Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

APARIÇÃO

 

- Uma obra existencialista -

 

Na realidade, é a problemática da existência que surge em Aparição; é o sentido da vida e da morte, a "morte" de Deus, a angústia e a solidão (que dominam as personagens do romance), impondo-se uma visão humanista onde os condicionalismos extrínsecos    ao    Homem

desaparecem e este se vê confrontado consigo mesmo, no espelho imenso da dialéctica essência/existência que aqui encontramos, e a conclusão é de que, para ser, é necessário existir, ou seja, é o Homem que se constrói a si mesmo e, consequentemente, constrói o seu destino. Aliás, o título da obra, Aparição, remete, desde logo, para a consciência progressiva que o "eu" vai assumindo da sua própria realidade, em “aparições” sucessivas, num processo de amadurecimento e de crescimento que encetam o caminho da sua definição. É a lição da descoberta de nós próprios que o romance veicula.

 

De facto, num tempo e num espaço em que a expressão humana é progressivamente aniquilada, num mundo em que Deus se tornou, para muitos, insuficiente para explicar o mundo e o destino humano, o Homem só podia recorrer a si mesmo para assumir a sua responsabilidade no acto de existir.

Aparição é, pois, um romance-“problema”: Alberto Soares problematiza as referências do Homem do nosso século.

 

 

Homem  sem  Deus, a  sua tarefa é encontrar a sua razão de existir e conseguir encontrar um sentido para as duas realidades supremas: a sua vida e a sua morte. O estilo ensaísta da obra promove as reflexões do protagonista, que se move na esfera que aglutina a física e a metafísica.

 

A filosofia existencialista, associada a filósofos como Kierkegaard (que viveu na primeira metade do século XIX), Nietzsche (cuja vida decorreu na segunda metade do século XIX), Heidegger e Sartre (que viveram no século XX), atravessa a própria narrativa; o postulado principal é o de que a reflexão humana não deveria incidir sobre a essência, mas sobre a existência, o que pressupõe a aceitação da liberdade do Homem face a Deus. Assim, Aparição revela, a um tempo, as principais ideologias e a corrente filosófica que marcaram o nosso século, em intersecção com uma faceta autobiográfica.


Nota: VER também a página 278 do manual escolar.
 

Em Aparição, há um momento crucial quando o protagonista Alberto Soares se pergunta: Quem sou eu? Por que estou aqui? Para onde vou? Qual o fim último da vida? Como ver na morte uma das condições da existência?... Aí radica a inquietação de Vergílio Ferreira pensador, que é transposta para a personagem Alberto, o qual procura, ao longo da obra, encontrar um sentido para a sua própria existência, vivendo numa interrogação contínua.

Com  efeito,  Alberto  Soares,  educado   na moral  tradicional e na religião familiar,  vê,  numa

primeira “aparição”, o espelho devolver-lhe uma nova imagem. Começa por rejeitar tudo o que é convencional, passando a ser assolado por interrogações existenciais e, mesmo sem razões válidas para justificar o seu afastamento de Deus, interioriza a ideia de que será ele o seu deus, iniciando a construção da sua existência a partir de si próprio, de acordo, aliás, com o preceituado pelos existencialistas.

 

Com efeito, para o existencialismo a existência precede a essência, ou seja, o homem primeiro existe e só depois sabe quem é – é o acto de existir que conduz à descoberta do ser que existe em cada homem. O homem está condenado a «inventar o homem», ou seja, a explicá-lo, de acordo com a sua própria visão da realidade, numa determinada época.

 

Como Sísifo, condenado a rolar eternamente a pedra até ao cimo da montanha, assim nós, os homens, estamos condenados à liberdade de nos construirmos a nós mesmos a cada instante.

Cabe ao ser humano encontrar razões para a vida, razões para a morte e para o absurdo que esta representa.

Não é, pois, de admirar que os existencialistas reneguem o determinismo – o homem é livre; o seu destino é construído por si mesmo (no mundo) e é independente de qualquer desígnio divino ou de qualquer outra natureza.

Mas a sua solidão e liberdade não o ilibam de ser responsável por tudo o que faz e essa responsabilidade estende-se aos outros, uma vez que aquilo que fizer afectará directa ou indirectamente aqueles que o rodeiam.

