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SOPHIA DE
MELLO BREYNER ANDRESEN
“RESSURGIREMOS”
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delfos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
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Ruínas do antigo Palácio
Real de Knossos, em Creta. |
Ressurgiremos ali onde as
palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
Sophia de Mello Breyner
Andresen, in Poesia I, 1944
Comentário
ao poema
Este poema de Sophia de Mello Breyner é composto por
quatro estrofes, entre as quais se encontram dois
tercetos (primeira e última) e duas quadras. A métrica é
irregular, justificando a variedade rítmica, e a rima e
a pontuação estão ausentes, facto que comprova e
demonstra uma particularidade própria da poética de
Sophia: a liberdade versificatória que pretende ir ao
encontro dos seus pensamentos e devaneios, o que
pressupõe um desrespeito por uma estrutura rígida e
limitadora, caso contrário, os seus sonhos e a sua
imaginação estariam artificializados.
Normalmente, um verso curto segue-se a um anterior mais
longo, o que mais uma vez confirma a sua faceta em não
colocar qualquer impedimento ao sonho poético e de dar
asas à sua magia, ao mesmo tempo que confere ao poema um
ritmo pausado e lento, convidando a uma análise profunda
e à reflexão.
A estrutura do poema pode ser melhor compreendida da
seguinte forma:
Ressurgiremos
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Sob os muros de Cnossos
E em Delfos
... na dura luz de Creta
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Onde as palavras
São o nome das coisas
E onde...
Na aguda luz de Creta
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Onde pedra...
São o reino do homem
Para olhar...
Na luz limpa de Creta
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Pois convém tornar
claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
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“Ressurgiremos” é uma forma verbal que aponta para a
ideia de futuro e apresenta-se, na primeira estrofe,
como “ainda” uma promessa e uma idealização.
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A esperança de um renascimento que esta forma
verbal traduz é intensificada pela reiteração do
advérbio “ainda”, o qual sugere que, apesar de
todas as contrariedades, de toda a destruição,
da instauração do caos, nem tudo está já
perdido. |
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É que do caos nasce o cosmos e, com efeito, ao olhar
para os lugares mais representativos da antiga cultura
grega, o sujeito da enunciação pensa que é à “luz”, ou
seja, sob a influência, a inspiração dessa civilização
grega que todos “ressurgiremos”, tornando mais humana a
nossa civilização desunanizada.
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Antigo Templo
de Apolo, em Delfos - veja-se a fenda (falha)
vulcânica. |
Servindo-se do deíctico “ali” (advérbio de
lugar), aponta claramente os lugares de onde
irradiou a cultura do mundo civilizado – “Creta”
(ilha grega do mar mediterrâneo oriental, sede
da civilização minóica, a mais antiga da
Europa), “Cnossos” (capital de Creta e sede do
palácio real. |
Foi centro de uma das mais notáveis civilizações
pré-helénicas entre os séculos XX e XIV a.C.) e
“Delfos” – antiga cidade grega da Fócida, na encosta sul
do monte Parnaso, onde se erigiu o oráculo mais
importante da Grécia dedicado a Apolo. Começaram a
celebrar-se aí, de quatro em quatro anos, os jogos
Píticos, assim denominados em honra da Pítia ou
Pitonisa, uma sacerdotisa que veiculava as “respostas”
desse Deus.
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Essa civilização helénica ou pré-helénica
constituiu o “centro do mundo”, no
entanto foi destruída (“...sob os muros de
Cnossos”); daí que a luz de Creta seja “dura”,
adjectivo que vem estabelecer uma relação entre
a dureza da luz (não nos devemos esquecer que
estamos nos
primórdios da referida |

Ruínas do antigo
Palácio Real de Knossos, em Creta.
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civilização) e as pedras (“muros”)
das ruínas. Convém, entretanto, frisar que a grandeza da
civilização grega residiu nos valores defendidos pelos
clássicos: exactidão (“...ali onde as palavras / São
o nome das coisas”), equilíbrio, inteligência,
clareza (“E onde são claros e vivos os contornos”).
Esses valores, aos poucos, foram irradiando pelo mundo
ocidental, como nos dá a entender o uso do adjectivo “aguda”
anteposto a “luz”: “Na aguda luz de Creta”.
