O problema da vida e da morte; a
justificação da vida face à inverosimilhança
da morte; a descoberta da face última das
coisas até atingir a verdade perfeita.
Anankê
Fatum, destino ou fatalidade.
• A presença do Destino, um elemento essencial da
tragédia, é uma constante ao longo do romance. O Dr.
Alberto encarna, em certa medida, o papel do Destino,
porque é ele quem desperta as consciências adormecidas,
lançando-lhes as sementes da interrogação e da angústia.
Depois, acaba por ser vítima de si próprio – veja-se o
dedo acusatório das gentes de Évora que para si é
apontado.
Hybris
Desafio.
• Alberto desafia Deus e os outros.
Apresenta-se, inclusive, como um Messias, o
portador de uma notícia extraordinária. Ao
abandonar Deus e ao querer substituí-lo,
procura alcançar a sabedoria total sobre si
mesmo e sobre os outros.
• Sofia desafia tudo e todos, as leis da
vida e da morte (tentativas de suicídio).
• Carolino desafia Deus, autoproclamando-se
o próprio Deus, capaz de dar a vida e a
morte.
Agón
Combate ou luta empreendidos pelos
protagonistas, um combate que é levado a
cabo contra os preconceitos sociais ou
contra a omnipresença e omnipotência
divinas.
•
•Com efeito, todos os elementos atrás referidos empreendem uma luta
contra os deuses, as instituições e os homens que elas
representam.
Pathos
Sofrimento dos protagonistas.
• As três personagens vivem um profundo conflito
interior. Sofrem o peso do seu destino, das suas
inquietações, das suas angústias.
Peripécia ou peripeteia
Peripécia(s), constituída(s) pelo(s)
acontecimento(s) imprevistos que fazem
avançar a intriga, às vezes alterando
completamente o seu rumo.
• A morte do Bailote, por exemplo, abre
caminho à adopção dos seus filhos por parte
de Ana. Também a morte trágica de Cristina
vai marcar para sempre as vidas de
personagens como Alberto, Sofia e Ana.
Compaixão
O sentimento de compaixão é despoletado nos
leitores, que vêem as personagens a
perder-se irremediavelmente, enredados nas
teias de um destino cruel, que deriva, na
verdade, da impossibilidade de justificação
da vida face à inverosimilhança da morte ou
da luta inglória da personagens na sua saga
de descoberta da face última das coisas, com
o óbvio desiderato de atingirem a verdade
perfeita..
Clímax
Ponto auge da tragédia, quando morrem
malfadadamente os protagonistas.
Katastrophé
Catástrofe, que corresponde ao desenlace fatal, quando
ocorre a morte de personagens.
• O desenrolar dos acontecimentos vai provocar a
tragédia, com as mortes do Bailote, de Cristina (uma
vítima inocente) e de Sofia.
Coro
É
a "voz " do senso comum, que tenta moderar a
exaltação desmedida dos protagonistas.
• As múltiplas digressões reflexivas têm como função
moderar as exaltações e os comportamentos mais
exacerbados das personagens.
Indícios ou presságios
Pequenos sinais pressagiadores de desgraça
mais ou menos iminente.
A catarse ou cataroia
Tem a ver com o facto de os
leitores, depois de sentirem
vibrar as cordas da sensibilidade e de verem
despertar sensações, ficarem mais
purificados e com ganas de lutar contra
todas as formas de injustiça.
A tragicidade é o sal dos comportamentos das personagens
principais que, interrogando continuamente o sentido da
sua existência, vendo o absurdo da morte de que não se
podem libertar nem integrar no âmbito lógico da vida,
caídas numa radical solidão, vivem até à medula dos
ossos a trágica evidência sartriana de que o homem é um
ser-para-a-morte. Basta verificar a quantidade de seres
que morrem, a contínua referência ao silêncio e ao
silêncio dos silêncios, que é a morte, para ficarmos
impressionados com a tragédia que envolve o ser humano,
despojado das tradicionais referências da segurança, com
particular destaque para a religião.
O narrador faz um difícil percurso, comum a todos os
que, um dia, abandonaram a fé e se viram confrontados
com o vazio interior. Situado dentro do existencialismo,
o narrador debate-se com a problemática da existência
humana, sem referências transcendentais. Saltita de
interrogação em interrogação, provoca as pessoas que
encontra, recebe sucessivas iluminações/aparições,
parece, às vezes, que finalmente encontrou a tão
desejada APARIÇÃO, para de seguida recair na procura da
última aparição que nunca chega. A sua presença
incomoda, porque provoca a interrogação, e por onde
passa semeia a discórdia.
Desta forma, quase se pode dizer que a grande intriga se
passa dentro do próprio narrador: ele é o sujeito e o
objecto da procura. Os seus oponentes são sempre os seus
limites ou os outros que ele perturba e lhe fogem. Tem
de seguir, como Sísifo, rolando sempre a pedra da sua
insuficiência. APARIÇÃO é, assim, um lento e inacabado processo,
feito de múltiplas etapas, sinuosas e inquietantes.
O mais curioso do romance parece ser a confissão do
vazio existencial do homem que perdeu pontos de
referência fora do transcendente e tem de caminhar nas
trevas, vislumbrando apenas pirilampos de luz que duram
o tempo que brilham, deixando de novo imerso no mar
tenebroso da existência aquele Prometeu que não consegue
escapar ao castigo do seu atrevimento.
(Bibliografia consultada: Aula Viva – Português B -12.º ano,
Porto: Porto Editora)