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ANÁLISE DO SONETO

 

- O céu, a terra, o vento sossegado -

 

O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
 


O pescador Aónio, que, deitado
Onde c'o vento a água se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:

– Ondas - dezia - antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.


 

Notas: V. 3 - enfreia: acalma, adormece; V. 4 - Aónio: masculino de Aónia, anagrama de Ioana, isto é, o príncipe D. João, casado com a infanta D. Joana (segundo alguns comentaristas, tratar-se-á apenas de um disfarce, já que se refere a si mesmo e à moça chinesa afogada na foz do rio Mecong); V. 6 - se meneia:  se movimenta com o vento; V. 7 - nomeia:  invoca; V. 10 - tornai-me: restitui-me; V. 10 - Ninfa: amada - as ninfas, segundo a mitologia, eram divindades, filhas do Oceano e de Tethys, que habitavam as águas do mar (Nereidas), os bosques (Dríades), os montes (Oreiades), as águas correntes e as fontes (Naiades).

 

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Algumas linhas de leitura:

 

1. ASSUNTO: «Rápidas impressões de cenário nocturno, de infinita calma, que encontrou no verso o noturno silêncio repousado, por seus timbres velados, por sua cadência morosa e igual, a mais adequada expressão. Depois, rasgando o espaço mudo, a invocação de Aónio, logo abafada no silêncio da natureza impassível. E, rematando, no último terceto, a viva sensação daquela imensa melancolia, onde os ruídos parecem apenas avivar o silêncio» (Hernâni Cidade, Luís de Camões, I, O Lírico, 2.ª ed., pág. 234).

 

2. ATENTE:

 

a) No tom narrativo da composição na segunda quadra e  no primeiro terceto, que nos surge embutido numa descrição objetiva e de paisagem, silenciosa e noturna, cujo silêncio nos aparece cortado apenas pela voz lamentosa de Aónio, acompanhada pelo bater Impassível do mar, ao longe, e pelo movimento brando do arvoredo;

 

b) Na Natureza estática, apresentada em frases nominais e não caraterizada, apenas entrevista na enumeração de elementos que localizam simultaneamente a ação no espaço e no tempo: céu, terra, ondas, areia, peixes, mar, silêncio noturno;

 

c) No ritmo binário do segundo e terceiro versos, em que as respetivas prótases (prótase = primeira parte de um período) e apódoses (segunda parte de um período gramatical cujo sentido é complemento da primeira ou da prótase, como vimos) são iguais entre si, assim como o primeiro e quarto versos de tipo nominal, incompletos, que, sem dúvida, emprestam ao conteúdo semântico uma certa cadência morosa e uma viva sensação de calma;

 

d) No discurso na terceira pessoa, todo ele a remeter para uma personagem central, de quem são apontados os seguintes elementos caraterizadores: o nome (Aónio), a profissão (pescador), a situação física («deitado onde co'o vento a água se meneia»); a situação psicológica (chorando); e a ação («o nome amado em vão nomeia»);

 

 e) Na harmonia imitativa no último terceto, quer no emprego do som nasal em / -on / (longe), antecedido e seguido de um / -a / aberto (mar / bate) para traduzir o marulho das ondas, quer ainda na repetição  dos /-b /, e /-v /, aliterações que pretendem imitar o soprar do vento.

3. ESQUEMA RIMÁTICO: ABBA / ABBA CDE / CDE, com rimas interpolada e emparelhada, nas quadras; interpolada, nos tercetos; sempre consoante e feminina ou grave.

BRAGANÇA, António (1981). Textos e comentários, c/ adaptações.
 

Produzido por

Joaquim Matias da Silva

 

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