A acção principal decorre em Évora, durante um ano
lectivo, o período em que Alberto Soares vive a sua
primeira experiência profissional como professor de
liceu.
São as seguintes as sequências narrativas que a
constituem:
Chegada de Alberto Soares à estação de Évora
e
alojamento na pensão do Sr. Machado.
Início da actividade profissional do protagonista.
As ruas
labirínticas de Évora
Encontro de Alberto com o Dr. Moura, antigo amigo de
seu pai; jantar em casa deste, situada para lá das
portas de Alconchel, momento em que o narrador conhece a
família do médico.
Chico (que também estivera presente em casa do Dr.
Moura) pergunta ao professor se ele estaria disposto a
colaborar nas conferências que, com alguns amigos, iria
efectuar na Harmonia, com o objectivo de tentar combater
a ignorância e a soberba que dominavam Évora, ao que
Alberto Soares acede.
O professor dá lições de Latim a Sofia.
O Bailote suicida-se, na sequência da constatação de
que já não pode semear a terra e após ter pedido auxílio
ao Dr. Moura, de cujo carro se acercara para o efeito,
quando este, acompanhado pelo professor, ia visitar um
doente.
Alberto Soares procura Chico para conversar sobre a
primeira conferência a realizar. Desejava levar às
pessoas a sua “notícia”: “era necessário que todos os
homens vivessem em estado de lucidez (...) chegassem ao
milagre
de ver.” (p. 64). Acaba por chamar, sobretudo, a atenção
de Carolino, que chega entretanto, uma vez que o
engenheiro reage ironicamente ao entusiasmo do docente.
O professor visita os Cerqueira (Ana e Alfredo), na
sua casa.
Relacionamento amoroso de Alberto com Sofia.
Férias de Natal - o narrador desloca-se à sua aldeia
natal.
Regresso do protagonista a Évora e conhecimento da
relação entre Sofia e Carolino.
Alberto Soares instala-se na casa do Alto.
Morte de Cristina (no período do Carnaval).
Carolino visita a casa do Alto, com intenção de matar
Alberto Soares.
O reitor convida o professor a abandonar Évora, dados os
rumores que a sua pessoa motivava na cidade (já antes o
advertira em relação ao facto de as aulas particulares
que dava a Sofia terem suscitado interpretações menos
favoráveis à sua reputação).
Chico acusa o professor de gerar inquietação nos
pessoas em Évora.
Alberto Soares deixa o Alentejo, pelas férias da
Páscoa.
De regresso a Évora, o professor é convidado por
Alfredo a visitar a quinta da Bouça.
Sofia encontra-se com Alberto Soares na casa do Alto.
Chico adoece
e é visitado pelo protagonista.
Alberto Soares recebe um telefonema anónimo,
responsabilizando-o por algo que ainda desconhece.
Dá-se conhecimento da morte de Sofia, cujo corpo fora
encontrado “num caminho que parte de junto de Chafariz
de El-Rei” – fora assassinada com um punhal.
A narrativa é frequentemente interrompida por
analepses, em que o narrador, motivado por
percepções, por sugestões, por reflexões,
regressa à sua aldeia natal e ao mundo da sua
infância, e por catálises (descrições,
reflexões). A viagem narrativa é a do narrador
em busca da sua identidade, inquietando-se
inúmeras vezes pelo absurdo da morte (a morte do
seu cão Mondego, quando criança, causa-lhe já
uma impressão assustadora, motiva as suas
interrogações; a morte de seu pai constituirá
outro dos momentos de reflexão privilegiados
sobre esta temática). O que está em causa, para
Alberto Soares, e determina a sua relação com os
outros é a constante preocupação com uma
explicação possível para a vida e para a morte.
Em determinados momentos, a personagem consegue
uma percepção da ordem
que subjaz à
própria existência e que é imutável, gozando momentos
fugazes de uma relação com o transcendente.
Estes instantes
dão-lhe, entretanto, a consciência do nada, do
transitório. Finalmente, é de reter, como afirma Hélder
Godinho, que o percurso do herói se circunscreve à "sucessão
habitual dos imagens nos mitos heróicos",
ou seja, trata-se de uma mutação no interior do próprio
narrador, de modo a conquistar o seu próprio espaço, no
tempo que lhe é dado viver.
A CONFLITUALIDADE DE PENSAMENTO / ACÇÃO
1.º PERÍODO ESCOLAR
O protagonista é professor e compromete-se em situações
que ocorrem ao ritmo de um ano lectivo.
Alberto Soares chega a Évora. Vê-se despojado do pai, da
família, da casa, da aldeia, da montanha. Em troca, tem
a planície, a cidade, um quarto impessoal numa pensão,
uma outra família (a do Dr. Moura) e o reitor.
O “gralhar das galinhas” que ouve do quarto largo e
branco da pensão do Sr. Machado lembra-lhe a aldeia; os
seus longos silêncios vivificam a história recente da
morte do pai; a aparição do Liceu presentifica-lhe o
passado na
Universidade de Coimbra.
