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CANTIGAS DE AMOR

- A teoria do amor cortês -

 

O amor provençal, também apelidado de amor cortês, é muito diferente do amor que é cantado nas cantigas de amigo. Com efeito, nessas cantigas, o amor tem como finalidade a constituição da família, ou seja, a união dos namorados pelos laços sagrados do matrimónio, razão por esse amor só se verificar entre solteiros.

Pelo contrário, o amor cortês não tem como objetivo a união matrimonial dos apaixonados. Na verdade, não passa de uma aspiração sem correspondência. Ao cortejar uma mulher casada, o sentimento amoroso revelado pelo suposto amante constitui, na maioria dos casos, um fingimento inteletual, até porque a mulher, como já foi dito, é uma “dona”, normalmente senhora da corte e fidalga, condição social que nem sempre era a do seu amoroso cantor.

 

O amor cortês reveste-se de alguns aspectos peculiares, a saber:

 

Amor-vassalagem – o trovador comporta-se com a “dona” como o vassalo perante o seu suserano. Ele ajoelha-se, humilha-se, serve, adora, fica extasiado com a beleza física e moral da mulher por quem diz morrer de amores. Quanto à “dona”, ela manipula o coração do seu vassalo, como se de uma senhora absoluta se se tratasse.

 

Os graus de aproximação – a aproximação entre o trovador e a sua amada faz-se gradualmente, por fases. Assim, ele é


           
 * Um fenhador, se se limita a suspirar;

      * Um precador, quando já se atreve a dizer algumas palavras à dona;
            
* Um entendedor, se começar a ser correspondido;
            
* Um drudo, se porventura chega a ter relações de intimidade com a “dona”, o que raramente acontece nas nossas cantigas, contrariamente aos cantares provençais.

 

As prendas ou dõas – o apaixonado e a “dona” costumavam presentear-se mutuamente, com joias, anéis ou peças de vestuário – vestidos, toucas, cintas, cordões…

 

A mesura – o poeta devia mostrar-se discreto na expressão dos seus sentimentos, para que a dama não visse a sua reputação manchada. Devia usar de mesura, que originava no cantor:
       
* A timidez – nem tinha coragem de manifestar o que sentia!…;

* O pavor – até tremia com receio de dizer qualquer coisa inconveniente que magoasse a amada!...;
    *O segredo – nunca divulgava o nome da eleita do seu coração. Dissimulava ao máximo para que ninguém suspeitasse de nada.
 


 

Enredo entre cavaleiros e pastoras – a tessitura semântica destas cantigas é simples: há um encontro entre um cavaleiro e uma pastora, a que se segue um inevitável elogio do cavaleiro à pastora ou então uma declaração de um amor que nasceu genuinamente à primeira vista. Por vezes há uma correspondência singela, inocente, a esse amor; na maioria dos casos, porém, a pastora pede encarecidamente ao cavaleiro para se afastar, pois não quer ver a sua reputação manchada.
Claro que casos de violação também os havia nessa época…

 

Análise introspetiva – ainda por influência dos cantares provençais, as cantigas de amor refletem estados de alma que passa(ra)m despercebidos à naturalidade e simplicidade das cantigas de amigo: o doce-amargo do amor, o querer e o não querer da vontade e outras contradições que brotam do peito dos namorados.
 

A morte de amor – o sentimentalismo exacerbado dos poetas trovadores traduzia-se num amor tão intenso, mal correspondido e, por isso, tão cruel para esses cantores que eles acabavam por desejar a morte. Esse desejo, porém, tornou-se tão usual e tão banal que caiu num lugar comum, vazio de significado. Daí que o intento fingido de “morrer de amores” tenha sido glosado e criticado nas cantigas de escárnio, como o ilustra a cantiga “Roi Queimado morreu com amor”.

 

A descrição da natureza – a exemplo das cantigas de amigo, também nestas a natureza emoldura os sentimentos amorosos. Não admira, pois, que os trovadores falassem nas flores de Maio, no tempo da flor, nas aves, na primavera, no estio, nos prados, nos ribeiros…

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

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