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SOPHIA DE
MELLO BREYNER ANDRESEN
“AS
FONTES” - Comentário
Contrariamente ao que acontece com a maioria dos poemas
de Sophia de Mello Breyner, onde não são respeitados
quaisquer esquemas formais rígidos, sejam eles métrico,
rimático ou melódico, o poema “As Fontes”
submete-se a determinados padrões esquemáticos. Na
verdade, formalmente, esta composição é constituída por
três quadras com versos decassilábicos heróicos (a
acentuação recai sobre as sexta e décima sílabas
métricas), obedecendo ao seguinte esquema rimático: ABBA
/ CDCD / EFFE. Por isso, a rima é interpolada e
emparelhada nas primeira e terceira estrofes e cruzada
na segunda quadra. Essa rima é sempre consoante,
maioritariamente pobre (“... pontes / ...fontes”),
mas com dois exemplos de rima rica (“...mora / ...
hora” e “... promessa / ... atravessa”). Há
ainda rima masculina (“... esplendor / ...amor”) e
feminina (“...promessa / ... atravessa”), numa
dicotomia que sugere de imediato a existência de dois
mundos: o absoluto, onde reina o esplendor, o amor, o
amanhecer, o ser, o total, o vivo, a plenitude, a luz,
etc. e o terreno, onde encontramos a agitação e a
incompletude.
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É, aliás, esta oposição que constitui a temática
predominante desenvolvida ao longo de todo o
poema. O que o sujeito poético pretende é
atingir a Perfeição, a Verdade, a Plenitude de
todo o seu ser, qualidades que já existiram no
coração do Homem, mas que foram perdidas ao
longo dos tempos. |

Rumo ao infinito1.
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Daí que esteja
expresso neste poema o culto pelo antigo. Sophia acaba,
portanto, por enaltecer a cultura clássica pelo simples
facto de esta valorizar o homem na sua totalidade e na
sua autenticidade, em detrimento de uma cultura que faz
a apologia do ter e do parecer e não do ser. E aqui
poderíamos ver implicitamente outras temáticas
predilectas desta poetisa: as dialécticas caos / cosmos
e tempo dividido / tempo absoluto.
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Rumo ao infinito 2. |
A ideia de totalidade tão ambicionada pelo
sujeito poético está bem presente no campo
lexical do poema em palavras e expressões que se
espalham pelo mesmo, tais como: “total”,
“plenitude”, “ser vivo”, “límpido
esplendor”, “todo o meu ser” e “em cada hora”.
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Este
campo lexical remete-nos para o desejo intenso do
sujeito poético de ultrapassar as limitações humanas e
alcançar um mundo ideal, perfeito, onde o homem, por
fim, se possa realizar plenamente. Esse mundo está
representado simbolicamente pelas “fontes”. Com efeito,
as fontes são símbolo da origem das coisas e da pureza –
a água nasce nas fontes e quando de lá brota sai pura.
Então, o mesmo é dizer que para se atingir o mundo da
Verdade, o mundo íntegro, é necessário “fugir” da
“agitação do mundo irreal”. Paradoxalmente, o sujeito
poético caracteriza o mundo em que vive como o mundo
“irreal” pelo facto de ele não ser um mundo autêntico,
dado que aprisiona o homem, não o deixando alcançar o
“límpido esplendor”, o amor completo, a “luz e o
amanhecer”, a harmonia e a plenitude primitivas. Em
suma: o eu lírico reconhece que vive num mundo que considera
“irreal”, contrariando a noção lógica de realidade. E
fá-lo para realçar a ideia de que não é esse o mundo em
que pretende viver, pela sua imperfeição, “agitação”,
porque nele o amor revela uma face incompleta.
