
de leis e conselheiro da Banca de Lisboa
conversa e bebe desenfreadamente com o coronel.
Este último tinha recebido uma incumbência
do Dr. Silveira: encontrar a filha, Maria
Ricardina da Gama Silveira, que se tinha
juntado aos revoltosos.
Os estafetas que tinham sido enviados até às
linhas do Académico (um dos chefes
guerrilheiros) chegam, feridos, ao
quartel-general. Foram encontrados pelo Cego,
facto que está na base da crítica do Dr.
Silveira ao desempenho das tropas do regime.
Esses estafetas trazem uma má notícia: os homens
do Académico (rebeldes) assaltaram a coluna do
alferes Passos e levaram o cofre do
regimento!...
49-55
56
Cena V
No acampamento do bacharel Alexandre, algures
nas serranias vizinhas do Vilar, Maria Ricarda
da Gama Silveira, filha do desembargador do
Porto, dorme. Ela é noiva do Académico, mas anda
muito "pegada"
ao seu primo, o Chefe Dr. Alexandre, no dizer da
Segunda Mulher. Aliás, esta última interroga-se
se ela será maçónica como o pai, o Dr. Silveira,
que era assim conhecido em Braga. Porém, o
Primeiro Guerrilheiro esclarece que, na verdade,
fora assim, mas que agora quem o quiser
encontrar procura-o à mesa dos bispos!...
Crítica do Primeiro Guerrilheiro, que diz que a
fé é para os pobres e que a instrução é para os
ricos.
Primeira referência a Maria da Fonte. O
Guerrilheiro de Sentinela questiona-se quem
será: a morgadinha (Maria Ricarda Silveira)? A
Angelina do Casal?...
57-59
60
61
Cena VI
Acampamento do Bacharel Alexandre. É dia. Uma
manhã alegre de primavera. Símbolo da esperança
que as pessoas depositavam no sucesso da
revolta?
Discute-se a estratégia a seguir para apanhar o
Matamundos e tomar de assalto o lugarejo de
Vilar, ocupado pelas forças leais ao regime.
Três forças de guerrilha esperam pela coluna de
Braga.
Entretanto, a Sentinela e a Maria Ricarda
dialogam sobre o estado do país: os
desentendimentos dos políticos, dos militares e
dos barões; o medo que eles já não conseguem
disfarçar, ao constatarem que a situação não
está a correr bem para o seu ladp ; a fome
da população...
A propósito da lei que obrigava a enterrar os
mortos no cemitério e da revolta que isso gerou
na população, os guerrilheiros até concordavam
com essa lei, segundo opinião expressa por
Maria Ricarda, mas o Chefe Alexandre acrescenta,
logo a seguir, à laia de justificação: "coisas
justas em governos injustos não é muito fácil de
compreender".
O Padre Casimiro, outro dos chefes guerrilheiros,
autocarateriza-se e manifesta a sua revolta
contra os barões e contra a usurpação dos bens
da Igreja.
63-64
65
66
67
Cena VII
A voz tremida e esganiçada de Maria Henriques é
a presença, ainda viva, do Vilar,
irritando desmesuradamente o coronel Matamundos.
Matamundos também vocifera contra o Dr.
Silveira, contra a velha, contra o Sargentanas,
contra todos e contra tudo. Está tremendamente
irritado.
Maria Henriques está convicta de que vai ser
enforcada e, então, prefere morrer cantando o "Bendito",
para grande irritação de Matamundos.
69
70
71-72
Cena VIII
As duas velhas Comadres chegam a Vilar e falam
sobre a a cantoria e o tormento de Maria
Henriques.
Matamundos confessa-se indiferente à sorte do
Desembargador do Porto, o Dr. Silveira, e da "republicana
da filha",
a Maria Ricarda.