Essa “luz” que, como já vimos, é usada em sentido
metafórico, dado que simboliza inspiração, influência, é
“aguda”, pela simples razão de que foi penetrando
lentamente noutras civilizações, alterando filosofias e
comportamentos humanos.
Na terceira estrofe, o sujeito lírico volta a repetir a
expressão anafórica “Ressurgiremos ali” e,
recorrendo a elementos simbólicos e metafóricos, reforça
a ideia da grandiosidade da civilização grega que
conseguiu conciliar a matéria (“pedra”) com o
espírito (“estrela”), obtendo uma espécie de
harmonia universal (“São o reino do homem”), sem
a qual o Homem não se pode realizar plenamente.
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Creta, a maior ilha grega. |
Agora (depois do ressurgimento), a “luz”
de Creta passa a ser “limpa”, ou seja, já
sofreu uma depuração, de tal forma que o homem
pode “olhar para a terra de frente”, sem
medos nem ambiguidades, porque os valores por
que se rege são mais puros, autênticos,
verdadeiros. O poema termina com um terceto
iniciado pela conjunção coordenativa conclusiva
“pois”, funcionando, consequente-mente,
como conclusão das ideias apresentadas. |
Mas há aqui algo de novo: é a introdução de um elemento
nitidamente cristão e humanista – “E erguer a negra
exactidão da cruz / Na luz branca de Creta”. O
substantivo “exactidão” poderá significar um
certo dogmatismo inerente à religião cristã que se
mostra muitas vezes intolerante face a determinados
comportamentos do homem, ganhando, por isso, um valor
pejorativo, realçado, aliás, pelo adjectivo “negra”.
De qualquer dos modos, parece que o sujeito poético
acredita que para “tornar claro o coração do homem”
é necessário chegar-se a um equilíbrio que resultará de
uma certa conciliação entre os valores clássicos e os
valores cristãos, tendo uns e outros de ser objecto de
uma depuração. Se o homem e o mundo em geral conseguirem
uma simbiose perfeita entre a doutrina pagã e a doutrina
cristã, então, sim, atingir-se-á um reino onde o ser
humano se sentirá feliz, plenamente realizado.
É de notar, ao longo do poema, não só a gradação
ascendente inerente à caracterização da “luz de Creta” –
“dura”, “aguda”, “limpa” e “branca”
–, a qual, como já demos a entender, através da análise
feita, sugere uma progressiva melhoria até se atingir a
perfeição, a pureza, que o adjectivo “branca”
traduz simbolicamente – é curioso verificar que os dois
primeiros adjectivos (“dura”, “aguda”)
estão antepostos ao nome, enquanto os dois últimos (“limpa”
e “branca”) surgem pospostos, como que a reiterar
a noção de que a pureza da “luz” é agora um dado
adquirido, objectivo. Um destaque especial também para o
jogo cromático entre o branco e o negro, em que o
primeiro simboliza a perfeição e o segundo a morte, mas
uma morte que contém em si o gérmen de uma nova vida. Na
verdade, quer o branco quer o negro são cores iguais em
valor absoluto, situando-se nas duas extremidades da
gama cromática, sendo, ao mesmo tempo, a negação uma da
outra e a sua síntese.
Os últimos versos de cada uma das estrofes são como que
um refrão, que pretende chamar a atenção do leitor para
a ideia que nos quer transmitir o sujeito poético: a
superioridade da civilização cretense e uma caminhada
ascendente para a pureza, através da osmose entre essa
civilização e o cristianismo.
O título do poema é repetido anaforicamente ao longo de
toda a composição e, para além do conceito de futuridade
que dele se desprende, há também uma expressão de
pluralidade, isto é, é o mundo inteiro, todos nós, que
temos de renascer para uma nova vida.
Esta composição insere-se em temáticas tão desenvolvidas
por Sophia de Mello Breyner Andresen como as dialécticas
caos / cosmos, tempo dividido / tempo absoluto, o culto
pelo clássico – visível não só ao nível semântico, mas
também da própria grafia das palavras (“Delphos”)
– e, por derivação, o compromisso com a realidade
social, porque para se atingir a perfeição tão
ambicionada é necessário que a sociedade mude.
Análise
feita por
Joaquim
Matias da Silva
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