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AVE DA ESPERANÇA -
COMENTÁRIO
Ave da Esperança é um poema que se
insere, dentro do universo poético de Torga, na
dialéctica Desespero humanista / Esperança, dialéctica
essa que é profundamente humana e torguiana. O desespero
traduz a desorientação do Homem na selva da vida e das
ideias; a esperança, por seu lado, reflecte o desejo de
alcançar a autenticidade existencial do homem-poeta.
Torga desespera, mas reflecte, e esse tempo de reflexão
é um tempo de abertura à esperança, pelo menos à
esperança de poder combater o próprio desespero. É que a
esperança é uma “ave” lançada para um futuro regenerador
do Homem. Assim, se o desespero humanista paira
indelevelmente sobre a poética torguiana, este poema
vem, em certa medida, contrariar esse desígnio. Na
verdade, desta composição emana como que uma clareira de
esperança nessa densa floresta que ameaça o viver
quotidiano da humanidade, clareira de onde já se
vislumbram laivos de luz prenunciadores de uma vida
nova, eivada de liberdade, alegria e amor. A esperança
domina e esta é uma atitude profundamente religiosa, que
remete para a salvação, o fim último do Homem, depois de
uma vida terrena desesperante.
O próprio título do poema torna
claro que estamos perante um texto que, em última
instância, privilegia a ideia de esperança num futuro
que se antevê como um tempo de Liberdade (O tempo que
há-de vir sem este muro / De silêncio e negrura), de
felicidade extrema (O tempo que há-de vir – esse desejo
/ Com asas, primavera e liberdade – note-se, desde já, a
positividade inerente aos três últimos substantivos), um
tempo em que o amor vencerá a hipocrisia, a mentira e a
dissimulação: Tempo que ninguém há-de / Corromper / Com
palavras de amor, que são a morte / Antes de se morrer.
Composição poética constituída por
uma só estrofe de dez versos, com uma alternância entre
versos longos e curtos e com predominância para os
versos de dez sílabas (decassilábicos) e de seis sílabas
(hexassilábicos), nela a irregularidade rimática está
bem presente. Assim, os versos 4-5, 6-7 e 10-11 são
emparelhados, os versos 12 e 14 são cruzados, sendo os
restantes soltos. Essas irregularidades métrica e
rimática e a alternância entre sons fechados e abertos
sugerem não só a inconstância e a indefinição que
caracterizam o presente, associado à noite, ao mundo das
trevas em que vive o sujeito poético, mas também o seu
desejo, ainda latente (…a sonhar…), de um futuro
risonho, conotado com o amanhecer. O encavalgamento,
como é apanágio da poética torguiana, é muito utilizado
(“O tempo que há-de vir sem este muro / De silêncio e
negrura / A cercá-lo de medo e de espessura / Maciça e
tumular”; “Tempo que ninguém há-de / Corromper / Com
palavras de amor, que são a morte / Antes de se
morrer”), o que ajuda à criação de um ritmo mais
grandioso, mais amplo, mais declamatório, como que a
sugerir o fluir da temporalidade, que há-de evoluir de
um presente triste, cheio de agruras, de medos e
ausência de liberdade, para um tempo em que o homem se
há-de realizar em toda a sua plenitude.
A bipolaridade presente-futuro (noite-amanhecer)
também está presente ao nível estrutural deste poema,
assumido como um cântico de esperança entoado por alguém
que se sente, de momento, sufocado por um mundo oprimido
e opressor. Efectivamente, poderemos considerar este
poema divisível em duas partes. A primeira englobaria os
dois primeiros versos, que constituem uma afirmação da
insatisfação do sujeito poético face a um presente
precário que lhe desperta ânsias de libertação. Na
verdade, recorrendo a uma forma perifrástica (“Passo … a
sonhar…”) e a uma antítese (“… noite …amanhecer”), o
sujeito poético exprime a ideia da continuidade
temporal, dando até a ilusão de uma certa
intemporalidade, caracterizadora do seu sonho,
reforçando com isso a amplitude do seu anseio pelo
amanhecer, símbolo da luz, do rejuvenescimento, de uma
nova vida, da plenitude prometida. Seguidamente, o “eu”
deita mão de uma metáfora, para se auto-identificar com
uma “ave da esperança”. Saliente-se que a ave é o
símbolo da liberdade, dos estados superiores do ser, do
mundo celeste, por oposição ao mundo terreno,
representado pela serpente. Ora, é exactamente esse
mundo superior, de liberdade e de amor que o eu lírico
tanto deseja e que foi, aliás, um dos desideratos dos
poetas que integraram a geração da Presença, movimento a
que Miguel Torga pertenceu, numa fase inicial.
