Na realidade, é a problemática da existência que surge
em
Aparição;
é o sentido da vida e da morte, a "morte" de
Deus, a angústia e a solidão (que dominam as
personagens do romance), impondo-se uma visão
humanista onde os condicionalismos extrínsecos
ao Homem
desaparecem e este se vê confrontado consigo mesmo, no
espelho imenso da dialéctica essência/existência que
aqui encontramos, e a conclusão é de que,
para ser, é
necessário existir, ou seja, é o Homem
que se constrói a si mesmo e, consequentemente, constrói
o seu destino. Aliás, o título da obra,
Aparição,
remete, desde logo, para a consciência progressiva que o
"eu" vai assumindo da sua própria realidade, em
“aparições” sucessivas, num processo de amadurecimento e
de crescimento que encetam o caminho da sua definição. É
a lição da descoberta de nós próprios que o romance
veicula.
De facto, num tempo e num espaço em que a expressão
humana é progressivamente aniquilada, num mundo em que
Deus se tornou, para muitos, insuficiente para explicar
o mundo e o destino humano, o Homem só podia recorrer a
si mesmo para assumir a sua responsabilidade no acto de
existir.
Aparição
é, pois, um romance-“problema”: Alberto Soares
problematiza as referências do Homem do nosso
século.
Homem sem Deus, a sua tarefa é
encontrar a sua razão de
existir e conseguir encontrar um sentido para as duas
realidades supremas: a sua vida e a sua morte. O estilo
ensaísta da obra promove as reflexões do protagonista,
que se move na esfera que aglutina a física e a
metafísica.
A filosofia existencialista, associada a filósofos como
Kierkegaard (que viveu na primeira metade do século XIX),
Nietzsche (cuja vida decorreu na segunda metade do
século XIX), Heidegger e Sartre (que viveram no século
XX), atravessa a própria narrativa; o postulado
principal é o de que a
reflexão humana não deveria
incidir sobre a essência, mas sobre a existência, o que
pressupõe a aceitação da liberdade do Homem face a Deus.
Assim,
Aparição
revela, a um tempo, as principais
ideologias e a corrente filosófica que marcaram o nosso
século, em intersecção com uma faceta autobiográfica.
Nota: VER também a página 278 do manual escolar.
Em
Aparição,
há um momento crucial quando o protagonista
Alberto Soares se pergunta: Quem sou eu? Por que
estou aqui? Para onde vou? Qual o fim último da
vida? Como ver na morte uma das condições da
existência?... Aí radica a inquietação de
Vergílio Ferreira pensador, que é transposta
para a personagem Alberto, o qual procura, ao
longo da obra, encontrar um sentido para a sua
própria existência, vivendo numa interrogação
contínua.
Com efeito, Alberto Soares,
educado na moral tradicional e
na religião familiar, vê, numa
primeira “aparição”, o
espelho devolver-lhe uma nova imagem. Começa por
rejeitar tudo o que é convencional, passando a ser
assolado por interrogações existenciais e, mesmo sem
razões válidas para justificar o seu afastamento de
Deus, interioriza a ideia de que será ele o seu deus,
iniciando a construção da sua existência a partir de si
próprio, de acordo, aliás, com o preceituado pelos
existencialistas.
Com efeito, para o existencialismo a existência precede
a essência, ou seja, o homem primeiro existe e só depois
sabe quem é – é o acto de existir que conduz à
descoberta do ser que existe em cada homem. O homem está
condenado a «inventar o homem», ou seja, a explicá-lo,
de acordo com a sua própria visão da realidade, numa
determinada época.
Como Sísifo, condenado a
rolar eternamente a pedra até ao cimo da
montanha, assim nós, os homens, estamos
condenados à liberdade de nos construirmos a nós
mesmos a cada instante.
Cabe ao ser humano encontrar razões
para a vida, razões para a morte e para o absurdo que
esta representa.
Não é, pois, de admirar que os existencialistas reneguem
o determinismo – o homem é livre; o seu destino é
construído por si mesmo (no mundo) e é independente de
qualquer desígnio divino ou de qualquer outra natureza.
Mas a sua solidão e liberdade não o ilibam de ser
responsável por tudo o que faz e essa responsabilidade
estende-se aos outros, uma vez que aquilo que fizer
afectará directa ou indirectamente aqueles que o
rodeiam.
Não é por acaso que os habitantes de Évora
apontam o dedo acusatório a Alberto Soares por tentar
subverter as pessoas da pacata e acomodada cidade de
Évora, chegando mesmo a responsabilizá-lo pela morte de
Sofia, quando, efectivamente, quem assassinou a punhal a
filha do Dr. Moura foi o seu aluno/discípulo Carolino.
