Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
Voltas próprias
Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza;
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.
Ouro e azul é a milhor
cor por que a gente se perde;
mas a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!
Luís de Camões
Notas:
V. 2 do mote -
Senão que tendes os olhos verdes:
mas tendes o defeito de terdes os olhos verdes; V.
3 -
dotou:
enfeitou, ornou; V. 4 -
o sumo:
o máximo; V. 6 -
gentileza
- graça, elegância; V. 14 -
a flor:
a melhor, a mais bonita.
ASPETOS IDEOLÓGICOS
mais relevantes:
1 - Estamos perante uma poesia camoniana bem
conhecida que integra o ciclo temático de "os olhos
verdes". Segundo o ideal feminino de Petrarca partilhado
pelos poetas quinhentistas, os olhos mais belos são os
azuis mas, porque a destinatária destes versos os tem
verdes, para o sujeito poético o verde passará a ser a
sua cor preferida e, perante os olhos verdes da amada,
os azuis perdem toda a graça.
2 - O significado da cabeça da primeira volta: a
Natureza dotou a sua
Senhora
de tal perfeição que um defeito nela é nas outras
formosura, isto é, o que nela é defeito será o
suficiente para fazer formosa outra mulher.
3 - O ouro (dos cabelos) e o azul (dos olhos) - assim
era a Laura cantada por Petrarca - deixam de ser a
melhor cor, já que a dos olhos da sua amada fica sendo
agora a mais linda.
4 - O paralelismo semântico entre o primeiro e o
terceiro versos da primeira volta (...em
vós... em vós...)
e o terceiro e quarto da segunda (...a graça... a
graça).
5 - A dissonância ou o cacófato (w. 8 e 14), a colisão
(v. 5) e a aliteração (v. 16).
ASPETOS
FORMAIS
mais relevantes:
Vilancete em redondilha maior, com mote alheio de dois
versos e duas voltas de sete, segundo a estrutura
tradicional, com o esquema rimático aa / bccbbaa, isto
é, rima toante no mote, emparelhada e interpolada nas
voltas, tendo estas nos dois últimos versos repetidas as
rimas do mote, respetivamente, "tendes" e "verdes".
BRAGANÇA, António, Textos e
comentários, c/
adaptações.