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O RENDER DOS HERÓIS

 

- Estrutura da obra - Primeira parte -

Estrutura

 

SEQUÊNCIAS DRAMÁTICAS

PP.

Primeira Parte

 

 

Tudo se passa entre 28 e 30 de abril de 1846, no povoado de Vilar e nalgumas serranias vizinhas.

INTRODUÇÃO - é feita a descrição, de forma muito sucinta, desses quase lugarejos (a sua insignificância não merece grandes passagens descritivas).

 

 

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Cena I

 

Sargentanas, um sargento  às ordens do coronel (Matamundos) da Rainha (D. Maria II), com os préstimos de um Fiscal de Impostos, de um Soldado-Ordenança e de um constrangido Regedor, arrola várias pessoas de Vilar, suspeitas de conspirarem. Esse arrolamento (inventário) é feito por baixo da janela do Padre Casimiro, cuja casa foi transformada em quartel-general das forças do regime.

 

Cosme Manuel Silva é acusado de ter material em casa (enxofre, carvão de vide e salitre, almofariz de pedra...) para proceder "a trabalhos de fábricas de pólvora". Entretanto, um ferreiro é detido por se ter recusado a dar alojamento às praças/forças da Rainha.

 

Para dar mais crédito aos autos lavrados, tentam arranjar testemunhas. São sugeridas duas: o próprio Soldado-Ordenança, que até se mostra surpreendido com a falta de parcialidade/ legalidade do ato; e, por sugestão do Regedor (irónico), um cego que por ali passava!... E qeriam ou diziam-se eles cumpridores da lei, segundo palavras do Fiscal de Impostos!...

 

O Regedor mostra-se crítico e faz-se desentendido. Sargentanas fica tão irritado com esta atitude que empurra o Regedor. Este cai cena fora, arrastando consigo o pobre Cego.

 

Maria Henriques é acusada de compor trovas políticas contra "as casas da Justiça" e a "pessoa dos ministros".

 

Ficamos a saber que, na noite passada, houve um motim.

 

Matamundos ordena ao Fiscal de Impostos para produzir quaisquer elementos que, pela sua essência, possam esclarecer o móbil da revolta e para que, com os seus testemunhos, se possam identificar os responsáveis pelo motim.

 

Fazendo-se desentendido, o Fiscal (Leonardo Marques Borrego) joga com as palavras "testemunhos" e "testemuhas". Garante que, para além dele próprio, e do escrivão da Fazenda, António Maria Possolo, mais ninguém presenceara os acontecimentos. Ora, como ambos tinham sido as únicas vítimas dessa sublevação das mulheres de Vilar, não poderiam constituir-se como "testemuhas". Mas o que Matamundos queria era "testemunhos", algo mais que permitisse "identificar os cabeças da revolta".

 

Em que consistira, afinal, a revolta de "uma velha no meio de uma dúzia de galdérias" (réplica de Matamundos) ou de "uma matilha de saias em cima de nós" (segundo réplica do Fiscal)? O próprio Matamundos esclarece-nos: em deitar às balsas o Fiscal de Impostos e o escrivão da Fazenda, em roubar-lhes  documentos do Estado e em mijar-lhes em cima!...

 

O Regedor acusa Angelina, uma pastora do Casal, filha do Pernas, de chefiar a rebelião, acusando-a de ser um "traste" e insinuando que a causa da revolta residiria no facto de tentar esconder os registos de um herdamento do Brasil.

 

Matamundos queria à viva força que o Cego fosse testemunha (de acusação). O Regedor faz-lhe ver que não pode ser porque ele não pode assinar o nome.

 

 

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Cena II

 

O Cego encontra duas Comadres. Pede-lhes esmola, que é recusada.

 

Os três fazem crítica. Falam da fome, do povo que é espoliado pelos políticos ao sobrecarregá-lo de impostos, do roubo dos seus alimentos para manter a tropa, da industrialização que destrói as ocupações tradicionais, dos barões que engordam à custa dos trabalhadores e para quem foram construídas as estradas sobre os seus terrenos aráveis, do enterro dos mortos nos cemitérios ("enterram os cristãos fora dos telhados de Deus"), da perseguição aos padres, do sal que é taxado ("e ao sal carregam-no tanto de impostos que já não salga, queima").

 

Entretanto, o Cego conta o que se passou em Vilar, dizendo ironicamente que um "cego só serve para testemunhar o que os sãos não veem".

 

Na verdade, queriam obrigar o Cego a ser testemunha de um mundo que não foi feito por ele.

 

Em Vilar, segundo o cego, a justiça faz-se "de espingarda e caça às revoltosas".

Assim, as mulheres de Vilar são vistas como "inimigas dos Cabrais", como se de autênticas Marias da Fonte se tratasse.

