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APARIÇÃO

 

- Temas de exame e sugestões de resposta -

 

(Página ainda em construção)


1. A acção do romance é constituída por eventos que se realizam num determinado universo espacial, onde as personagens se movimentam. Num dos romances que se enunciam, relembre uma deslocação do(s) protagonista(s) de um espaço físico para outro e relacione-a com os acontecimentos que, nesse segundo espaço, se desenrolam.
Aparição de Vergílio Ferreira
Memorial do Convento de José Saramago

Sugestões de correcção:
1. Ida de Alberto para Évora
- chegada do protagonista com a angústia da morte do pai;
- relacionamento com uma família conhecida do pai;
- tentativa de integração no meio ambiente;
- conflito(s) com outras personagens;
- relação com Carolino;
- influência de Alberto sobre as outras personagens.


2. Mudança de Alberto para a casa do Alto de S. Bento
- procura da solidão e da paz;
- procura do "eu" e da aparição perante si mesmo;
- relação interna com o Alto;
- espaço onde é atacado por Carolino/incompreensão de Alberto perante o inesperado.
- procura contínua de uma morada que sirva as intenções do Homem - busca de Absoluto.


3. Ida de Alberto, de férias, ao seu espaço de origem
- contacto com a família pela primeira vez após a morte do pai;
- questão das partilhas;
- comemorações de Natal: a ceia, a Missa do Galo, os cânticos natalícios.

Nota: De aceitar outras hipóteses desde que devidamente fundamentadas.

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2. Num dos romances que a seguir se enunciam, reflicta sobre a função da CASA, enquanto espaço de vivências múltiplas do(s) protagonista(s):
Aparição de Vergílio Ferreira
Memorial do Convento de José Saramago

Sugestões de correcção:
A casa paterna, evocada por Alberto, evidencia múltiplos aspectos da vivência familiar. Em Évora, o quarto da pensão, apesar de situado no 3.° andar, não satisfaz Alberto. Apenas a casa do Alto de S. Bento é local da inevitável busca do verdadeiro sentido da vida, tendo em conta a filosofia existencialista do romance. A casa do doutor Moura serve ao protagonista como espaço de relacionamento com os outros.
Nota: De aceitar outras hipóteses desde que devidamente fundamentadas.

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3. "... Em Vergílio Ferreira há espaços de eleição [...] Figuram como proeminentes, além das mencionadas cidades e da aldeia, a montanha e o mar (ou a praia) e, de um modo geral, os espaços que reenviam às origens"...

Rosa Maria Goulart, Romance Lírico, o Percurso de Vergílio Ferreira, Lisboa, Bertrand Editora, 1990

Elabore uma dissertação em que aborde, de forma desenvolvida e fundamentada, a questão da importância da montanha como espaço que reenvia às origens, em Aparição de Vergílio Ferreira.

Sugestões de correcção:
• O espaço, como lugar que reenvia às origens, em Aparição, é a montanha, a serra, situada na Beira interior:
- a montanha é o lugar do nascimento e infância do narrador-personagem, Alberto Soares;
- é desse lugar que a personagem parte e a que sempre regressa;
- à montanha estão ligadas as primeiras experiências de aparição do eu;
- é o lugar da casa da infância, da figura paterna, dos encontros e rituais familiares, lugar de nascimento e morte;
- por ser um lugar primordial, originário, é constantemente presentificado pela memória da personagem-narrador;
- é o lugar estável, essencial, onde ciclicamente a personagem regresse;
- é o lugar da escrita;
- a montanha é, pois, pelo seu silêncio, solidão, autenticidade, brancura, o lugar de pureza primordial, da criação, da essência.

4. Ressaltam na tessitura narrativa elementos simbólicos e/ou fantásticos relevantes na construção das personagens e no desenrolar da acção. Referindo-os, reflicta sobre o significado desses elementos, num dos romances que se enunciam:
Aparição de Vergílio Ferreira
Memorial do Convento de José Saramago

Sugestões de correcção:

Elementos simbólicos e seu significado:
• a montanha, o céu, as estrelas – transcendência, solidão, "aparição";
• a varanda, a janela – preservação da solidão do eu ao mesmo tempo que o projectam no mundo dos outros;
• o mar - no seu fluxo, tentativa de busca de um equilíbrio entre eu e mundo; encontro com o horizonte que aponta o infinito;
• a casa do Alto – reenvio à primordialidade cósmica: impulso de ascensão; demarcação do aquém e do além;
• a planície – espaço ilimitado: espaço propício à realização da totalidade do ser humano;
• o Sol – vida, ressurreição, imortalidade; luz, ideia, conhecimento directo;
• a Lua – reflexos do Sol (conhecimento indirecto); passagem da vida à morte e vice versa;
• as estações do ano, as horas do dia – consciencialização de uma temporalidade onde o homem nunca pode instalar-se pacificamente;
• a escrita, a memória – actividade unificadora dos vários tempos; capacidade de unificação cósmica;
• o canto, a música
- em Sofia, canto trágico e violento, contraditório e sedutor, simboliza a sua personalidade e o seu complexo mundo;
- Canto – voz colectiva – símbolo de aldeãos ínscios de que a própria voz é a fatalidade da vida que arrastam;
- Música – lugar de grande intensidade emotiva, revelador da transcendência; superação da insuficiência verbal.

Nota: De aceitar outras hipóteses desde que devidamente fundamentadas.

