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APARIÇÃO - Tempo

 

TEMPO DA ESCRITA E TEMPO DA DIEGESE

 

Em Aparição há um eu-narrador distante dos acontecimentos que narra e um narrador-personagem, auto e homodiegético. O eu-narrador distante move-se num tempo posterior aos acontecimentos narrados: "Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro." (prólogo e epílogo) e num espaço bem determinado: um casarão herdado, na aldeia. O narrador-personagem movimenta-se no tempo da diegese: os acontecimentos passados há mais de vinte anos, de setembro a junho, numa época em que lecionou no Liceu de Évora, acontecimentos que ocupam os 25 capítulos da obra. Terá sido aquela sala vazia e silenciosa, evocadora dos acontecimentos da sua infância e juventude, que desencadeou o processo da narração, favorecido pela noite de luar quente de verão. Curiosamente, o processo da escrita irá prolongar-se por cerca de nove meses, traçando um percurso paralelo às peripécias da diegese.

 

Vejamos, então, a correspondência ou paralelismo que se estabelece entre o processo da escrita (tempo da escrita) e as peripécias da diegese / história (tempo da história):

 

 

in "Aula Viva", Literatura Portuguesa - 11.º ano, Porto Editora, com adaptações

 

TEMPO DA HISTÓRIA (da DIEGESE) E TEMPO DO DISCURSO

 

O protagonista de Aparição, Alberto Soares, é professor e compromete-se em situações que ocorrem ao ritmo de um ano letivo.


1.º PERÍODO ESCOLAR

 

Alberto Soares chega a Évora. Vê-se despojado do pai, da família, da casa, da aldeia, da montanha.

 Em troca, tem a planície, a cidade, um quarto impessoal numa pensão, uma outra família (a do Dr. Moura) e o reitor.

O “gralhar das galinhas” que ouve do quarto largo e branco da pensão do Sr. Machado lembra-lhe a aldeia; os seus longos silêncios vivificam a história recente da morte do pai; a aparição do Liceu presentifica-lhe o passado na Universidade de Coimbra.

 

Compete ao bom médico, o Dr. Moura, como amigo da família, integrá-lo na sociedade eborense. O bom homem, aliás, mantinha o secreto desejo de ver Alberto Soares salvar Sofia, pelo casamento. Achava ele que “se o corpo está tranquilo, os sonhos são mais razoáveis”. Mas Alberto e Sofia não podem unir-se. Entre eles desenrolar-se-á um jogo de atração-rejeição. Ela é jovem, bela, rebelde, contestatária dos valores vigentes, irreverente e interpelativa; ele é um jovem professor, propenso à introspeção, à interpelação permanente sobre o sentido da vida e da morte. Ambos se atraem e rejeitam na cumplicidade das escolhas que protagonizam face às situações. Sofia vê em Alberto uma ameaça para o seu mundo; Alberto sente-se avassaladoramente atraído por Sofia, mas essa atração limita-o na sua liberdade de escolha, por isso a união entre eles é assumida desde o início como um “apelo de uma união trágica e blasfema”.

 

Os contactos informais (jantares, encontros...) e as lições do Latim em nada contribuíram para o aprofundamento de uma relação simples e pura. O jantar em casa de Ana é mais uma prova do jogo atração-rejeição, em que ora se avança para a precaridade de uma união ora se avança inapelavelmente para a disjunção. A própria Ana agride, nas suas revelações pouco abonatórias da moralidade de Sofia.

 

Ana, Chico, o reitor, todos eles à sua maneira, responsabilizam o jovem professor pelos seus atos e as consequências dos mesmos para Alberto e para os outros, seguindo, aliás, a ótica dos pensadores do existencialismo que defendem a ideia de que a liberdade responsabiliza o homem pelo que faz ou deixa de fazer. Ele é sempre responsável por si e pelos outros.

O jovem professor ousa ir mais além e projeta nos alunos a inquietação de um tempo anterior ao do passado da infância. Carolino ouve-o, mas não compreende, ou então deturpa, a mensagem que lhe é transmitida e revela-se uma personagem em crise, para quem o “homem é que é Deus porque pode matar”, para quem matar é igual a criar”.

2.º PERÍODO ESCOLAR – Regresso da aldeia onde fora passar o Natal
 

O despojamento é cada vez maior.

Na aldeia, nesse Natal, a casa está deserta, os irmãos dispersos, a mãe quase ausente. A ceia é, pela primeira vez, compartilhada apenas com a mãe, estando os restantes lugares à mesa vazios.

