Em Aparição,é necessário estar atento ao processo
narrativo. Com efeito, há um
eu-narrador
distante dos acontecimentos que narra e um
narrador-personagem,
auto e homodiegético.
O eu-narrador distante move-se num tempo posterior aos
acontecimentos narrados: "Sento-me
aqui nesta sala vazia e relembro."
(prólogo e epílogo) e num espaço bem determinado: um
casarão herdado, na aldeia. O narrador-personagem
movimenta-se no tempo da diegese: os acontecimentos
passados há mais de vinte anos antes, de setembro a
junho, numa época em que lecionou no Liceu de Évora,
acontecimentos que ocupam os 25 capítulos da obra. Terá
sido aquela sala vazia e silenciosa, evocadora dos
acontecimentos da sua infância e juventude, que
desencadeou o processo da narração, favorecido pela
noite de luar quente de verão. Curiosamente, o processo
da escrita irá prolongar-se por cerca de nove meses,
traçando um percurso paralelo às peripécias da diegese.
O narrador é, pois,
autodiegético
na maior parte da história que narra, isto é, conta, na
primeira pessoa, uma história de que é personagem
principal; é, em pequenos momentos,
homodiegético,
quando outro narrador se instala e o primeiro e
principal escuta a narração. É o caso da história do
Bailote, contada pelo mesmo ao Dr. Moura e ouvida também
pelo Dr. Alberto Soares: "E
o homem contou uma história incrível. Moura já a
conhecia, porque fez referência a uma consulta na
cidade. Mas de nada lhe valeu, porque o homem queria
contá-la outra vez desde o princípio. Receava decerto
que lhe tivesse faltado algum pormenor e que isto lhe
destruísse a esperança. Contava-a agora de novo."
Já se sabe que o Dr. Alberto Soares se apoia na memória,
contando os factos que, pela sua importância quanto ao
tema central da obra - harmonizar a vida com a morte -,
aí ficaram gravados. Naturalmente o seu ponto de vista é
sempre muito subjetivo: recria o passado debaixo de uma
forte tensão emocional porque revive os acontecimentos
de que foi protagonista e que o iluminaram. Mesmo o que
conta de outras personagens fá-lo sempre relacionando-o
com as suas inquietações e emoções. Aliás, o tom do
romance, marcado desde o prólogo, evidencia essa
subjetividade.
O narrador é simultaneamente protagonista e escritor: "-
Há uns versos no seu livro que me intrigam."
(cap. III).
Como escritor, pode dizer: "...
eu to pergunto daqui, do meio da minha vigília, em que
retomo e recrio (e me reinvento) a verdade original do
que passou."
(cap. XIX).
Como escritor, pode ainda refletir sobre o poder das
palavras: "Estamos
condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras,
se queremos pelo menos que os outros sintam connosco.
Mas as palavras são pedras."
(cap. III). Por isso, propõe outra forma de comunicação:
a linguagem do silêncio: "Ou
que talvez por isso mesmo ela tivesse aprendido a
linguagem do silêncio, essa em que as palavras são a
névoa do alheamento, da meditação do nada, e em que as
palavras em voz alta são da pessoa de fora como as de um
intruso."
(cap. XI). Odeia os que usam as palavras feitas e não
lhe sabem o sentido ou não o reinventam, como se pode
ler na parte final do prólogo. Propõe ainda uma outra
forma de comunicação: a da arte. A música de Cristina
reintroduz o narrador em momentos de plenitude.
Como escritor, explica, finalmente, por que e
para que escreve: "...
o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer
na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme
que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo
em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo
pela evidência da morte. Escrevo para ser, escrevo para
segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu."
(cap. XVII).
in
"Aula Viva",
Literatura Portuguesa - 11.º ano, Porto Editora, com
adaptações