Ele, o “mestre”, acaba por nem sequer ser notificado
para o julgamento. Carolino foi vítima de uma
interpretação errónea da mensagem que, messianicamente,
o professor lhe tentou transmitir. Ao matar a galinha,
achou-se com poder de dar a vida e a morte, tal como
Deus. A sua violência libidinosa atrai a loucura de
Sofia, que se torna sua vítima; começa a “mastigar as
palavras”, isto é, terá possivelmente descoberto o valor
da palavra no que pode representar da descoberta de si
próprio e dos outros. Porém, quer suplantar-se ao
“mestre”, servindo-se da sua força bruta para tentar
matar quem o “criou”, a exemplo do que fizera o Dr.
Alberto Soares com os deuses da sua infância.
Outras personagens que, de uma maneira ou de
outra, o professor do liceu tentou influenciar
foram a Sofia, a Ana e o Chico. Mas à Sofia a
notícia de que ele se diz portador não diz
grande coisa, porque já antes ela vivia
assoberbada por inquietações múltiplas que
desembocavam em revolta contra tudo e todos,
inclusive contra a vida (tenta o suicídio).
Sofia consegue, então, dar voz a essas
inquietações, diferentemente de Alberto que se
cala ou fala em solilóquios. A aluna de Latim,
presumível cúmplice do professor, volta-se
contra ele, comprazendo-se em mostrar-se-lhe
superior ao usar a sua beleza demoníaca para pôr
a nu a sua solidão e evidenciar a sua angústia.
Quanto a Ana, embora tenha também grandes e graves
problemas, enfrenta-o seguramente e
desmonta os seus equívocos, tornando-se a sua
mais forte oponente. É que Ana acaba por
descobrir
Moça à janela (1945), de Salvador Dali. O
existencialismo influenciou muitos artistas do
século XX.
o
sentido da vida e da morte, reintegrando-se na fé
inicial, retemperada com a adopção dos filhos de Bailote.
No respeitante a Chico, o engenheiro agressivo e o
intelectual medíocre, torna-se uma voz provocatória,
acusando o professor de influenciar nefastamente Ana e
aconselhando-o a não continuar em Évora.
Por tudo isto, o Dr. Alberto torna-se num ser
rejeitado, situação que vem aumentar a sua
angústia, até porque não consegue encontrar
respostas para os problemas que levanta. Parece
que só Cristina e a sua música divinal o
reconfortam.
Na verdade, a música a que Cristina aparece
indissociavelmente ligada revela um mundo
maravilhoso de paz e harmonia,que se
contrapõe ao mundo conturbado das outras personagens e
tem até o dom de pôr Alberto como que a rezar, o que
deixa transparecer a ideia de que ele não é tão
descrente como afirma. Pura, evocando o nome
de Cristo, o Salvador, Cristina é a inocência da
montanha oposta ao pecado da cidade – repare-se que ela
morre no campo, o único espaço digno para acolher esse
ser que não fora feito para este mundo. A sua morte
abala profundamente todas as personagens, mas a sua
memória continua viva e a sua música, ultrapassando os
limites terrenos, faz-se ouvir no silêncio da montanha.
Não é por acaso que os informantes espaciais e temporais acompanham
de perto a angústia existencial das personagens, com
mais incidência para o narrador homo e autodiegético e
as suas contínuas buscas de descoberta das origens, da
essência do ser.
Relativamente ao espaço, montanha e planície
complementam-se, ambas falam a mesma voz primordial, no
dizer do próprio Vergílio Ferreira. A primeira, alta,
vertical e próxima do céu, simboliza a transcendência,
fazendo a ligação do céu com a terra. Por outro lado, ao
evocar o ventre materno, lugar de origem, surge, em
Aparição, ora ligada à idade do ouro de qualquer ser (a
infância), ora à revelação, à evocação (é lá que o narrador-autor evoca os acontecimentos ocorridos uns
bons anos antes), à paz, à ausência, mesmo que fugaz, de
conflitos. É a ela que o narrador regressa, quer nas
férias quer quando se reforma, sempre em busca de uma
luz que lhe dissipe as trevas que (en)cobrem a sua
existência.
A planície, por seu lado, pela sua
horizontalidade e infinidade, representa seja a
realização da totalidade do ser humano seja a vida e a
morte, as infindas inquietações do homem
existencialista, o vazio que o preenche nalguns
momentos, a tragicidade, como trágica e absurda é a
morte.