Compete ao bom médico, o Dr. Moura, como amigo da família,
integrá-lo na sociedade eborense. O bom homem, aliás,
mantinha o secreto desejo de ver Alberto Soares salvar
Sofia, pelo casamento. Achava ele que “se o corpo está
tranquilo, os sonhos são mais razoáveis”. Mas Alberto e
Sofia não podem unir-se. Entre eles desenrolar-se-á um
jogo de atracção-rejeição. Ela é jovem, bela, rebelde,
contestatária dos valores vigentes, irreverente e
interpelativa; ele é um jovem professor, propenso à
introspecção, à interpelação permanente sobre o sentido
da vida e da morte. Ambos se atraem e rejeitam na
cumplicidade das escolhas que protagonizam face às
situações. Sofia vê em Alberto uma ameaça para o seu
mundo; Alberto sente-se avassaladoramente atraído por
Sofia, mas essa atracção limita-o na sua liberdade de
escolha, por isso a união entre eles é assumida desde o
início como um “apelo de uma união trágica e blasfema”.
Os contactos informais (jantares, encontros...) e as
lições do Latim em nada contribuíram para o
aprofundamento de uma relação simples e pura. O jantar
em casa de Ana é mais uma prova do jogo
atracção-rejeição, em que ora se avança para a
precaridade de uma união ora se avança inapelavelmente
para a disjunção. A própria Ana agride, nas suas
revelações pouco abonatórias da moralidade de Sofia.
Ana, Chico, o reitor, todos eles à sua maneira,
responsabilizam o jovem professor pelos seus actos e as
consequências dos mesmos para Alberto e para os outros,
seguindo, aliás, a óptica dos pensadores do
existencialismo que defendem a ideia de que a liberdade
responsabiliza o homem pelo que faz ou deixa de fazer.
Ele é sempre responsável por si e pelos outros.
O jovem professor ousa ir mais além e projecta os alunos
na inquietação de um tempo anterior ao do passado da
infância. Carolino ouve-o, mas não compreende, ou então
deturpa, a mensagem que lhe é transmitida e revela-se uma personagem em
crise, para quem o “homem
é que é Deus porque pode matar”;
para quem“matar
é igual a criar”.
2.º PERÍODO ESCOLAR – Regresso da aldeia onde fora
passar o Natal
O despojamento é cada vez maior.
Na aldeia, nesse Natal, a casa está deserta, os irmãos
dispersos, a mãe quase ausente. A ceia é, pela primeira
vez, compartilhada apenas com a mãe, estando os
restantes lugares à mesa vazios.
Entretanto, as partilhas vão quebrar a relativa união
familiar. Evaristo, o mais novo, corta relações com os
outros irmãos.
No meio de tanto vazio e de tanta frieza (física e
moral) nem Sofia lhe serve de consolo, porque não
responde às suas cartas.
De regresso a Évora, encontra a pensão do Sr. Machado
fechada, o que leva Alberto a hospedar-se na Eborense e
a sonhar com a Casa do Alto.
O grupo de amigos reconstitui-se aos poucos, não já nos
espaços de intimidade que marcaram as relações da
primeira fase, mas no café Lusitânia.
O protagonista sente-se agredido perante uma
cumplicidade colectiva que o aponta como réu – o gelo
das conversas, o absurdo dos temas grosseiros e
ofensivos de Alfredo, o constrangimento de Ana, a
indiferença de Sofia, o comprometimento de Carolino, o
desprezo de Chico, são agulhas que ferem a alma do
sujeito da enunciação.
Alberto deixa de dar lições de Latim (= perder Sofia),
perde a confiança e a lealdade do Dr. Moura. Só lhe
resta a frontalidade do reitor, com os seus conselhos
sábios, experientes e tolerantes e, sobretudo, Cristina,
sempre omnipresente, com a sua música purificadora.
Entretanto, a morte de Cristina vem agravar a sua solidão. A família
Moura, ferida, fecha-se, afasta-se; Sofia parte;
Carolino desespera-se e exaspera-se. A ruptura com as
pessoas e com a cidade, que o acusa implicitamente nos
olhares dos transeuntes, acentua-se. A fractura com
Carolino tem a dureza do gume da navalha; com Chico, a
crueza das suas condenações pelas mudanças operadas em
Ana; com o reitor, a compreensão intimidatória da
transferência de escola.
No final do 2.º período, o jovem professor é uma
personagem em disjunção.
3.º PERÍODO ESCOLAR
– Depois das férias da Páscoa
As férias foram uma fuga vertiginosa e uma busca de
reunião dos seus “restos”, dos “pedaços” em que se
quebrou. A mãe estava só, cada vez mais ausente. Daí a
curta permanência em casa.
O regresso a Évora impõe-lhe a reconciliação com o homem
que o habita. Alfredo reclama-o para o espaço social.
Dá-lhe notícias: a tentativa de suicídio de Sofia e o
seu regresso a Évora, depois da sua estadia em Lisboa.
A visita à herdade de Alfredo revelar-lhe-á uma nova Ana
depois da adopção dos filhos do Bailote. Sofia também
aparece nesse espaço, mas vislumbra-se entre eles uma
relação cada vez mais fria. Prenúncio de um afastamento
definitivo?...
Terminado o ano lectivo, o reitor dispensa-o das orais
de Junho.
Faro será o novo espaço onde se movimentará, o início de
um novo ciclo com novas situações em que se irá
projectar, dentro dos compromissos e das escolhas que o
seu pensamento existencialista torna responsável.