O
protagonista, a personagem central e centralizadora. Tem
o papel de narrar, mas sobretudo o de revelar, o de
justificar um problema de sempre.
Privilegia o seu "eu", mas o que sai verdadeiramente
privilegiado é o "eu" que existe em cada um homem.
Esta personagem atravessa quatro fases. A primeria fase
corresponde à infância, passada num ambiente rural,
sob a proteção da família e o refúgio numa crença
religiosa católica.
A segunda fase vai da imagem do espelho à imagem do pai
morto. Depois de, ainda adolescente, não se reconhecer
no espelho do seu quarto (em vez da sua própria imagem
vê aí refletida a imagem de uma ladrão), vêm os
questionamentos existenciais. Alberto Soares
começa a interrogar-se sobre tudo, rejeita a moral
tradicional, afasta-se de Deus e tenta construir a sua
existência a partir de si próprio. Ele é que será o seu
deus! A ocorrência inesperada da morte do pai acentua
ainda mais as suas inquietações porque o mistério da
morte incomoda-o, ao não encontrar-lhe uma explicação
lógica.
A terceira fase é a de Alberto Soares face à cidade de Évora e aos
outros. Diz-se messianicamente portador de uma extraordinária
"notícia": revolucionar o mundo com a sua descoberta de
que o Homem se constrói na negação de Deus e na
afirmação de si próprio. Tal "notícia", espalhada numa
cidade provinciada, faz com que ele seja logo rejeitado e
até considerado
cobarde. A sua angústia aumenta, na exata medida em que
não tem
respostas para os problemas que levanta. A aldeia da
infância vai progressivamente desaparecendo, emergindo o
espaço citadino que também vai variando até à sua
instalção na casa do Alto, o seu
Olimpo. Como portador de uma nova (messias) não faz apóstolos.
Com efeito, Carolino, o seu ex-aluno,
revelado por ele, foge-lhe, volta-se contra ele;
Sofia, sua cúmplice, volta-se contra ele; Ana enfrenta-o
seguramente e desmonta os seus equívocos, tornando-se a
sua mais forte oponente. Não admira, pois, que a
pergunta angustiante "Quem sou eu?" continue a
amargurar-lhe o espírito. Apenas se sente consolado na música de Cristina,
música que, inclusive, o faz rezar, deixando transparecer
nesse momento a ideia de que não é
tão descrente como quer fazer crer.
A quarta fase é relativa ao presente da escrita, pelo
que é nítida nesta fase a presença do narrador-autor.
Assim à distância de alguns anos, numa altura em que já
se tinha casado e retirado do ensino, por doença, reeencontra,
na sua terra natal, o lugar original e relembra o passado,
Parece ter-se encontrado, na companhia da mulher, embora persistam algumas
interrogações, na paz da montanha, na luz da lua e na
música de Cristina, que ainda ouve em rememoração, sentindo que alguém o chama
para a eterna comunhão.
O pai de Alberto Soares
(Álvaro
Soares)
Personagem ausente, mas sempre presente, em analepse,
mediante as múltiplas evocações de Alberto Soares.
Tolerante e possuidor de uma serena
sabedoria, encaminhou o filho na escolha da profissão; é
seu protetor em momentos de angústia existencial, quando
a pergunta fundamental se levanta: "Mas eu, eu o que é
que sou?"
Morre repentinamente, provocando no filho um
caudal de interrogações sobre a vida e sobre a morte.
Tomás
Personagem de eleição, pois tem o dom da perpétua
ligação à terra, às origens, às raízes, à plenitude.
Assume a tragédia da vida e da morte sem angústia, sinal
de que atingiu um estado de perfeita tranquilidade
interior, um estado de reconciliação com a vida e com a
morte.
Homem discreto, acolhedor, ligado totalmente à
terra-mãe, é o irmão preferido de Alberto Soares, com
quem este gostava de dialogar.
Evaristo
Materialista e irreligioso, extrovertido e ousado, às
vezes mesmo inconveniente, gera uma certa animosidade
contra o irmão Alberto Soares, a quem chama "monge".
