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"DESFECHO" -
COMENTÁRIO
Uma das temáticas mais
frequentes, quase obsessiva, da obra de Miguel
Torga gira em torno da problemática religiosa. O
poeta nega Deus para melhor se afirmar como
Homem. Mas apesar de negar insistentemente Deus,
Torga continua a acreditar que a presença divina
o acompanha sempre. Deus não é uma palavra morta
na sua poesia. Mas prefere negar a
transcendência do que aceitá-la, porque ela é
como a luz do sol que provoca a cegueira quando
a enfrentamos com o olhar. A negação é pois uma
fuga da Verdade, da Luz, de Deus.
Segundo Eduardo Lourenço, "insofismável é o eco
perdurável da religião da sua infância, de sua
Mãe, que a outra metade, o homem adulto, a razão
ou parte dela, a experiência, renegam". Ao
perder a fé da sua infância, o poeta não perdeu
a infância da sua fé, conservando a nostalgia
dela e lutando contra o que a razão adulta lhe
mostra como ilusão, mas encontrando nessa luta a
razão de ser e duvidando se os ídolos que
guardara dessa mítica infância não serão na
verdade imagens transitórias do Deus autêntico.
Diferentemente de Régio
que, mesmo quando duvida, acredita, Torga não
acredita, mas desejaria poder acreditar. Ao
escrever "deuses", pensa "Deus" e ao escrever
"Deus" não sabe ao certo se não pensa Nada. Mas
essa Nada inquieta-o tanto como se fosse Deus.
“Desfecho” é um poema que
se enquadra nitidamente nesta problemática.
Trata-se de um texto constituído por quatro
quintilhas, de métrica muito irregular, nas duas
primeiras estrofes, e mais certa nas duas
últimas, onde os versos são decassilábicos, com
excepção do penúltimo, que é hexassilábico. Esse
percurso do irregular para o regular poderá
desde logo sugerir um certo apaziguamento do
sujeito poético, que acaba por se conformar,
embora muito a contragosto, com a presença
divina. Quanto à rima, também ela é muito
variada, pois encontramos exemplos de rima
consoante em todo o poema (“…impertinente /
…paciente”), rica (“... negar-te…/ …parte”) e
pobre (“…solidão /…agressão”), masculina
(“…obstinados /…malogrados”) e feminina (“…dizia
/… teimosia”). O primeiro verso de cada uma das
quatro quintilhas é um verso branco, muito
embora pudéssemos apontar como exemplos de rima
toante os dois primeiros versos das duas
primeiras quintilhas (“…palavras /…negar-te”;
“…caminhada / lado”). A rima é ainda emparelhada
e interpolada nas primeira, terceira e quarta
estrofes e cruzada na segunda estrofe. As rimas
cruzada e emparelhada poderão sugerir os
caminhos cruzados e entrelaçados entre o eu e o
tu, os quais, fatidicamente, andam lado a lado,
enquanto a rima interpolada sugerirá a relação
conflituosa que se estabelece entre os dois.
O poema é rico em
sonoridades, como o provam os variados casos de
aliteração em /-g/ e em /-t/ (“Gastei-as a
negar-te), em /-t/ (“O terror de te ver / Em
toda a parte”), em /-f/ (“Fosse qual fosse…”),
em /-p/ (“A divina presença impertinente), em
/-l/ (“E lutei como luta um solitário / Quando
alguém lhe perturba a solidão”), em /-s/
(“Sempre silencioso na agressão”) e em /-m/
(“Mas o tempo moeu na sua mó”), a maioria deles
a sugestionarem a angústia e a revolta do
sujeito poético perante uma entidade cuja
existência ele não quer aceitar, mas que se vê
impossibilitado de o fazer. As aliterações em
/-p/ e em /-s/ poderão sugerir ainda o movimento
das duas figuras caminhando lado a lado.
Nota-se, pois, neste poema
um cuidado especial no aproveitamento dos
recursos, já apontados ou a apontar, daí
resultando um estilo vigoroso, de tom por vezes
declamatório, bem ao jeito de Miguel Torga. É
nítido também um certo tom dramático, que provém
quer da existência de um conflito entre um eu e
um tu, desenvolvido linguisticamente num
monólogo, que só não é diálogo porque uma das
personagens é um “vulto calado”, quer do recurso
a uma frase parentética, a fazer lembrar os
apartes de um texto dramático (“Só a negar-te eu
pude combater / O terror de te ver / Em toda a
parte”), quer da sentida emoção, impregnada por
vezes de uma certa ironia, que o "eu" lírico põe
na enunciação da mensagem poética – veja-se, por
exemplo, o recurso frequente às reticências e
até aos encavalgamentos, sobretudo nas duas
primeiras quintilhas, como que a quererem
evidenciar a irritação do sujeito poético,
irritação essa que lhe desencadeia um discurso
titubeante, entrecortado.