 

Não é por acaso que os habitantes de Évora apontam o dedo acusatório a Alberto Soares por tentar subverter as pessoas da pacata e acomodada cidade de Évora, chegando mesmo a responsabilizá-lo pela morte de Sofia, quando, efectivamente, quem assassinou a punhal a filha do Dr. Moura foi o seu aluno/discípulo Carolino. Ele, o “mestre”, acaba por nem sequer ser notificado para o julgamento. Carolino foi vítima de uma interpretação errónea da mensagem que, messianicamente, o professor lhe tentou transmitir. Ao matar a galinha, achou-se com poder de dar a vida e a morte, tal como Deus. A sua violência libidinosa atrai a loucura de Sofia, que se torna sua vítima; começa a “mastigar as palavras”, isto é, terá possivelmente descoberto o valor da palavra no que pode representar da descoberta de si próprio e dos outros. Porém, quer suplantar-se ao “mestre”, servindo-se da sua força bruta para tentar matar quem o “criou”, a exemplo do que fizera o Dr. Alberto Soares com os deuses da sua infância.

 

Outras personagens que, de uma maneira ou de outra, o professor do liceu tentou influenciar foram a Sofia, a Ana e o Chico. Mas à Sofia a notícia de que ele se diz portador não diz grande coisa, porque já antes ela vivia assoberbada por inquietações múltiplas que desembocavam em revolta contra tudo e todos, inclusive contra a vida (tenta o suicídio). Sofia consegue, então, dar voz a essas inquietações, diferentemente de Alberto que se cala ou fala em solilóquios. A aluna de Latim, presumível cúmplice do professor, volta-se contra ele, comprazendo-se em mostrar-se-lhe superior ao usar a sua beleza demoníaca para pôr a nu a sua solidão e evidenciar a sua angústia.

 Quanto a Ana, embora tenha também grandes e graves problemas,  enfrenta-o seguramente e desmonta os seus equívocos, tornando-se a sua mais forte oponente. É que Ana acaba por  descobrir

 

Moça à janela (1945), de Salvador Dali. O existencialismo influenciou muitos artistas do século XX.

o sentido da vida e da morte, reintegrando-se na fé inicial, retemperada com a adopção dos filhos de Bailote. No respeitante a Chico, o engenheiro agressivo e o intelectual medíocre, torna-se uma voz provocatória, acusando o professor de influenciar nefastamente Ana e aconselhando-o a não continuar em Évora.

 

Por tudo isto, o Dr. Alberto torna-se num ser rejeitado, situação que vem aumentar a sua angústia, até porque não consegue encontrar respostas para os problemas que levanta. Parece que só Cristina e a sua música divinal o reconfortam.

Na verdade, a música a que Cristina aparece indissociavelmente ligada revela um mundo maravilhoso de paz e harmonia,que se

contrapõe ao mundo conturbado das outras personagens e tem até o dom de pôr Alberto como que a rezar, o que deixa transparecer a ideia de que ele não é tão descrente como afirma. Pura, evocando o nome de Cristo, o Salvador, Cristina é a inocência da montanha oposta ao pecado da cidade – repare-se que ela morre no campo, o único espaço digno para acolher esse ser que não fora feito para este mundo. A sua morte abala profundamente todas as personagens, mas a sua memória continua viva e a sua música, ultrapassando os limites terrenos, faz-se ouvir no silêncio da montanha.
 

Não é por acaso que os informantes espaciais e temporais acompanham de perto a angústia existencial das personagens, com mais incidência para o narrador homo e autodiegético e as suas contínuas buscas de descoberta das origens, da essência do ser.

 

Relativamente ao espaço, montanha e planície complementam-se, ambas falam a mesma voz primordial, no dizer do próprio Vergílio Ferreira. A primeira, alta, vertical e próxima do céu, simboliza a transcendência, fazendo a ligação do céu com a terra. Por outro lado, ao evocar o ventre materno, lugar de origem, surge, em Aparição, ora ligada à idade do ouro de qualquer ser (a infância), ora à revelação, à evocação (é lá que o narrador-autor evoca os acontecimentos ocorridos uns bons anos antes), à paz, à ausência, mesmo que fugaz, de conflitos. É a ela que o narrador regressa, quer nas férias quer quando se reforma, sempre em busca de uma luz que lhe dissipe as trevas que (en)cobrem a sua existência.

 

A planície, por seu lado, pela sua horizontalidade e infinidade, representa seja a realização da totalidade do ser humano seja a vida e a morte, as infindas inquietações do homem existencialista, o vazio que o preenche nalguns momentos, a tragicidade, como trágica e absurda é a morte.

