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ANÁLISE DO SONETO

 

- Um mover d' olhos brando e piedoso -

 

Um mover d'olhos, brando e piedoso
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;
 


Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.
 

Luís de Camões

 

 Notas: V. 1 - brando: calmo, meigo; V. 3 - gesto: rosto; V. 5 - despejo: desenvoltura; V. 5 - quieto e vergonhoso: suave e amedrontado / envergonhado; V. 6 - gravíssimo: muito sério, muito ponderado; V. 7 - manifesto: evidente; V. 8 - indício: amostra; V. 8 -  limpo: puro; V. 8 - gracioso: cheio de graça; V. 9 - encolhido: acanhado; V. 11 - sofrimento: paciência; V. 13 - Circe:  feiticeira invocada na Odisseia por Homero, que transformou os companheiros de Ulisses em animais, depois de atraí-los ao seu palácio e dar-lhes a provar mágicas bebidas, impedindo-o assim de prosseguir a sua viagem; V. 13 - mágico: forma divergente e erudita de meigo.

 

 

 

Comentário genérico:

 

Estamos perante mais um dos textos de Camões  em que ele põe em evidência a sua relação pessoal com a mulher a que alude. Neste sentido, há alguma aproximação ao que se passa com as "Endechas a Bárbara". Mas mesmo em relação a esse poema, nota-se uma diferença: lá, o eu da enunciação recorre ao presente; aqui, é o pretérito que ganha foros de primazia. Lá, ele fala duma experiência que parece atual, que está em curso; aqui, diferentemente, tudo é projetado num passado mais ou menos longínquo.

 

O conteúdo ideológico desta composição pode ser dividido claramente em dois momentos; um, constituído pelas três primeiras estrofes, onde o eu lírico tenta descrever a sua mulher, uma mulher que correspondia ao modelo clássico, petrarquistra, em que surgem mais ressalvadas as qualidades morais do que as qualidades físicas; e outro pelo terceto final, em que o sujeito poético acaba por identificar metaforicamente essa "sua" mulher com uma Cicre, uma feiticeira que o embruxou completamemente, ao ponto de transformar o seu pensamento.

 

A presença anafórica do determinante indefinido "um", a iniciar a maioria dos versos das três primeiras estrofes confirma essa divisão lógica do soneto e ajuda à descrição, traçada em linhas muito vagas, é certo, mas que nem por isso, ou sobretudo por isso, nos permitem visualizar o retrato de um ser moralmente perfeito e superior.  Assim, o sujeito poético reflecte, rememora os traços marcantes da sua antiga Circe, daquela que o enfeitiçou. Não faz propriamente o seu retrato, mas esboça-o, proporcionando-nos como que uma análise/reflexão contemplativa.

 

A chave de ouro do soneto surge-nos no último terceto, no qual, mediante o recurso à hipérbole, às metáforas e à sinédoque, se nota que a seiedade com que o eu lírico trata o tema amoroso… ainda que ele já não faça a sua felicidade.
 

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Outras linhas de leitura:

 

1. ASSUNTO: Camões expõe, à maneira petrarquista e em série descritiva e linear (discurso de cágado), os atributos morais da sua Circe, isto é, da mulher que «pôde transformar-lhe o pensamento»: brandura, piedade, honestidade, doçura, humildade, modéstia, bondade, retraimento, serenidade, obediência e mansidão. Trata-se, portanto, de um retrato idealizado, indefinível, mais próprio de quem está no Céu do que quem vive na Terra.
 

2. ATENTE:


a) Nas duas partes lógicas em que pode ser dividido o discurso: a primeira correspondente às duas quadras e ao primeiro terceto e a segunda ao último terceto, no qual o pronome demonstrativo atinge particular efeito.


b) No seu estilo carateristicamente nominal, já que em toda a composição os sintagmas verbais estão reduzidos ao mínimo, o que traduz sóbria construção sintática e notável precisão de ideias.


c) Na intensificação expressiva conseguida pela reiteração do determinante indefinido, seguido de nome e de modificador, exprimindo simultaneamente a imprecisão e o mistério, tentando concretizá-los.


d) Nos modificadores que ora apresentam caraterísticas psicológicas (
brando / forçado / doce / duvidoso / quieto / vergonhoso / gravíssimo / gracioso / encolhido / sereno / longo), ora apontam para qualidades morais (piedoso / honesto / humilde / modesto / pura / limpo / sem ter culpa - inculpável - / obediente) que nos fazem recordar a «comprida de bem» das Cantigas de Amor.


e) No poder expressivo e antitético das expressões-chave de todo o discurso: «
celeste fermosura / mágico veneno», que fizeram com que o sujeito poético se libertasse do mundo sensorial (mundo sensível), aproximando-o do «raio da divina fermosura» (mundo inteligível).


f) Na diferença de ritmo melódico entre a primeira e segunda partes: lento e calmo, compassado e repousante nas duas quadras e primeiro terceto, a fim de melhor traduzir a beleza espiritual da amada -
manifesto indício da alma; depois, no último terceto, rápido e oscilatório com o propósito de manifestar claramente a alteração do pensamento do eu lírico e sua causa: «Esta foi a celeste fermosura / da minha Circe e o mágico veneno / que pôde transformar meu pensamento».


3. ESQUEMA RIMÁTICO: ABBA / ABBA / CDE / CDE, com rimas interpolada e emparelhada, nas quadras; interpolada, nos tercetos; consoante ao longo de toda a composição e  feminina ou grave, esta última a sugerir a submissão total do eu lírico ao ser feminino (sua amada).
 

BRAGANÇA, António (1981). Textos e comentários, c/ adaptações.
 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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