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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

 - Universo poético -

 

PERFIL POÉTICO
 

A poesia de Sophia Andresen, ao mesmo tempo distante e apaixonada, concisa e eloquente, fluente e escultural, vibra toda de amor à vida e de certa exigência moral e cívica. Reflecte dentro das tradições do humanismo cristão, o sentido universalista da existência, às vezes trágico. Retomando a linha de um esbatido naturalismo helénico, traduz o contacto quase sensual com a natureza em símbolos telúricos como mar, vento, praia, casa, jardim, luz, lexemas que não raro fornecem os títulos para alguns dos seus livros (A Noite e a Casa, Dia do Mar, Coral, Mar Novo, A Menina do Mar...).

 

Embora muito menos hermética do que a de Jorge de Sena, a sua poesia aproveita do trabalho inovador de Tomás Kim, fugindo dos lugares comuns, e é natural, cuidada, sem empolamentos e com constantes a nível de tema e de vocabulário.

 

Sophia sente os problemas do mundo que a rodeia, toma consciência deles e, sem ser violenta, assume a defesa dos desprotegidos, dos explorados e dos que são perseguidos por não terem o direito de pensar, dos que passam uma parte da sua vida privados de liberdade.

O UNIVERSO POÉTICO DE SOPHIA


1 – A obsessão do mar e da Natureza
 

O mar ocupa um lugar de relevo na obra de Sophia. A sua beleza, a sua serenidade e os seus mitos são assumidos ao longo da poesia desta escritora. Segundo Jacinto do Prado Coelho, há nessa poesia "um Alberto Caeiro em que o cristianismo assumisse o paganismo sem o anular". O cristianismo é, aliás, um dos elementos aglutinadores da sua poesia, dando sentido às coisas, inclusive à morte.

 

O mar é o símbolo da dinâmica da vida. Tudo vem do mar e para lá regressa. Ele é um lugar de nascimentos e de transformações, de vida e de morte.

O cenário do mar funciona como expressão do mundo interior da poetisa. Se as águas estão em movimento, isso expressa incerteza, dúvida, indecisão, o estado transitório das coisas e das realidades; mas se há referências às suas profundezas e aos monstros misteriosos que aí se ocultam, isso remete-nos para as profundezas do subconsciente do poeta, onde se escondem os segredos e as forças mais íntimas da alma.

 

O mar, a praia, a casa, os jardins (reais e míticos) são suportes e estrutura da sua demanda da perfeição, da pureza e da harmonia.

A Natureza em geral é outra das fontes de inspiração. Tanto funciona como elemento poético, como contém a verdade antiga das origens e do futuro; tanto se liga à ideia de beleza, como ao mistério.

2 – O compromisso com a realidade: a poesia como forma de luta contra a injustiça, a mentira e a corrupção

 

A poesia de Sophia é uma poesia comprometida com a realidade. O seu canto puro e livre está atento à beleza, mas também é sensível ao sofrimento do mundo, à degenerescência, à corrupção e à exploração. É um canto de luta, não de luta violenta, mas de permanente denúncia da injustiça, da mentira, da violência e de todas as formas de escravidão.

A aparente impecabilidade do poder, o seu não-comprometimento na violência que prepara, a traição, a podridão e a degradação (a que se associa o símbolo do abutre) são outros vícios denunciados na obra de Sophia, nomeadamente em A Veste dos Fariseus. Numa tentativa de enfrentar as forças destrutivas instaladas no interior do homem, na sociedade e no poder, a busca da justiça é um dos seus desideratos mais perseguidos.

 

Este compromisso com a realidade levou Helena dos Santos a dizer "a poesia de Sophia é duplamente formativa porque ajuda o leitor a tomar consciência com a realidade social e política e a procurar formas de luta que procuram não redobrar as cadeias da violência, mas eliminá-la progressivamente".

3 – A problemática do Tempo: o tempo dividido e o tempo absoluto

 

Estreitamente ligado ao ponto anterior aparece-nos a problemática temporal.

O tempo dividido é o tempo do comportamento humano, é o tempo da história, um tempo sem verdade, logo um tempo de solidão, de incerteza, de medo, de injustiça, de vileza, de mentira, de escravidão, de covardia, de mascarada, de negação. É um tempo associado à vida na cidade, que é feita, como diz Eduardo do Prado Coelho "pelo tecer do tempo, pelo tecido da história, esse mesmo tecido que produz as máscaras e os véus". Na "cidade", o homem perdeu-se da sua unidade essencial, "daquilo que é eterno" e, por isso mesmo, entrou num processo de degenerescência, de destruição, de violência.

 

Ao tempo vivido opõe-se o tempo absoluto, que é um tempo transcendente, um tempo daquilo que é eterno, um tempo de realização suprema do Homem, em que se restabelece a unidade da vida e se realizam os mais elevados valores. Daí a demanda de valores éticos e a consciência aguda da sua urgência num mundo corrupto (aliás, a procura destes valores será talvez um dos elementos que une os poetas dos Cadernos de Poesia).