 

Mas há ainda duas referências espaciais merecedoras de uma atenção especial: uma é a Casa do Alto; a outra reporta-se ao itinerário seguido por Alberto, aquando da sua partida para as férias da Páscoa, rumo à sua terra natal. Ambas remetem para o desejo humano de ascensão. A primeira propicia a meditação e o afastamento dos outros, ligando-se ao percurso iniciático de Alberto na descoberta do seu próprio “eu”; possibilita também a cisão definitiva com o passado e a subsequente tentativa de alcançar a harmonia e a paz. A segunda, também ascensional, seguindo uma linha paralela ao mar e em direcção ao norte de Portugal, pode ser vista como mais uma tentativa do narrador encontrar as suas origens (lembre-se que o mar é o lugar da origem da vida, que o norte é símbolo de orientação – a bússola aponta sempre para o norte – e é no norte que está a origem de Portugal).

 

No respeitante ao tempo, e em termos simbólicos, seria de destacar sobretudo dois elementos que se relacionam de forma mais ou menos evidente com ele: o sol (fogo) e a lua. O sol é a luz, é o dia, é a revelação, é o princípio regenerador da terra e seu elemento fecundador, mas também é a destruição que tem, no entanto, para o narrador, uma dimensão salvadora, uma vez que o rejuvenescimento da terra (e por que não o do Homem?) implica um momento de morte. No final da obra, o narrador questiona-se sobre a possibilidade de construção da "Cidade do Homem".

De facto, a cidade que ele vê, quando dorme, pela última vez, na casa do Alto, é uma cidade na sua imaginação, votada à destruição pelo fogo, que vai alastrando, a partir de uma "queimada". Essa cidade, Évora, é um microespaço, símbolo do universo, que deveria ser recriado pelo homem, num tempo que não tem barreiras, incomensurável, cósmico. A lua, por seu lado, é a noite, é o mistério, é o tempo da evocação – e a escrita de “Aparição” processa-se normalmente à noite. Por reflectir a luz do sol, a lua é também símbolo do conhecimento indirecto (novamente a fazer lembrar a digressão analéptica e conhecimento gradual do “eu”); por ser símbolo do feminino, é sinal de renovação e crescimento (exactamente estados que Alberto procura alcançar); e por ter várias e sucessivas fases representa a passagem da vida à morte e da morte à vida.

 

Não é, aliás, por acaso que a morte está sempre presente na Aparição: morrem o Álvaro (pai de Alberto), o Bailote, a Cristina, a Sofia; morrem ainda o cão Mondego e a galinha. Seres humanos e animais, irmanados na mesma desdita. Todos eles são tocados pela mão inexorável da morte e cada um deles por motivos diferentes, o que torna a morte ainda mais absurda e a fonte alimentadora de todas as angústias. Como poderá, então, Alberto integrá-la na vida, ver nela uma das condições da existência? Terá que o conseguir, se quiser encontrar uma resposta que sirva ao mesmo tempo de lenitivo para as suas interrogações e inquietações.

 

Por isso, a obra de Vergílio Ferreira tem uma estrutura circular, começa e acaba com a mesma frase: “Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro.” Mas contrariamente ao que essa estrutura circular poderia sugerir, nota-se uma evolução no narrador peregrino, no narrador-autor. No final, sente-se que ele está mais apaziguado, talvez porque aos poucos tenha compreendido o porquê da inevitabilidade da morte (ao fim e ao cabo é esta que dá sentido à vida), talvez porque na busca incessante da Origem e na consciência da sua inacessibilidade   se  tenha   contentado    com    a

A condição humana (1933), de René Magrite.

aparência dessa Origem no reencontro com a natureza (a aldeia, a montanha, a lua, a neve...) e com a terra que o viu nascer – é o renascimento do eu, num ciclo que se completa. Talvez porque a presença da sua mulher, com quem compartilha a “flor da comunhão”, ao fim de muitos anos, lhe tenha ensinado a ver “a verdade, na aparição da graça, num limiar de presença, antes que sobre a Terra fosse pronunciada a primeira palavra”. (Prólogo da obra, página 12, linhas 1-3)

 

Assim, o acto da escrita funcionou como uma busca da verdade primitiva do eu, uma tentativa de justificação da vida “em face da inverosimilhança da morte”, uma reconquista desde o mais remoto passado, uma “aparição” do eu ao eu. E é de “aparição” em “aparição”, de evocação em evocação, cada uma delas deixando algo de útil para a decifração da verdadeira identidade, que ele vai tendo acesso à Verdade, à Essência do ser. Toma consciência de si existindo.

 


 

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2008

 

 

 

 Páginas visitadas