Na segunda parte, constituída por
todos os outros versos do poema, temos essencialmente a
caracterização do tempo que há-de vir. Revendo-se
metaforicamente num pássaro triste que, à “…luz do sol”
(símbolo de vida e da alegria de viver), antevê já
tempos de alegria, o sujeito poético caracteriza o
futuro, apresentando-o como um tempo de liberdade (“…
sem este muro / De silêncio e negrura”; “… esse desejo /
Com asas, primavera e liberdade), onde não cabem o medo
e a morte (“…negrura / A cercá-lo de medo e de espessura
/ Maciça e tumular”) – recorde-se que a problemática da
efemeridade da vida é uma das mais focadas na obra de
Torga, acentuando o seu “desespero humanista” – nem tão
pouco a corrupção, a mentira, a inverdade e a
intolerância: “Tempo que ninguém há-de / Corromper / Com
palavras de amor, que são a morte / Antes de se morrer.”
No fundo, o que o sujeito poético antecipa, num tom
profético e messiânico, é o fim do mundo das trevas,
onde reinam as injustiças e a hipocrisia, é o fim de
toda e qualquer ditadura (da salazarista, em
particular?) e a instauração de uma nova ordem.
É curioso verificar que os termos
e expressões que se reportam ao presente vivencial são
de conotação extremamente negativa (noite, triste,
silêncio e negrura, cercá-lo, medo, espessura maciça e
tumular; com palavras de amor, que são a morte antes de
se morrer), deixando transparecer as mesmas ideias que
se desprendem do belo poema “Data”, de Sophia de Mello
Breyner Andresen:
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de cobardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
Livro Sexto (1962)
Inversamente, as palavras e
expressões que se reportam ao Mundo Novo, tão
ambicionado pelo eu lírico, são de conotação positiva,
como não podia deixar de ser: amanhecer, ave da
esperança, luz do sol, aquece, alegrias, asas,
primavera, liberdade, tempo que ninguém há-de corromper.
Para expressar bem a oposição
entre o presente e o futuro, toda a composição poética é
construída com base em belas e expressivas imagens
metafóricas: “Pássaro triste que na luz do sol / Aquece
as alegrias do futuro” (o presente é de tristeza e de
sofrimento, mas o futuro será um tempo de conforto, de
afecto, compreensão e alegria – repare-se que o sonho de
um futuro risonho é despoletado pelo presente que não
agrada, dito de outra maneira, é o sofrimento atroz da
vida quotidiana que potencializa a idealização de um
mundo melhor); “O tempo que há-de vir sem este muro / De
silêncio e negrura / A cercá-lo de medo e de espessura /
Maciça e tumular (a prisão, a opressão, a falta de
liberdade, o medo e a morte serão banidas da face da
terra); “… esse desejo / Com asas, primavera e
liberdade” (o sujeito poético sonha com um mundo de
liberdade, regenerado – as asas são símbolo de
libertação, de desmaterialização, de imortalidade; a
primavera, por seu lado, representa o eterno recomeço).
Mas há outras intencionalidades
estilísticas merecedoras da nossa atenção: o constante
recurso à conjugação perifrástica (“O tempo que há-de
vir… – vv. 5 e 9; “Tempo que ninguém há-de corromper –
vv. 12 e 13), a sugerir as noções de futuridade,
certeza, necessidade ou obrigatoriedade; a dupla
adjectivação, no verso 8 (“Maciça e tumular”), a
reiterar a ideia de morte e de frieza (e consequente
solidão humana?); e o paradoxo (“Com palavras de amor,
que são a morte / Antes de se morrer), para nos dizer
que no mundo de hoje impera a hipocrisia, pois as
pessoas prometem amor, mas aquilo que oferecem é o
desamor, o ódio, ao promoverem a guerra, a opressão, a
violência, a falta de solidariedade.
Para terminar, e uma vez que
estamos perante um sonho do sujeito poético (“Passo a
noite a sonhar…”), convém lembrar que todos os
requisitos para a concretização do [seu] sonho
(maravilhosamente enunciados na última estrofe do poema
Horizonte , da Mensagem, de Fernando Pessoa) estão
presentes neste poema: o acto de acreditar no invisível,
no supostamente inalcançável, a esperança, a vontade, a
busca incessante e o prémio. Se o homem for capaz de
sonhar, se tiver esperança, se calcorrear com vontade o
difícil caminho que terá de percorrer em busca do [seu]
ideal, então alcançará o merecido prémio – no caso do eu
lírico, um mundo de Verdade.
Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Março 2004
Comentário feito pelo professor,
Joaquim Matias da Silva
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