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SOPHIA DE
MELLO BREYNER ANDRESEN
“AS
PESSOAS SENSÍVEIS” - Comentário
Este poema de Sophia de Mello Breyner está carregado de
simbologia bíblica e é um texto de intervenção social,
política e religiosa, através do qual o sujeito poético
denuncia a hipocrisia beata e cristã da burguesia
exploradora que, quando se trata de dinheiro, esquece
imediatamente os seus ideais cívicos e ético-religiosos,
razão por que para ela prevalece o “parecer” e o “ter”
em detrimento do “ser”.
Por razões metodológicas, e tendo em atenção o
desenvolvimento lógico do assunto, esta composição
poética vai ser dividida em quatro partes.
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A primeira,
que compreende a primeira estrofe, funciona como uma
espécie de apresentação da temática abordada. O sujeito
poético, recorrendo à ironia (“As pessoas
sensíveis…”), à repetição (“galinhas”,
“capazes”) e ao jogo de palavras e de
conceitos (“…não são capazes”, “… são
capazes”), critica |

Cristo escreve,
no chão, o pecado daqueles que queriam apedrejar
Madalena. |
as “pessoas sensíveis” que
não são capazes de matar galinhas, mas são capazes de
comê-las. O mesmo é dizer que se dizem incapazes de
explorar os outros, porém fazem-no descaradamente, logo
que desse acto ignóbil possam advir proveitos que
redundem em benefício próprio.
Na segunda parte, que engloba a segunda estrofe do
poema, é concretizada a denúncia subtilmente feita na
primeira parte. Com efeito, o dinheiro ganho pelos
exploradores sai do corpo dos que são vítimas de
exploração, de injustiças de vária ordem, é fruto do
suor dos pobres. E a oposição ricos / pobres é bem
notória. Os primeiros têm dinheiro; os últimos, porque
não o têm, nem sequer podem mudar de roupa quando esta
fica encharcada, quer pela chuva quer pelo suor e,
então, têm de deixá-la secar sobre o corpo: “Aquela
roupa / Que depois da chuva secou sobre o corpo / Porque
não tinham outra (…) / Que depois do suor não foi lavada
/ Porque não tinham outra”. O “suor” e a “chuva”
são símbolos de produtividade, de fecundidade, só que
nem um nem outra revertem em favor dos pobres, antes são
aproveitados pelos ricos. Repare-se que nesta estrofe o
sujeito poético serve-se da rima interior em
-ei
e da aliteração em
/-r /
(“O dinheiro cheira a pobre e cheira / À roupa do seu
corpo”) para traduzir a sua estupefacção e a sua
revolta face à situação constatada. Para enfatizar as
suas ideias, volta a servir-se da repetição e do
jogo sistemático de palavras: “…cheira a
pobre…”, “…cheira / À roupa…”, “…do seu
corpo”, “…sobre o corpo”, “Porque não
tinham outra”.
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A terceira parte do texto é composta pelas estrofes três
e quatro. Em ambas, o sujeito poético recorre à
intertextualidade, utilizando uma citação bíblica (“Ganharás
o pão com o suor do teu rosto”) e a um facto narrado
na Bíblia, quando Cristo expulsa do Templo os vendedores
(“Ó vendilhões do templo...”), para comprovar a
contradição evidente entre o comportamento das
pessoas e os ensinamentos transmitidos pelo
livros sagrados.
Cristo ordenou, na verdade, que cada um de nós deveria
esforçar-se (“... com o suor do teu [seu]
rosto” – note-se a
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Cristo expulsa os vendilhões do Templo. |
sinédoque, porque não se
trata apenas do suor do rosto, mas sim de todo o corpo)
para conseguir a sua própria sobrevivência e não
sobreviver à custa dos outros: “E não: / «Com o suor
dos outros ganharás o pão»”.
Nesta parte, o sujeito poético deita mão a vários
recursos estilísticos, não só para tirar daí efeitos
estéticos, mas também para dar mais ênfase às ideias que
quer transmitir: a ironia (“E não: / «Com o
suor dos outros ganharás o pão»”), com a qual
critica a classe dominante, ou seja, todos os que vivem
à custa do trabalho e exploração dos outros; a
perífrase (“Ó vendilhões do templo”), com que
identifica aqueles que são objecto da sua crítica – os
exploradores; as apóstrofes (“Ó vendilhões...
/ Ó construtores / Ó cheios de devoção...”), para
especificar quem são os que pertencem à classe
dominante; a imagem metafórica e a dupla
adjectivação (“Ó construtores / Das grandes
estátuas balofas e pesadas”), para denunciar aqueles
que se prendem à materialidade das coisas – dinheiro,
ganância, ambição…– as quais, exactamente por serem
materiais, primam pela vacuidade e pelo ónus; a
aliteração em
/-v/
(“Ó vendilhões do templo / Ó cheios de devoção e de
proveito”), que evidencia a revolta e a determinação
do sujeito da enunciação em acusar e desmascarar aqueles
que conhecem a Bíblia e frequentam a Igreja, mas só se
guiam por interesses mesquinhos e esquecem, no seu
dia-a-dia, aquilo que lhes foi doutrinalmente ensinado.
Há, então, uma constatação da exploração do Homem pelo
Homem, uma das principais linhas temáticas do universo
poético de Sophia, que escalpeliza abertamente na sua
poesia a injustiça, a mentira, a cobardia, o fingimento
e a corrupção, com intuitos óbvios de chegar às pessoas
através das palavras, mudando-lhes as suas ideias e
práticas.
A última parte, constituída pelos dois últimos versos, é
a conclusão do poema. Utilizando, mais uma vez, a ironia
e deturpando propositadamente uma frase citada por
Cristo em sofrimento (como sofredores são todos os
injustiçados e os marginalizados por uma sociedade
farisaica, degradada e degradante), o sujeito lírico
omite o advérbio de negação “não”. E isto porquê?
Porque esses hipócritas estavam bem conscientes das suas
atitudes e comportamentos.
Como quase todos os poemas de Sophia, também este se
caracteriza por uma ausência de pontuação e de
regularidade métrica, estrófica e rítmica, de modo a
permitir que as ideias e pensamentos discorram com maior
fluidez e liberdade. Só em liberdade se tem a
possibilidade de emitir juízos críticos e/ou valorativos
sobre as pessoas e sobre as coisas. Daí também o uso
frequente de encavalgamentos ou transportes, os
quais conferem ao poema um aspecto quase prosaico,
light, sem deixar, todavia, de ser sério.
Comentário feito por
Joaquim
Matias da Silva
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