Mas há ainda duas referências espaciais merecedoras de
uma atenção especial: uma é a Casa do Alto; a outra
reporta-se ao itinerário seguido por Alberto, aquando da
sua partida para as férias da Páscoa, rumo à sua terra
natal. Ambas remetem para o desejo humano de ascensão. A
primeira propicia a meditação e o afastamento dos
outros, ligando-se ao percurso iniciático de Alberto na
descoberta do seu próprio “eu”; possibilita também a
cisão definitiva com o passado e a subsequente tentativa
de alcançar a harmonia e a paz. A segunda, também
ascensional, seguindo uma linha paralela ao mar e em
direcção ao norte de Portugal, pode ser vista como mais
uma tentativa do narrador encontrar as suas origens
(lembre-se que o mar é o lugar da origem da vida, que o
norte é símbolo de orientação – a bússola aponta sempre
para o norte – e é no norte que está a origem de
Portugal).
No respeitante ao tempo, e em termos simbólicos, seria
de destacar sobretudo dois elementos que se relacionam
de forma mais ou menos evidente com ele: o sol (fogo) e
a lua. O sol é a luz, é o dia, é a revelação, é o
princípio regenerador da terra e seu elemento
fecundador, mas também é a destruição que tem, no
entanto, para o narrador, uma dimensão salvadora, uma
vez que o rejuvenescimento da terra (e por que não o do
Homem?) implica um momento de morte. No final da obra, o
narrador questiona-se sobre a possibilidade de
construção da "Cidade do Homem".
De facto, a cidade que
ele vê, quando dorme, pela última vez, na casa do Alto,
é uma cidade na sua imaginação, votada à destruição pelo
fogo, que vai alastrando, a partir de uma "queimada".
Essa cidade, Évora, é um microespaço, símbolo do
universo, que deveria ser recriado pelo homem, num tempo
que não tem barreiras, incomensurável, cósmico. A lua,
por seu lado, é a noite, é o mistério, é o tempo da
evocação – e a escrita de “Aparição” processa-se
normalmente à noite. Por reflectir a luz do sol, a lua é
também símbolo do conhecimento indirecto (novamente a
fazer lembrar a digressão analéptica e conhecimento
gradual do “eu”); por ser símbolo do feminino, é sinal
de renovação e crescimento (exactamente estados que
Alberto procura alcançar); e por ter várias e sucessivas
fases representa a passagem da vida à morte e da morte à
vida.
Não é, aliás, por acaso que a morte está sempre presente
na Aparição: morrem o Álvaro (pai de Alberto), o Bailote,
a Cristina, a Sofia; morrem ainda o cão Mondego e a
galinha. Seres humanos e animais, irmanados na mesma
desdita. Todos eles são tocados pela mão inexorável da
morte e cada um deles por motivos diferentes, o que
torna a morte ainda mais absurda e a fonte alimentadora
de todas as angústias. Como poderá, então, Alberto
integrá-la na vida, ver nela uma das condições da
existência? Terá que o conseguir, se quiser encontrar
uma resposta que sirva ao mesmo tempo de lenitivo para
as suas interrogações e inquietações.
Por isso, a obra de Vergílio Ferreira tem uma estrutura
circular, começa e acaba com a mesma frase: “Sento-me
aqui nesta sala vazia e relembro.” Mas contrariamente ao
que essa estrutura circular poderia sugerir, nota-se uma
evolução no narrador peregrino, no narrador-autor. No
final, sente-se que ele está mais apaziguado,
talvez porque aos poucos tenha compreendido o
porquê da inevitabilidade da morte (ao fim e ao
cabo é esta que dá sentido à vida), talvez
porque na busca incessante da Origem e na
consciência da sua inacessibilidade
se tenha contentado
com a
A condição humana (1933), de René Magrite.
aparência dessa Origem no reencontro
com a natureza (a aldeia, a montanha, a lua, a neve...)
e com a terra que o viu nascer – é o renascimento do eu,
num ciclo que se completa. Talvez porque a presença da
sua mulher, com quem compartilha a “flor da comunhão”,
ao fim de muitos anos, lhe tenha ensinado a ver “a
verdade, na aparição da graça, num limiar de presença,
antes que sobre a Terra fosse pronunciada a primeira
palavra”. (Prólogo da obra, página 12, linhas 1-3)
Assim, o acto da escrita funcionou como uma busca da
verdade primitiva do eu, uma tentativa de justificação
da vida “em face da inverosimilhança da morte”, uma
reconquista desde o mais remoto passado, uma “aparição”
do eu ao eu. E é de “aparição” em “aparição”, de
evocação em evocação, cada uma delas deixando algo de
útil para a decifração da verdadeira identidade, que ele
vai tendo acesso à Verdade, à Essência do ser. Toma
consciência de si existindo.