Para levar o seu desejo avante, o sujeito poético terá
de acabar com tudo aquilo que ainda o liga ao mundo
impuro: “Um dia quebrarei todas as pontes / Que ligam o
meu ser.../ À agitação do mundo irreal”. Mas ao recorrer
ao artigo indefinido “um” e às formas verbais no futuro
(“quebrarei”, “subirei” “irei”, “cumprirei”), está a
reconhecer que ainda não chegou a hora de proceder à
transposição de um mundo para o outro, de cumprir a
promessa já há muito feita de atingir o seu “ser, vivo e
total”, talvez porque ainda não se sinta preparado para
enfrentar os obstáculos que terá de enfrentar (tem de
abdicar de muitas coisas do “mundo irreal”) ou então
porque mental e psicologicamente está preparado para a
mudança, porém impossibilitado de fazê-lo por causa da
matéria, da parte física do seu corpo que o prende ao
mundo que não lhe agrada. Neste caso, só a morte lhe
poderia permitir o cumprimento do que lhe está prometido
há muito – chegar a um mundo onde “mora / A plenitude, o
límpido esplendor / Que me foi prometido em cada hora”.
Quando essa hora chegar, o eu lírico encontrar-se-á
interiormente preparado: “E calma subirei até às
fontes”.
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São as “pontes” que lhe facultarão o mundo
ambicionado, mas para isso terão de ser
quebradas, destruídas, porque se elas são um
símbolo de passagem também não deixam de ser um
símbolo de ligação à terra. Portanto, para se
atingir a perfeição, o cosmos, será preciso
passar-se pela destruição, pelo caos. De
qualquer dos modos, haverá sempre um
percurso ascensional |

Rumo ao infinito 3.
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que terá de ser
feito (“E calma subirei até às fontes”), que implica não
só um desejo, mas também uma vontade de concretização
desse desejo.
Como se vê pelo atrás exposto, este poema está carregado
de simbologias, de recursos estilísticos, com predomínio
para as metáforas (“Um dia quebrarei todas as pontes”,
“agitação do mundo irreal”, “E na face incompleta do
amor”) e as imagens metafóricas (“Irei até às fontes
onde mora...”, “Irei beber a luz e o amanhecer”, “Irei
beber a voz da promessa”), todas elas ligadas ao desejo
inquebrantável do sujeito poético de alcançar a
inteireza do seu ser, de alcançar um mundo perfeito, uma
espécie de paraíso perdido. Note-se que o vocabulário
ligado com esse mundo de Verdade é de conotação
positiva, enquanto o vocabulário ligado com o mundo
terreno ou a sociedade actual é de conotação negativa: “agitação”,
"face incompleta do amor”.
Mas há outros
recursos estilísticos merecedores de destaque: o
transporte (“... onde mora / A plenitude, o límpido
esplendor / Que me foi prometido...”), que permite
uma maior interligação de ideias, vindo também de
encontro à noção de que o sujeito poético pretende efectuar uma
transição pacífica; as sinestesias (“beber a luz e o
amanhecer / ... beber a voz”), através das quais se
fundem dados sensoriais, o que poderá sugerir a força da
união que se pretende atingir; a personificação (“face
incompleta do amor”), com a qual o sujeito poético
traduz a sensação de impossibilidade de se viver, neste
“mundo irreal”, o amor em toda a sua plenitude; a
anáfora (“Irei... / Irei.... /Irei....”), a reforçar a
intenção do eu lírico de aceder à harmonia primordial; e
a comparação (“como um voo me atravessa”), a qual
evidencia o desejo de cumprir essa “promessa”, que é
algo de imaterial, mas que há-de ser concretizada com
determinação.
Em forma de conclusão, reiteram-se alguns aspectos que
caracterizam o sujeito poético: trata-se de um ser
feminino (“E calma...”) que está bem ciente de que não
vive num mundo de perfeição e que, por isso mesmo,
revela uma vontade indómita de quebrar com as amarras
que a prendem a esse mundo. Pelo facto de se confrontar
com a incompletude das coisas e com a insuficiência do
amor, torna-se num ser determinado, obstinado, na busca
da plenitude, que desde sempre lhe está prometida, porém
invariavelmente adiada.
Comentário feito por
Joaquim
Matias da Silva
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