 

Depois do relato do Cego sobre o que se passou em Vilar, as Comadres desaparecem na noite porque já se não sentem seguras.

 

 

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Cena III

 

Vilar e as zonas limítrofes foram saqueadas.

 

Matamundos manda arrolar tudo. Mesmo os instrumentos de trabalho (foices, roçadouras, sachos, forquilhas...

 

Depois do arrolamento, seguir-se-ão os interrogatórios, a começar pelos mais velhos, pois "os velhos quanto mais velhos mais amor têm ao pêlo". O terreiro fica totalemte às escuras. É noite, símbolo de terror, de morte, de congeminações revoltosas, mas também de fecundação, de esperança em regenerar o país, caso a revolta fosse levada a bom porto.

 

 

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Cena IV

 

No quartel-general do coronel Matamundos (a antiga casa do Pe. Casimiro), O Dr. Gaspar Benedito Silveira, desembargador do Porto, lente de leis e conselheiro da Banca de Lisboa conversa e bebe desenfreadamente com o coronel. Este  último tinha recebido uma incumbência do Dr. Silveira: encontrar a filha, Maria Ricardina  da Gama Silveira, que se tinha juntado aos revoltosos.

 

Os estafetas que tinham sido enviados até às linhas do Académico (um dos chefes guerrilheiros) chegam, feridos, ao quartel-general. Foram encontrados pelo Cego, facto que está na base da crítica do Dr. Silveira ao desempenho das tropas do regime. Esses estafetas trazem uma má notícia: os homens do Académico (rebeldes) assaltaram a coluna do alferes Passos e levaram o cofre do regimento!...

 

 

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Cena V

 

No acampamento do bacharel Alexandre, algures nas serranias vizinhas do Vilar, Maria Ricarda da Gama Silveira, filha do desembargador do Porto, dorme. Ela é noiva do Académico, mas anda muito "pegada" ao seu primo, o Chefe Dr. Alexandre, no dizer da Segunda Mulher. Aliás, esta última interroga-se se ela será maçónica como o pai, o Dr. Silveira, que era assim conhecido em Braga. Porém, o Primeiro Guerrilheiro esclarece que, na verdade, fora assim, mas que agora quem o quiser encontrar procura-o à mesa dos bispos!...

 

Crítica do Primeiro Guerrilheiro, que diz que a fé é para os pobres e que a instrução é para os ricos.

 

Primeira referência a Maria da Fonte. O Guerrilheiro de Sentinela questiona-se quem será: a morgadinha (Maria Ricarda Silveira)? A Angelina do Casal?...

 

 

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Cena VI

 

Acampamento do Bacharel Alexandre. É dia. Uma manhã alegre de primavera. Símbolo da esperança que as pessoas depositavam no sucesso da revolta?

Discute-se a estratégia a seguir para apanhar o Matamundos e tomar de assalto o lugarejo de Vilar, ocupado pelas forças leais ao regime.

 

Três forças de guerrilha esperam pela coluna de Braga. Entretanto, a Sentinela e a Maria Ricarda dialogam sobre o estado do país: os desentendimentos dos políticos, dos militares e dos barões; o medo que eles já não conseguem disfarçar, ao constatarem que a situação não está a correr bem para o seu ladp ; a fome  da população...

 

A propósito da lei que obrigava a enterrar os mortos no cemitério e da revolta que isso gerou na população, os guerrilheiros até concordavam com essa lei, segundo  opinião expressa por Maria Ricarda, mas o Chefe Alexandre acrescenta, logo a seguir, à laia de justificação: "coisas justas em governos injustos não é muito fácil de compreender".

 

O Padre Casimiro, outro dos chefes guerrilheiros, autocarateriza-se e manifesta a sua revolta contra os barões e contra a usurpação dos bens da Igreja.

 

 

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Cena VII

 

A voz tremida e esganiçada de Maria Henriques é a presença, ainda viva, do Vilar, irritando desmesuradamente o coronel Matamundos.

 

Matamundos também vocifera contra o Dr. Silveira, contra a velha, contra o Sargentanas, contra todos e contra tudo. Está tremendamente irritado.

 

Maria Henriques está convicta de que vai ser enforcada e, então, prefere morrer cantando o "Bendito", para grande irritação de Matamundos.

 

 

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Cena VIII

 

 

As duas velhas Comadres chegam a Vilar e falam sobre a a cantoria e o tormento de Maria Henriques.

 

Matamundos confessa-se indiferente à sorte do Desembargador do Porto, o Dr. Silveira, e da "republicana da filha", a Maria Ricarda.

 

 

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Publicado por

Joaquim Matias da Silva

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