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DESCIDA AOS INFERNOS - COMENTÁRIO

 

 

Nesta composição poética, constituída por três estrofes irregulares, o sujeito poético, como que através de um processo de transposição, recorre ao mito de Orfeu para nos apresentar a sua própria realidade interior.

 

Como Orfeu desceu aos infernos, também o sujeito poético vai dar início a uma viagem exploratória do seu mundo interior, por isso marcadamente centrípeta. Aliás, as marcas de subjectividade estão bem presentes em todo o poema e denunciam a presença do “eu” que parte à descoberta de si mesmo. Essas marcas são a 1.ª pessoa verbal (“Desço…”, “Ergo a voz…”, “E entro finalmente”), o pronome pessoal de primeira pessoa (“mim”, “me”) e o determinante possessivo, também de primeira pessoa (“… meu canto…”, “Das minhas trevas”). Essa viagem que começa a ser empreendida, rumo ao seu mundo misterioso e abismal, é sugerida, a nível formal, pela irregularidade métrica, sobretudo da primeira estrofe, que faz com que os versos estejam dispostos em forma de degraus de escada, irregulares é certo, mas sugestionando não só a descida aos infernos por parte de Orfeu, mas também a descida do “eu” ao “eu”, bem como a anarquia que presumivelmente reina no seu próprio interior.

 

Entretanto, diferentemente de Orfeu, que conseguiu, com o seu canto mavioso, perfurar “o coração da morte” (lembre-se que os vivos não poderiam entrar no reino dos mortos), em busca do seu amor (Eurídice), o sujeito poético reconhece que o seu canto, talvez pela imperfeição que o caracteriza (contrariamente ao de Orfeu, mas esse era o canto de um semi-deus…), não consegue perfurar esse mesmo “coração da morte” – expressão metafórica, que nos pode remeter para a evidência de que a sua alma está irremediavelmente morta ou então para uma outra evidência não menos dolorosa: a morte é uma ameaça que paira inexoravelmente sobre o homem, tendo em consideração a transitoriedade da vida, tema tão amargo, mas tão familiar na poética torguiana.

 

Não é, portanto, de estranhar que o eu lírico não busque, não procure, a “sombra / Dum amor perdido”, antes se deixe seduzir pelo tentativa (antecipadamente tida como infrutífera) de (re)conhecimento da sua própria alma. Aliás, a sedução pelos abismos insondáveis da interioridade era muito recorrente na poesia da Presença, movimento a que Torga esteve ligado até 1930, como já o havia sido muito dilacerante para os homens de Orpheu, que os presencistas procuraram vivificar através dos seus escritos, quer literários quer ensaísticos.

 

O sujeito poético deixa-se, pois, inebriar por essa viagem iniciática pelas zonas mais recônditas do seu ser e, tal como um explorador (o qual, em última instância, mais não é do que a encarnação de qualquer ser humano), fica como que alienado pelo desconhecido, numa relação paradoxal de rejeição-sedução que está subjacente ao que se ignora: “Agora / É o repetido/ Aceno / Do próprio abismo / Que me seduz.” – note-se a expressividade do vocabulário utilizado, o qual, numa tentativa de despoletar o aliciamento do “eu”, ganha foros apelativos e traduz-se na inevitabilidade da sua aceitação : “repetido aceno”, “que me seduz”. O poder de sedução é de tal modo intenso que o sujeito poético perde o controlo sobre a sua própria vontade (“… nocturna vontade, / Que me obriga…”) e, atraído pelo seu drama interior, deixa-se subjugar completamente, vendo-se compelido a “ …sair da claridade / E a caminhar sem luz”, mais uma vez na esteira de Orfeu, que abandonou o mundo dos vivos (da claridade) e entrou nos reinos infernais (o mundo das trevas).

 

“Sem luz”, às cegas, ao sabor da corrente e, consequentemente, sujeito a quedas frequentes, o eu lírico mergulha “dentro do poço” – uma imagem metafórica que tão bem reflecte o lugar mais oculto do subconsciente do poeta, o lugar dos medos e das angústias do Homem, se tivermos em consideração que o poço é símbolo de segredo, de dissimulação e, no Médio-Oriente, do abismo e do inferno, sem ignorarmos o facto de que o poço pode ser ainda símbolo do conhecimento e da verdade, exactamente o Conhecimento e a Verdade que o “eu” tanto procura nesta viagem pelas zonas inexploráveis do Ser. Frise-se que esse mergulho corresponde à manifestação de uma vontade, assume, pois, um carácter volitivo, sendo feito de uma forma desinibida, destemida, heróica mesmo ( “Neste moço / Heroísmo / Dos poetas”), a que não falta uma leve pitada mágica de rebeldia: “Ergo a voz”.