O reitor
Tem o dom de pressentir, de medir, de ajuízar com
serenidade e em todas as circunstâncias, agindo depois
em conformidade. O protagonista destaca-o pela sua
bondade e tolerância.
Dr. Moura
Homem crente, de prática religiosa
tradicional, é o médico afável, o velho
patriarca.
Carolino ( o "Bexiguinhas")
De olhos azuis, de "azul-claro", aguado, com
uma lucidez serena, Carolino diz que
"mastiga as palavras", isto é,
terá descoberto o valor da palavra no que
pode representar da descoberta de si próprio
e dos outros.
Aluno do Dr. Alberto Soares, é um seguidor
do mestre, sendo influenciado pela sua
"pregação".
Mas de discípulo subserviente (fascina-se com os
comentários de Alberto sobre o mistério da
condição humana), passa (ou julga passar) a
uma posição igualitária, para depois se
guindar a uma posição de superioridade
e de independência face ao mestre. Mas fá-lo
pela sua loucura, pela deturpação das ideias
do professor, pelo seu fascínico pela
destruição, pela sua propensão quase sádica
para subverter as ideais e as situações -
matar é para ele igual a criar. Não tem medo
da morte e, por isso, não teme matar, até
por que se julga Deus pelo facto de poder
tirar a vida - tenta matar Alberto, na Casa
do Alto,
servindo-se da sua força para tentar mata
quem o "criou", um pouco como o Dr. Alberto
Soares fizera com os deuses da sua infância; e é ele o assassínio de Sofia,
encontrada morta junto ao chafariz d'El Rei.
Ao longo da obra,
identifica-se com o mestre na tentativa de
descobrir a sua própria condição, sendo
visto por Sofia como uma espécie de "duplo"
do Dr. Alberto Soares, tendo a mesma
violência libidinosa.
Chico ( o engenheiro)
Acusa o protagonista desde o início. A
apresentação que faz da cidade pode ser
entendida como um aviso ou um presságio de
rejeição para o homem que a habita: "não se
podia ter mais do que a 4.ª classe, nem
menos de 300 porcos".
Recorda constantemente ao protagonista o
sentido de uma culpa antecipada. Parece
querer lembrar o sentimento de culpa que o
pensador do existencialismo carrega
consigo, em todos os momentos, pelo que faz
ou pelo que deixa de fazer.
Poderá simbolizar a crueldade humana, na
facilidade com que julga os homens e as
suas situações. É, com efeito,
agressivo, um intelectual medíocre,
uma voz acusadora do vazio da cidade, um
oponente acérrimo do professor.
Manuel Pateta
É uma personagem típica de Évora,
caricatural e, como o nome indica, ridículo.
O Bailote
Representante de todos os trabalhadores que
a sociedade, depois de usar e deles abusar,
rejeita. Nele, todavia, ressuma a
problemática existencial do Homem,
face ao destino, face a si próprio, face à
morte.
Ao morrer libertou os dois filhos,
possibilitando, assim, a sua adoção por Ana.
Alfredo Cerqueira
Rude, inconveniente, indiferente à poesia, à
problemática do tudo e do nada, por vezes
imbecil, outras provocador, fazia tudo,
despropositadamente, para afirmar a sua
pessoa e ridicularizar os outros,
nomeadamente a sua mulher Aninhas - veja-se
o episódio da porca que teve um porquinho a
mais. Até as visitas às herdades eram uma
forma de afirmação do seu ego recalcado.
Representa o homem ligado à sabedoria da
terra.
O Reitor
do Liceu de Évora
Cumpridor do regulamento, defensor da moral
tradicional, representante de um certo
estatuto cultural. A ausência de nome é
significativa.
Sr. Machado
É o dono da pensão onde se alojou Alberto
Soares quando chegou a Évora, pela
primeira vez, Com vida duvidosa (práticas
homossexuais?), arvora-se em moralista
barato, sendo, por isso, alvo da chacota da
cidade.
Os ceifeiros
Representantes do mundo do trabalho,
representam os explorados.
Consulte,
ainda, as páginas 338 a 342 do seu manual
escolar "Aula Viva",
Literatura Portuguesa - 11.º ano.