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CAMÕES LÍRICO

 

- Temas recorrentes na sua poesia -

 

 

1. O amor, em Camões

O amor é um tema recorrente na lírica camoniana. Na conceção deste tema, Camões incorporou elementos da doutrina clássica, do amor cortês e da religião cristã, concorrendo todos para incentivar mais o amor espiritual do que o carnal.

 

 

O amor espiritual para os clássicos é, efetivamente, o mais elevado, o único digno dos sábios, pelo que Camões cultiva um amor platónico, um amor idealizado, inalcançável, porque incorpóreo. Perante uma mulher que possui qualidades mais divinas do que terrenas, o sujeito poético submete-se, tal como faz um vassalo face à sua suserana (amor-vassalagem). Composições como “Se Helena apartar”, “Verdes são os campos” ou “Um mover d’olhos brando e piedoso” ilustram esse amor puro / platónico. Mas, ainda que esporadicamente, o amor físico, erótico / sensual também não é esquecido, como o comprova o soneto ”Pede-me o desejo, Dama, que vos veja”. Neste contexto, o amor camoniano é, por regra, um amor idealizado que se expressa no plano da abstração e da arte. Contudo, é um amor preso no dualismo, um amor que, se por um lado ilumina a mente, enforma a poesia e enobrece o espírito, aproximando o eu lírio do divino, do belo, do eterno, por outro lado tortura e escraviza, pela impossibilidade de ignorar o desejo de posse da amada e as urgências da carne.

Para finalizar, dir-se-á que os paradoxos criados pela idealização amorosa são enfatizados pela própria estrutura poética, cheia de antíteses, metáforas, silogismos, oposições e inversões (“Amor é fogo que arde sem se ver”).

2.
A conceção da mulher, em Camões

A dualidade amorosa expressa na lírica camoniana corresponde a duas conceções de mulher: a mulher angelical, objeto de culto, um ser quase divino, intocável e distante; e a mulher carnal, objeto de desejo.

 


 

Quanto à mulher-anjo, esta aparece consubstanciada em poemas como “Se Helena apartar / Do campo seus olhos”, “Verdes são os campos” ou “Um mover d’olhos brando e piedoso”. A caraterização dessa mulher enfatiza as correspondências entre a beleza física e a sua perfeição moral e espiritual. Assim, os seus cabelos são ouro (representa a perfeição); os olhos diamantes brilhantes (símbolo de amor eterno), de tonalidades azuladas ou esverdeadas (a "Bárbara cativa" afasta-se deste estereótipo), a sua boca uma rosa (beleza, efemeridade), os seus dentes pérolas (sublimação dos instintos, espiritualização da matéria), sendo que a simples proximidade da mulher é uma dádiva celeste, seja para as pessoas seja para os animais.

Relativamente à mulher carnal, essa suscita o desfrute imediato, antes que o tempo consuma os corpos na decrepitude. Se, entretanto, a união física não acontece, nasce o sofrimento e com ele a alienação do mundo, o desconcerto. Por isso, o fulcro polarizador do prazer e da dor é a mulher e, em torno da figura feminina, gira todo o pathos amoroso.

Para terminar, convém esclarecer que a mulher sensual (humana, mas sobretudo mitológica) aparece mais em Os Lusíadas.

3. O desengano

Outro tema significativo da lírica camoniana é o da transitoriedade das coisas do mundo, que leva ao desengano / sofrimento.

 

 

Na verdade, vemos Camões frequentemente a meditar sobre a condição humana, a partir da sua rica experiência pessoal, experiência essa que vê refletida e multiplicada no mundo. E o que constata ele? Que tudo é passageiro e imprevisível (“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”); que a separação da amada corrói as esperanças de felicidade neste mundo e suscita o desejo da morte (“Alma minha gentil, que te partiste”); que o destino persegue inexoravelmente o homem; que o homem é um “bicho da terra tão pequeno”; que a justiça não se aplica aos poderosos, só a ele, como nos afirma na “Esparsa sua ao desconcerto do mundo” – “Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos”. Ora, todas estas constatações fazem com que a perspetiva renascentista de harmonia entre o homem e o cosmos seja quebrada, criando desilusão e a ideia de que que a vida não tem razão de ser. Consequentemente, tentar descobrir o seu sentido é inútil e até perigoso, pois o pensar sobre as dificuldades da vida somente aprofunda a dor de viver, não evitando o confronto do homem com uma realidade miserável.

Não admira, pois, pelo exposto que o Poeta se sinta um joguete do destino, encarando a morte como libertadora e a única garantia da paz eterna – “O dia em nasci moura e pereça”.
 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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