 

Atracção pelo proibido, rebeldia, heroísmo, coragem, confiança, uma certa temeridade, eis as características do Poeta. São elas que lhe dão a possibilidade de enfrentar o interdito, ao infringir conscientemente as normas, os estereótipos, os clichés, impostos pela vida em sociedade, pela religião ou pela gramática, e lhe permitem ir mais além, desafiando os “gigantes”, os “cães vigilantes” que lhe impedem o acesso ao “mito”, à Loucura, ao Sonho de autodomínio do Ser. Repare-se, de novo, que Orfeu, para entrar no Mundo Inferior, teve de ultrapassar Cérbero, um cão tricéfalo que montava guarda à porta do Inferno. Também o poeta, na sua missão de autodescoberta terá de enfrentar tudo o que lhe está vedado, tudo o que para si é um enigma, razão por que terá de vencer, ou pelo menos aceitar (o que por si só já constituiria uma vitória) todos os seus medos e angústias e isso só acontecerá se, em primeiro lugar, tomar consciência deles. Os obstáculos que se lhe levantam estão metaforicamente representados nesta composição poética pela referência ao “interdito”, aos “gigantes” (embora poderosos e amedrontadores não são indestrutíveis), aos “cães vigilantes”.

 

Quando, finalmente, levado pelo frenético “ … moço / Heroísmo / Dos poetas”, consegue ultrapassar todas as barreiras e ter acesso ao seu mundo interior constata, ou melhor, confirma que afinal a sua alma está repleta de escuridão, de “morte”. Imagisticamente, ela não é mais do que um “reino tenebroso”, pelo que a poesia acaba por revelar-lhe uma Verdade que já não lhe era de todo desconhecida, uma Verdade nada agradável, porque, como já vinha indiciando desde o princípio do poema, está impregnada de “um medo triste, de vergonha e assombro”, de tal forma que sente um frio de morte a percorrer-lhe o corpo, até porque o seu coração é de morte, como também nos dá implicitamente a entender através do recurso à sugestiva metáfora (simultaneamente um paradoxo) “rio sem nascente”. Esta a metáfora expressa bem a ideia de que o eu lírico está inexoravelmente condenado a desaparecer, impotente, porque o seu “canto”, afinal, não conseguiu perfurar “o coração da morte”. Agora, perante o “reino tenebroso” das suas trevas, já nem a poesia lhe serve de alavanca de apoio, porque “quebra-se a lira” (a mesma que, pelo tom mavioso que dela brotava, tinha permitido o Orfeu o beneplácito dos juízes infernais) e, concomitantemente, “cessa a melodia”, ou seja, o poder mágico da sua poesia. Só lhe restava uma hipótese de salvação, “o céu, lá do alto”, mas também esse não passa de um reflexo projectado na sua alma morta, razão por que é “inútil como paz que me [lhe] promete”.

 

Integrando-se na temática do desespero humanista, este poema poderia ser dividido, levando em linha de conta o que fica atrás exposto, em três partes, cada uma delas englobando uma das estrofes. Assim, na primeira parte, o sujeitou poético manifesta a vontade de, a exemplo de Orfeu, fazer uma viagem, só que a sua viagem difere da do semi-deus, como vimos. Ele não luta por um amor perdido, antes pretende fazer uma análise introspectiva decifradora do seu “eu” enigmático. Na segunda parte (segunda estrofe), aponta, fazendo uso de inúmeras expressões metafóricas, os obstáculos com que se confrontou ao longo dessa viagem, deixando transparecer a sua rebeldia e a sua qualidade de ser pensante e autónomo, que não caiu no aliciamento dos donos da verdade, os tais “cães vigilantes / Aos portões do mito”. Na última parte (terceira estrofe), tem acesso a uma Verdade que lhe é de todo desagradável mas que não deixa de ser a Verdade do estado actual da sua alma e, por extensão, da alma humana, estado esse que urge rapidamente ultrapassar.