Entretanto, as partilhas vão quebrar a já frágil união familiar. Evaristo, o mais novo, corta relações com os outros irmãos.

No meio de tanto vazio e de tanta frieza (física e moral) nem Sofia lhe serve de consolo, porque não responde às suas cartas.

 

De regresso a Évora, encontra a pensão do Sr. Machado fechada, o que leva Alberto a hospedar-se na Eborense e a sonhar com a Casa do Alto.

O grupo de amigos reconstitui-se aos poucos, não já nos espaços de intimidade que marcaram as relações da primeira fase, mas no café Lusitânia.

 

O protagonista sente-se agredido perante uma cumplicidade coletiva que o aponta como réu – o gelo das conversas, o absurdo dos temas grosseiros e ofensivos de Alfredo, o constrangimento de Ana, a indiferença de Sofia, o comprometimento de Carolino, o desprezo de Chico são agulhas que ferem a alma do sujeito da enunciação.

 

Alberto deixa de dar lições de Latim (= perder Sofia), perde a confiança e a lealdade do Dr. Moura. Só lhe resta a frontalidade do reitor, com os seus conselhos sábios, experientes e tolerantes e, sobretudo, Cristina, sempre omnipresente, com a sua música purificadora.

 

Entretanto, a morte de Cristina vem agravar a sua solidão. A família Moura, ferida, fecha-se, afasta-se; Sofia parte; Carolino desespera-se e exaspera-se. A rutura com as pessoas e com a cidade, que o acusa implicitamente nos olhares dos transeuntes, acentua-se. A fratura com Carolino tem a dureza do gume da navalha; com Chico, a crueza das suas condenações pelas mudanças operadas em Ana; com o reitor, a compreensão intimidatória da transferência de escola.

 

 

No final do 2.º período, o jovem professor é uma personagem em disjunção.

3.º PERÍODO ESCOLAR – Depois das férias da Páscoa
 

As férias foram uma fuga vertiginosa e uma busca de reunião dos seus “restos”, dos “pedaços” em que se quebrou. A mãe estava só, cada vez mais ausente. Daí a curta permanência em casa.

O regresso a Évora impõe-lhe a reconciliação com o homem que o habita. Alfredo reclama-o para o espaço social. Dá-lhe notícias: a tentativa de suicídio de Sofia e o seu regresso a Évora, depois da sua estadia em Lisboa.

A visita à herdade de Alfredo revelar-lhe-á uma nova Ana, depois da adoção dos filhos do Bailote. Sofia também aparece nesse espaço, mas vislumbra-se entre eles uma relação cada vez mais fria. Prenúncio de um afastamento definitivo?...

Terminado o ano letivo, o reitor dispensa-o das orais de junho.

Faro será o novo espaço onde se movimentará, o início de um novo ciclo com novas situações em que se irá projetar, dentro dos compromissos e das escolhas que o seu pensamento existencialista torna responsável.

 

Os informantes temporais  acompanham de perto a angústia existencial das personagens, com mais incidência para o narrador homo e autodiegético e as suas contínuas buscas de descoberta das origens, da essência do ser.

Assim, ainda no respeitante ao tempo, e em termos simbólicos, seria de destacar sobretudo dois elementos que se relacionam de forma mais ou menos evidente com ele: o sol (fogo) e a lua. O sol é a luz, é o dia, é a revelação, é o princípio regenerador da terra e seu elemento fecundador, mas também é a destruição que tem, no entanto, para o narrador, uma dimensão salvadora, uma vez que o rejuvenescimento da terra (e por que não o do Homem?) implica um momento de morte. No final da obra, o narrador questiona-se sobre a possibilidade de construção da "Cidade do Homem".

 

De facto, a cidade que ele vê, quando dorme, pela última vez, na Casa do Alto, é uma cidade na sua imaginação, votada à destruição pelo fogo, que vai alastrando, a partir de uma "queimada". Essa cidade, Évora, é um microespaço, símbolo do universo, que deveria ser recriado pelo homem, num tempo que não tem barreiras, incomensurável, cósmico. A lua, por seu lado, é a noite, é o mistério, é o tempo da evocação – e a escrita de “Aparição” processa-se normalmente à noite. Por refletir a luz do sol, a lua é também símbolo do conhecimento indireto (novamente a fazer lembrar a digressão analéptica e o conhecimento gradual do “eu”); por ser símbolo do feminino, é sinal de renovação e crescimento (exatamente estados que Alberto procura alcançar); e por ter várias e sucessivas fases representa a passagem da vida à morte e da morte à vida.

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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