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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

 - O poder da palavra -

 

 

Em 03 de Junho de 2003, Sophia de Mello Breyner Andresen era galardoado, aos 83 anos de idade, com o Prémio Rainha Sofia da Poesia Ibero-Americana, um Prémio atribuído pelo Património Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca, visando distinguir o conjunto da obra de um autor vivo, pelo seu valor literário. A importância do Prémio radica, sobretudo, no facto de se constituir como um reconhecimento que vai além das fronteiras ibéricas para afirmar-se em todo o vasto espaço literário latino-americano.

 

Por ocasião da entrega do Prémio, o escritor César Antonio Molina, director do Círculo de Belas-Artes de Madrid, afirmava, a propósito desta poetisa, que ela era “uma das vozes mais importantes da lírica portuguesa. Ela escreve uma poesia culta, que busca a interioridade do ser e que expressa com uma força verbal extraordinária e de grandes rasgos metafóricos”. Na verdade, a poesia de Sophia é a expressão mais paradigmática que dá pertinência a tais afirmações.

 

O texto lírico, como se sabe, pressupõe a interiorização do mundo exterior, isto é, a visão subjectiva da realidade ou, como dizia Guerra Junqueiro, “a verdade transformada em sentimento”. Esta mesma ideia foi condensada por Sophia quando, no decurso dum debate sobre a criação poética, proferiu esta fórmula aforística: “A prosa explica, a poesia implica”. Implica, no sentido de que dobra para dentro e, simultaneamente, dá a entender, sugere em vez de explicitar; e até implica com o leitor, levando-o a comprometer-se, a tomar partido, a enredar-se nas teias da sua própria responsabilidade cívica e moral. Mas vejamos até que ponto se estende a implicação da poesia de Sophia. Para valorizar o ser humano, ela torna-se uma voz rara da lírica universal fazendo da sua poética uma peculiar e perfeita forma de intervenção, qual arma de arremesso sempre pronta a lançar bolas de fogo que fustiguem inapelável e desabridamente “uma consciência crítica de incapacidades e desacertos”. E é também por isso que a poetisa nutre um fascínio especial pela antiguidade clássica, enaltecendo a harmonia, o equilíbrio, a sobriedade e a justa medida que nela descortina e que apresenta como estando ao serviço da valorização do Homem.

 

Nem sempre, porém, a sua obra teve este carácter intervencionista. Se quiséssemos balizá-la em fases, talvez não fosse de todo descabido falar em duas fases. Numa primeira, correspondente à época da juventude da autora, é-nos apresentada uma visão romântica da vida, uma visão mais colorida, mais cor-de-rosa, de alguém que ainda não está verdadeiramente desperto para a dura realidade circundante, conforme nos é sugerido em dois versos do belo poema Para atravessar contigo o deserto do mundo: “(…) Cá fora à luz sem véu do dia duro / Sem espelhos vi que estava nua (…)”. Nessa fase, integram-se poemas e textos em que o mar e a natureza pura e cristalina são uma constante. O mar ocupa, efectivamente, um lugar de relevo na obra de Sophia. A sua beleza, a sua serenidade e os seus mitos são assumidos ao longo da poesia desta escritora. Na verdade, o cenário do mar funciona como expressão do mundo interior da poetisa. Se as águas estão em movimento, isso expressa incerteza, dúvida, indecisão, o estado transitório das coisas e das realidades; mas se há referências às suas profundezas e aos monstros misteriosos que aí se ocultam, isso remete-nos para as profundezas do subconsciente do poeta, onde se escondem os segredos e as forças mais íntimas da alma.

 

O mar, a praia, a casa, os jardins (reais e míticos) são suportes e estrutura da sua demanda da perfeição, da pureza e da harmonia.

A Natureza em geral é outra das fontes de inspiração, como já foi referido. Tanto funciona como elemento poético, como contém a verdade antiga das origens e do futuro; tanto se liga à ideia de beleza, como ao mistério.

Segundo Jacinto do Prado Coelho, há nessa poesia "um Alberto Caeiro em que o cristianismo assumisse o paganismo sem o anular". O cristianismo é, aliás, um dos elementos aglutinadores da sua poesia, dando sentido às coisas, inclusive à morte.

 

A segunda fase está mais voltada para um comprometimento com a realidade, abrangendo temáticas tão variadas quanto complementares, como: a poesia como forma de luta contra a injustiça, a mentira e a corrupção; a problemática do Tempo - o tempo dividido e o tempo absoluto; a dialéctica Caos-Cosmos; o culto do Antigo, sobretudo da Antiguidade Clássica. Assim, o canto puro e livre de Sophia, que continua atento à beleza, passa também a ser sensível ao sofrimento do mundo, à degenerescência, à corrupção e à exploração. É um canto de luta, não de luta violenta, mas de permanente denúncia da injustiça, da mentira, da violência e de todas as formas de escravidão.

 

A aparente impecabilidade do poder, o seu não-comprometimento na violência que prepara, a traição, a podridão e a degradação (a que se associa o símbolo do abutre) são outros vícios denunciados na obra de Sophia, nomeadamente em A Veste dos Fariseus. Numa tentativa de enfrentar as forças destrutivas instaladas no interior do homem, na sociedade e no poder, a busca da justiça é um dos seus desideratos mais perseguidos.

 

Este compromisso com a realidade levou Helena dos Santos a dizer que "a poesia de Sophia é duplamente formativa, porque ajuda o leitor a tomar consciência com a realidade social e política e a recorrer a formas de luta que procurem não redobrar as cadeias da violência, mas eliminá-la progressivamente".

 

Qualquer que seja, contudo, o ponto de vista que queiramos adoptar ao analisarmos a sua vasta obra em verso ("Dia do Mar" – 1947 , "Coral" – 1950, "Tempo Dividido" – 1954, "Mar Novo" – 1958, "Cristo Cigano" – 1961, "11 Poemas" – 1970, "Dual" – 1972, "O Nome das coisas" – 1977, "Navegações" – 1983, "No Tempo e Mar Novo" – 1985, "Ilhas" – 1989, "Musa" – 1984 , "O Búzio de Cós e Outros Poemas" – 1997), em prosa (onde se incluem histórias de sonho, em especial para as crianças: "O Rapaz de Bronze", "A Menina do Mar", "A Fada Oriana", "O Cavaleiro da Dinamarca"), no teatro (com duas peças: "O Bojador" - teatro para crianças -, e "O Colar", recentemente levado à cena pela companhia "A Cornucópia"), no ensaio (Sophia debruçou-se sobre nomes como Miguel Torga e Camões) ou na tradução (desde Dante a Shakespeare), ela forma um corpus uno e belo, fruto de uma sensibilidade aguda de uma escritora com uma vida humana riquíssima e com uma carreira literária que se prolongou por mais de 60 anos.

 

 

Texto de

Joaquim Matias da Silva

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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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