4 – A dialéctica Caos-Cosmos

 

Segundo Sophia "o caos de certa maneira revitaliza o cosmos, é uma fonte de energia e é isso que a poesia sabe. Há uma dialéctica caos-cosmos em toda a obra de arte". O Caos é a violência, trevas, desequilíbrio, conflito, confusão, desordem e o Cosmos é transparência, claridade, equilíbrio, harmonia, geometria, ordem.

A poesia seria um agente transformador da realidade, uma força capaz de modelar a matéria informe do caos e de criar um universo organizado, equilibrado e geométrico (poesia = geometria., arrancada ao caos).

De acordo com esta perspectiva, também defendida por Mallarmé, o poeta seria ainda o profeta, o mensageiro de uma linguagem transcendente, que transforma e organiza o mundo.

 

Para Sophia, "há sempre uma rouquidão no poema que é a voz dos caos, da origem do combate que houve com a treva, com a imperfeição, com a desordem em que o Poeta se afogou e de que emerge através do poema. Pode dizer-se que escrevemos poesia para não nos afogarmos no caos".

5 – A aliança entre a palavra e a realidade (a arte poética)

 

A aliança entre a palavra e a realidade constitui um dos aspectos mais importantes da poesia de Sophia.

As palavras estabelecem uma íntima relação com as coisas, restituindo aos objectos a sua realidade, a sua pureza, a sua força mágica. O Homem tem ao seu dispor um conjunto extraordinário de elementos que lhe permitem captar e comunicar com as forças do Universo – os sistemas fonéticos.

A íntima relação que Sophia estabelece entre a palavra e a realidade é talvez um prolongamento daquela inspiração genesíaca, segundo a qual Deus teria atribuído a cada ser o seu verdadeiro nome.

 

Em Antologia de Poesia, Sophia expressa as seguintes ideias sobre a arte poética: "A poesia pede-me a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar (...). Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca durma, que nunca me esqueça.

(...) Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal, mas sim de uma vida concreta (...).

(...) É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão duma linguagem.

Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente ligado. Se um poeta diz "obscuro", "amplo", "branco", "pedra" é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança (...).

(...) E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida".

 

Mas a poetisa parece também crer na noção de “poeta possesso” e de “acontecimento do poema”. Segundo ela, um poema “acontece”, sendo o escritor apenas o instrumento, o veículo que torna o “acontecimento do poema” possível. O poema é como que um ditado que o poeta capta como se fosse uma antena. Já Pessoa dizia “aconteceu-me um poema” e Sophia parece partilhar a mesma opinião quando diz: “a minha maneira de escrever é muito próxima deste acontecer”; e ainda: “Encontrei a poesia antes de saber que havia Literatura. Pensava que os poemas não eram escritos, que existiam por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, inerentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir. Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atenta e de que o poeta é um executador.

6 – Os mitos gregos (Crepúsculos dos deuses; Ressurgiremos; Soneto a Eurydice; Roma)

 

- Evocação nostálgica da civilização grega e do mundo clássico com a sua estética;

- Aliança entre beleza e verdade;

- Visão apolínea (divindades diurnas, luz solar);

- Mundo povoado por deuses e não por homens.

 

O tema do Antigo, sobretudo Antiguidade Clássica, é outro dos temas obsessivos da sua obra. Muitos dos seus poemas reportam-se a lugares carregados de significado histórico ou mítico, a obra de arte grega e aos deuses da mitologia pagã.

"A civilização grega é um modelo axiológico para Sophia. Nela procura um conjunto de valores perdidos: a inteireza, a harmonia, a justiça."

 

O mundo antigo, a que recorre a poetisa, simboliza a perfeição e a unidade ou tempo absoluto que procura. Os Gregos deixaram ao mundo ocidental o ideal estético, o espírito olímpico.

"O mundo de Sophia é povoado por deuses e não por homens. Por isso, é mais fácil encontrá-lo nos vestígios e nos lugares da civilização grega do que no mundo em que habitamos. Por vezes, esta poesia chega a ser de uma profunda desumanidade: sonhando com a perfeição, o equilíbrio e a harmonia (...) ergue-se para além do mal e da imperfeição que nos são consubstanciais e faz reviver um tempo sem mácula (...) É aí que a poesia se dá como revelação e como relação com o Todo, como uma espécie de linguagem natural que decorre simbolicamente das coisas. (...)".

 

A cultura greco-latina constitui, assim, uma referência de harmonia, equilíbrio e perfeição que é impossível encontrar na confusão da cidade.

Os mitos gregos são a chave para descobrir a verdade e a justiça, sem as quais não é possível construir um país sem mácula.

7 – O fundo mítico da poesia de Sophia


O carácter mítico da poesia de Sophia é denunciado:
- pela transfiguração do real no irreal (simbolismo);
- pelo tom divinatório e profético de alguns dos seus poemas;
- pela presença misteriosa do mar;
- pelo do culto do antigo.

