Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

ANÁLISE DO VILANCETE

 

- Vós, Senhora, tudo tendes -

 

Mote alheio

Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
 

Voltas próprias

Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza;
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.

Ouro e azul é a milhor
cor por que a gente se perde;
mas a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!

 

 

 

 

 

Luís de Camões

 

Notas: V. 2 do mote - Senão que tendes os olhos verdes: mas tendes o defeito de terdes os olhos verdes;  V. 3 - dotou: enfeitou, ornou; V. 4 - o sumo: o máximo; V. 6 - gentileza - graça, elegância; V. 14 - a flor: a melhor, a mais bonita.
 

ASPETOS IDEOLÓGICOS mais relevantes:
 

1 -  Estamos perante uma poesia camoniana bem conhecida que integra o ciclo temático de "os olhos verdes". Segundo o ideal feminino de Petrarca partilhado pelos poetas quinhentistas, os olhos mais belos são os azuis mas, porque a destinatária destes versos os tem verdes, para o sujeito poético o verde passará a ser a sua cor preferida e, perante os olhos verdes da amada, os azuis perdem toda a graça.

 

2 - O significado da cabeça da primeira volta: a Natureza dotou a sua Senhora de tal perfeição que um defeito nela é nas outras formosura, isto é, o que nela é defeito será o suficiente para fazer formosa outra mulher.

 

3 - O ouro (dos cabelos) e o azul (dos olhos) - assim era a Laura cantada por Petrarca - deixam de ser a melhor cor, já que a dos olhos da sua amada fica sendo agora a mais linda.

 

4 - O paralelismo semântico entre o primeiro e o terceiro versos da primeira volta (...em vós... em vós...) e o terceiro e quarto da segunda (...a graça... a graça).

 

5 - A dissonância ou o cacófato (w. 8 e 14), a colisão (v. 5) e a aliteração (v. 16).

ASPETOS FORMAIS mais relevantes:


Vilancete em redondilha maior, com mote alheio de dois versos e duas voltas de sete, segundo a estrutura tradicional, com o esquema rimático aa / bccbbaa, isto é, rima toante no mote, emparelhada e interpolada nas voltas, tendo estas nos dois últimos versos repetidas as rimas do mote, respetivamente, "tendes" e "verdes".

 

BRAGANÇA, António, Textos e comentários, c/ adaptações.
 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

                       Início da página

 

© Joaquim Matias 2013

 

 

 

 Páginas visitadas