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APARIÇÃO

 

- Os princípios básicos do existencialismo -


O Existencialismo ateu baseia-se nos seguintes princípios:

 

A existência precede a essência, ou seja, o homem primeiro existe e só depois sabe quem é - é o acto de existir que conduz à descoberta do ser que existe em cada homem.

 

Ausência de determinismo, pois o homem é livre, sendo que o seu destino no mundo é construído  por  si  mesmo  e é

independente de qualquer desígnio divino ou de qualquer outra natureza.

 

  O homem é responsável por tudo o que faz e essa responsabilidade estende-se aos outros, uma vez que aquilo que fizer afectará directa ou indirectamente aqueles que o rodeiam. Entretanto, como a percepção objectiva da realidade não é possível, uma vez que o homem é angústia e revela necessidades e comportamentos que se prendem com a sua situação no universo, essa percepção torna-se eminentemente subjectiva, no sentido em que resulta da constatação da própria condição humana.


A solidão marca a existência, dado que a liberdade provoca essa mesma solidão: sem Deus, sem valores, o homem é um ser só.

 

Por isso, o homem está condenado a «inventar o homem», ou seja, a explicá-lo, de acordo com a sua própria visão da realidade, numa determinada época.


Então, só e livre, cabe ao ser humano encontrar razões para a Vida, razões para a morte e para o absurdo que esta representa.

 

A filosofia existencialista subverte, pois, a perspectiva tradicional, segundo a qual a essência precede a existência. O indivíduo aparece, portanto, como um estranho a si mesmo, na busca de uma unidade que conduza a uma ideia e a uma definição de si mesmo. O narrador de Aparição coloca a questão desta forma: “(...) o que eu sou não tem limites no puro acto de estar sendo, esta evidência que me aterra quando um raio da sua luz emerge da espessura que me cobre. E estas mãos, estes pés que são meus e não são meus, porque eu sou-os a eles, mas também estou neles, porque eu vivo-os, são a minha pessoa e todavia vejo-os também de cima, de fora, como a caneta com que vou escrevendo...”.

 

O título da obra remete, assim, para o sucessivo milagre que constitui cada "aparição" (a palavra aparece repetida na obra vinte e nove vezes) na descoberta do “eu”. É importante referir que os postulados existencialistas estão presentes ao nível da acção narrada: Alberto Soares toma consciência de si mesmo, existindo. Aliás, a sua “notícia” consiste, precisamente, no facto de ter descoberto e querer transmitir aos outros a sua descoberta de que "Deus gastou-se” – o que significa que o homem é livre e não se encontra. Se, por um lado, não está sujeito a qualquer tipo de determinismo, pelo que será ele o autor do seu destino; por outro fic-se com a ideia de que não se é apenas responsável pelos seus próprios actos, é-se igualmente responsável pelos dos outros – Alberto Soares é acusado da morte de Sofia, através de um telefonema anónimo, pois, na realidade, ele revela a Carolino algo que este não está preparado para ouvir, motivando, indirectamente, a sua atitude e a manifestação do seu acto de loucura. Finalmente, a solidão e a angústia marcam as principais personagens da obra, as quais têm absoluta consciência do absurdo da sua morte e das limitações que se ligam à condição do ser humano.

 

No final da obra, o narrador questiona-se sobre a possibilidade de construção da "Cidade do Homem"; de facto, a cidade que ele vê, quando dorme, pela última vez, na casa do Alto, é uma cidade na sua imaginação, votada à destruição pelo fogo, que a personagem alastra, a partir de uma "queimada".

 

Essa cidade, Évora, é um microespaço, símbolo do universo, que deveria ser recriado pelo homem: "O campo arde vastamente, como numa destruição universal."
 

A atitude de Carolino parece ser o epílogo necessário para provar que é preciso construir um mundo novo, ainda que a posição do narrador seja pessimista em relação a este facto: “A noite avança. A minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possível construir uma cidade como a imagino, a Cidade do Homem?"

 

Na realidade, a Cidade do Homem situa-se no domínio da utopia e talvez tivéssemos de ascender para lá do Super-Homem nietzschiano para a podermos fundar, um dia.

Nota: VER páginas 268 a 272 do manual escolar
 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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