 

Segundo João Gaspar Simões, a poesia de Sophia traz consigo raízes fundas e vozes longínquas que predestinam para um futuro mitológico. A voz difusa e secreta que ressoa nos seus versos revela afinidades com a de certos poetas nórdicos. Descobre-se na sua poesia um contraste entre uma sensibilidade ardentemente amorosa da vida que agitava cada célula do mundo quando o mundo ainda era lugar de vida, e não de morte, e esse mesmo mundo transformado em necrópole, um pouco lunar, nebuloso e inquietador. No livro Dia do Mar, o mar surge como uma ameaça em volta da Terra e alguns poemas encerram largos pressentimentos e libertam fundas inquietações.

 

Sophia admira tanto a cultura greco-latina que recupera a própria grafia de palavras como Athena, Eurydice, Delphos, Dionysos, amphora, e outras, demonstrando o seu culto pelo antigo, principalmente pela velha Grécia, matriz de toda a cultura europeia. A poetisa mantém uma grafia desusada no seu próprio nome (Sophia) que, assim, intencionalmente ou não, se reveste de ambiguidade, reenviando ao valor sémico de sabedoria.

8 – Outros temas da sua poética
 

8. 1. O Amor, que se encontra muitas vezes ligado ao tema da espera, da ânsia de qualquer coisa misteriosamente obscura, uma espécie de sebastianismo diluído. Por outro lado, não é só amor-paixão que é cantado, mas também a fraternidade humana.
 

8. 2. A evocação de imagens e de sensações da infância.
 

8. 3. A vida – a procura da vida corresponde a uma fuga do quotidiano amorfo, da rotina, dos "clichés".

9. A herança do paganismo e a presença de Fernando Pessoa

 

A herança pagã de Sophia revela-se não só pela fascinação que lhe causa o mundo antigo, mas também pela facilidade experimentada perante a visão objectiva da realidade. Pelo seu optimismo são, pelo positivismo, pela alegria que se depreende e desprende da sua obra, talvez Sophia seja mais pagã do que Pessoa. E contrariamente a este, cujo paganismo é, antes de mais nada, uma agressiva afirmação anticristã, Sophia consegue conciliar o paganismo e o cristianismo.

F. Pessoa surge na sua poética como mestre e verdadeiro arquitecto da palavra. A sua influência é evidente na concepção e na organização de alguns poemas. Sobre o grande poeta Sophia escreveu:


"E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isenta de destinos
".

 

Se, por vezes, a poetisa parece aceitar a noção do "poeta inspirado", ou "poeta possesso", afirmando que a poesia lhe “acontece”, como a Fernando Pessoa que dizia "aconteceu-me um poema", vê outras vezes, e ainda como Pessoa, o poema como construção, arquitectura. Dentro da concepção romana de que um ser humano poder-se-ia fazer deus, é possível afirmar que o poeta também alcança plenitude divina.

 

Sophia aparenta-se com Alberto Caeiro pela objectividade, pela presença do real, pela felicidade decorrente da simples visão das coisas como elas se nos apresentam. Entretanto, aproxima-se de Ricardo Reis ao privilegiar a ode, nas referências clássicas e no rigor e exactidão dos versos e das palavras.

10. O Estilo – A função mágica como núcleo da arte poética de Sophia (as características técnico-formais)

 

A poesia de Sophia afirma-se como uma escrita pessoal, em fantasia, em liberdade. A ambiguidade é um recurso deliberadamente utilizado. A função mágica da sua arte poética é conseguida e caracterizada:

 

- Pela transfiguração do universo real no universo irreal;

- Pela captação do real através das sensações;

- Pela importância atribuída à nomeação das coisas, restituindo aos objectos a sua realidade e a sua pureza;

- Pelo destaque concedido aos quatro elementos constitutivos do universo – terra, ar, água e fogo;

- Pelo aproveitamento de certos mitos, entre os quais os mitos clássicos de Orpheu e de Sísifo (sobretudo na sua poesia de maior intervenção, onde através do uso da ironia afirma a sua revolta contra as injustiças sociais);

- Pela pureza e musicalidade dos versos;

- Pela liberdade versificatória – o ritmo e o metro são livres, acompanhando o pensamento e o devaneio; a rima só pretende criar beleza fónica ou pôr em relevo determinados signos, mas nunca se afirma como esquema rígido e absorvente; a pontuação é quase inexistente, de modo a não impedir formalmente o devaneio poético, de modo a que a imaginação e o sonho não sejam tolhidos por limitações de natureza secundária e artificial;

- Pelo recurso a palavras carregadas de valor mágico. Essas palavras-chave são: mar, espuma, praia, céu, noite, luar, brilho, estrelas, deuses, jardim, sonho, obscuro, sol, nevoeiro, árvores, vento, natureza, casa, mistério, alegria, água, beijo, harmonia, vida, solitário, poesia, morte, etc.;

- Pelo uso frequente da metáfora e da comparação;

- Pelo emprego da imagem-símbolo;

- Pelo emprego da sinestesia, hipálage, animismo;

- Pela intertextualidade bíblica.

Vila Nova de Famalicão, Maio de 2004

O Professor,
Joaquim Matias da Silva

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