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5. O Amor, componente fundamental da condição humana, é representado de forma diversificada no universo ficcional.
Reflicta sobre as manifestações de que se reveste esse sentimento num dos romances que se enunciam:
Aparição de Vergílio Ferreira
Memorial do Convento de José Saramago

Sugestões de correcção:
• A problemática existencialista/a busca do eu essencial, através das relações com os outros - a certeza de que é no Homem que estão as respostas definitivas para a justificação da condição humana perante a vida e a morte;
• Alberto, como ponto de convergência, confronta-se com todas as outras personagens:
• o triângulo Alberto/Carolino/Sofia;
• Alberto/Sofia - relações físicas de conotação violenta - atracção física mas não amor;
• Sofia/Carolino - ciúmes de Carolino por Sofia e uma ideia fixa de matar Alberto; assassinato de Sofia e suicídio de Carolino - amor violento;
• Ana/Alfredo - relação pacífica; comunhão de dois seres; angústia de Ana – frustração da mulher, impossibilidade de ter filhos.

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6. "Aparição: um texto efectivamente nocturno, onde a noite literalmente ocupa a maioria dos espaços temporais da narrativa."
Isabel Allegro de Magalhães, "Uma leitura musical de Aparição"

Tendo em conta o estudo que fez do romance de Vergílio Ferreira, refira-se aos diversos aspectos do seu carácter nocturno que a frase acima transcrita põe em relevo.

Sugestões de correcção:
Dos vinte e sete momentos que constituem o romance, doze passam-se à noite. Frequentemente, o narrador-personagem sai para a noite, na cidade ou na planície, ou contempla a noite da sua janela.
Outro tema nocturno de Aparição é o da morte, "a noite das noites": quatro mortes acontecem durante a estadia da personagem-narrador em Évora - a de Bailote, de Cristina, a de uma galinha e a de Sofia. Todas estas mortes têm um carácter inesperado e violento, sendo por isso particularmente chocantes. Além dessas, são ainda evocadas mais três ocorrências de morte: a do cão Mondego, a do pai e a da mãe do narrador. Embora de cunho mais natural, pois se trata da morte de seres idosos, elas deixam contudo marcas profundas na memória de quem as evoca, pela ligação afectiva que envolvem. Há ainda frequentes reflexões sobre a morte, uma das grandes inquietações do narrador descrente, que nela vê apenas a negação da vida e, portanto, o seu carácter absurdo. O campo lexical da morte é, pois, um dos dominantes no romance.
Também a música, outra das constantes do romance, se reveste frequentemente de tonalidades nocturnas. A peça musical tocada por Cristina e frequentemente evocada pelo narrador pertence a um género melancólico por definição, pois se trata do Nocturno n.º 20 de Chopin, em que predominam os tons menores, escuros e tristes. Também os cantos de Sofia, que exprimem o seu desespero, são referidos como "cânticos para a noite".
Aparição é, pois, um romance sombrio, de grande amargura, e insere-se na fase da obra vergiliana designada pelos críticos como "nocturna", que abrange toda a sua obra até Alegria Breve. A ela se contrapõe uma fase "solar" constituída pelos romances posteriores, em que o espaço praia e a presença do sol traduzem uma maior serenidade e aceitação na perspectivação dos problemas existenciais.

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7. Na obra Aparição de Vergílio Ferreira o narrador-personagem constrói a trama narrativa partindo de constantes interrogações.
Numa composição cuidada, explicite algumas das dúvidas de Alberto Soares referindo as suas implicações a nível do fluir dos acontecimentos.

Sugestões de correcção:
Na composição, o aluno deve demonstrar que conhece bem a personagem/narrador da obra Aparição, integrando-a na acção dessa mesma obra. Poderá apresentar a personagem em diferentes situações, ligadas sempre ao enredo da obra, referindo algumas das suas grandes inquietações:
• a vida enquanto aparição;
• o mistério da existência;
• o absurdo da morte;
• a relação palavra/pensamento;
• a morte de Deus;
• a responsabilidade da existência;
• o poder do homem.

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8. Também em Aparição a natureza se reveste de sentidos simbólicos.
Numa cuidada composição, refira alguns desses símbolos.

Sugestões de correção:
Principais elementos da natureza que, pela sua reiteração, se constituem como símbolos:
• a montanha: a estabilidade e a permanência por oposição à precaridade humana;
• a planície: a liberdade de pensamento por oposição ao fechamento social da cidade de Évora;
• a noite: ambiente de inquietação que se respira em todo o romance, mas também "noite germinadora", tempo da meditação e da escrita;
• a lua: é a luz pálida que traduz alguma esperança no ambiente nocturno do romance.

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9. Para [...] Sofia, que não crê nem sequer no que é evidente, a vida não possui nenhum atributo que a possa justificar, enaltecer e conservar.
José Luís Gavillanes Laso, Vergílio Ferreira - Espaço Simbólico e Metafísico, Lisboa, Dom Quixote, 1989

Comente o juízo crítico apresentado, fundamentando-se na sua experiência de leitor. Redija um texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de duzentas a trezentas palavras.

Sugestões de correção:
• autocaraterizaçâo de Sofia como diferente, na aceitação plena do absurdo, da não-solução como sua solução;
• caraterização recorrente de uma personagem inquietante, centro de atenção de todos, quer pela sua beleza "demoníaca", quer pelos seus comportamentos que, desde a infância, se situam fora dos parâmetros considerados normais;
• atracão por situações extremas, pelo estranho, pela morte como expressão do desespero, optando por viver "no imediato", indiferente às consequências (fugas de casa, tentativas de suicídio, sedução pelas histórias do pai médico, fascinação pela loucura de Carolino,...).

Março de 2005

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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