 

Esta divisão tripartida do poema ajuda-nos a compreender a circularidade que está inerente à análise reflexiva que o “eu da enunciação” acaba de fazer (note-se que as afirmações iniciais “Desço aos infernos” e “…o meu canto (= poesia) não perfura o coração da morte” são comprovadas reiterativamente na última estrofe pelas expressões “reino tenebroso / Das minhas trevas” (= inferno) e “Quebra-se a lira, / Cessa a melodia” (= poesia). Trata-se, pois, de um constante girar em torno de si mesmo, constatando-se que o “eu” não consegue (conseguiu) sair do poço em que mergulhou. Aliás, os constantes transportes ou encavalgamentos (“À procura / Da sombra / Dum amor perdido”, “Ergo a voz e mergulho / Dentro do poço” – também temos aqui o pleonasmo [“mergulho / dentro”] a realçar a ideia de uma busca consciente – “E entro finalmente / No reino tenebroso / Das minhas trevas.”), a que se associam as aliterações em /-s/, em /-b-v/ e em /-r/ (“No reino tenebroso / Das minhas trevas. /Quebra-se a lira, /Cessa a melodia; /E um medo triste, de vergonha e assombro, /Gela-me o sangue, rio sem nascente.”) ou as assonâncias em /-u/, em /-i/ e em /-ô/ (“perfura”, “procura”, “seduz”, “luz”; “lira”, “melodia”, “triste”, “rio”; “poço”, “moço”, “tenebroso”), bem como os sons nasais e o vocabulário de conotação extremamente negativa, evidenciam a sua demanda contínua, a sua angústia, o seu desespero e até uma certa frieza. É que o seu mundo interior é um inferno, está povoado de trevas e de mistério. A sua alma está em estado de completa degradação. E já nem a criação literária (essa mesma que tantas vezes ajudou Torga a minimizar o seu desespero humanista) lhe serve de lenitivo. A problemática religiosa, por seu lado, só vem acentuar o seu sentimento de profunda frustração. O que é que adianta, com efeito, a existência de um “céu, lá no alto”, se ele se revela inútil, prometendo-lhe uma paz que ele não encontra?!...

 

Dir-se-á, então, que não houve uma evolução positiva para o sujeito poético – é curioso verificar que as formas verbais estão no presente do indicativo, como que a indiciar que ele é o que é e nunca deixou de ser o que é – e, nesta medida, a introspecção feita só não se revelou infrutífera, porque veio ajudá-lo a conhecer-se melhor, a tomar consciência da sua periclitante condição humana, confirmando a noção de que quanto mais fundo se desce ao mundo do subconsciente, onde reinam os medos, as angústias, os anseios, as ilusões e as desilusões, mais fundo se vê que o fundo está cada vez mais fundo. Nesta perspectiva, talvez essa constatação o ajude de facto (como ajudou os presencistas) a assumir plenamente a sua condição de Homem e, assim, com menos vicissitudes e mais consciente da sua fragilidade, deixar de “...caminhar sem luz”, rumo à “claridade”, que existirá algures no coração de cada homem.

 

À laia de conclusão, diremos que a riqueza de qualquer texto poético advém-lhe da propriedade de ser polissémico. Por isso, a análise que agora se apresenta não se esgota aqui, antes poderá despertar outras leituras, todas elas perfeitamente legítimas. O mito de Orfeu, por exemplo, é um tema que se torna quase obsessivo na obra de Miguel Torga e se nesta composição, como evidenciámos, ele expressa o drama interior do sujeito poético, também poderia, se quiséssemos dirigir este comentário para a problemática da criação literária (tão presente na obra torguiana), revelar a tristeza que o eu lírico sente por não conseguir trazer para a “claridade” uma poesia (simbolizada por Eurídice) que parece eternamente condenada a permanecer na obscuridade. Uma coisa é certa: a exploração do mito de Orfeu por Miguel Torga traduz sempre, e muito afincadamente se optarmos por uma leitura de índole mais sociológica, uma atitude de protesto, de rebeldia, de inconformismo, face a uma sociedade cheia de “cães vigilantes”, que se julgam Senhores do Mundo e Senhores da Verdade, mas que se arvoram displicentemente limitadores da Liberdade do Homem, desencadeando continuadamente injustiças sociais e perseguições políticas e religiosas.
 


Escola Secundária Camilo Castelo Branco - V. N. Famalicão, Março de 2004

 

Comentário produzido pelo professor

Joaquim Matias da Silva

 

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