O diálogo implícito que
aqui se trava é entre a imanência (o eu, ou
seja, o poeta como homem) e a transcendência (o
tu, que é a divindade). Ora, a presença do eu é
denunciada pelo uso do pronome pessoal de
primeira pessoa (“…eu pude combater”), da
primeira pessoa verbal (“Não tenho mais
palavras”) e do determinante possessivo de
primeira pessoa (“… a meu lado”). O tu, por seu
lado, é igualmente denunciado pelo pronome
pessoal, mas agora de segunda pessoa (“Gastei-as
a negar-te…”; “… arma que tu não usas”), pela
segunda pessoa verbal (“… arma que tu não usas”)
e pelo determinante possessivo de segunda pessoa
(“Do teu vulto calado”). O eu, como já foi dito,
representa a imanência, o homem que pretende
afirmar a sua individualidade e independência, à
maneira presencista, e que, para melhor se
valorizar como Homem, tenta negar a
transcendência, a “divina presença”, que lhe
coarcta as (suas) liberdades.
A luta que se travou entre
os dois contendores foi uma luta titânica,
prolongada, mas de resultados nulos, inglórios,
sobretudo para o sujeito poético. Na verdade, se
houve alguém que teve de mudar as suas
estratégias, se houve alguém que sofreu em certa
medida uma evolução comportamental, esse alguém
foi o “eu” lírico, que reconhece, logo no início
do poema, que já não tem mais palavras para
negar Deus, está portanto mudo, constatação que
é confirmada no final do poema: “Agora somos
dois obstinados / Mudos e malogrados”. A mudez
não caracterizava o eu; era só uma
característica do tu. Apenas a obstinação
continua a ser comum aos dois. Mas mesmo no que
respeita a esta, ficamos com a sensação, pela
evolução discursiva, que ela já não é assumida
de forma tão convicta como fora antes. O mesmo
se passa com o malogro: se há algum “perdedor”
nessa luta só pode ser o eu, embora não o queira
reconhecer explicitamente, uma vez que o tu
mantém ao longo do poema a sua obstinação, a sua
persistência, o seu silêncio. Assim sendo, é
legítimo afirmar que o eu enredou-se num
discurso circular: começa mudo e acaba mudo. É
claro que a obstinação que ainda diz possuir
implicará um novo recomeço; porém, o novo ciclo
que há-de (re)começar nunca será igual ao
primeiro. E como poderá sê-lo se ele quer negar
a toda a força uma entidade em quem não
acredita? É que a necessidade sistemática da
negação de qualquer coisa implica a crença nela,
pois quem não acredita não tem necessidade de
negar, pelo menos de forma tão sistemática como
o faz o sujeito poético (Torga?).
A evolução discursiva a
que nos referimos em cima pode ser balizada por
três fases ou partes lógicas. Na primeira,
constituída pelas duas primeiras estrofes, o
sujeito poético afirma que passou toda a vida a
negar Deus, gastando todas as palavras sem
conseguir erradicar da sua vida (“Fosse qual
fosse o chão da caminhada” – metáfora
expressiva) a presença divina. A negação dessa
presença só tinha uma justificação: o medo de
enfrentar o Absoluto, o terror que lhe causava a
omnipresença de Deus (cf. a frase parentética da
primeira quintilha). Para além de ser
caracterizado como um ser omnipresente, Deus
possui outros atributos que lhe são conferidos
pelo recurso à dupla adjectivação: é divino,
impertinente (porque a sua presença não era do
agrado do sujeito poético), calado (quando se
quer uma reacção de alguém, nada há de mais
agressivo que o seu silêncio, a sua inépcia ou
indiferença) e paciente: “A divina presença
impertinente / Do teu vulto calado / E
paciente”. Repare-se que “divina” e
“impertinente” são dois adjectivos (um anteposto
e o outro posposto, reforçando-se, assim, o seu
valor semântico) antitéticos. É que Deus não
deveria ser impertinente, embora, como vimos, o
seja para quem nele não queira acreditar.
Na segunda parte, que
engloba a terceira estrofe, o "eu" lírico,
servindo-se de uma comparação (“E lutei, como
luta um solitário”), de uma imagem metafórica
(“Fechado num ouriço de recusas”) e de uma
metáfora (“Soltei a voz, arma que tu não usas”),
aponta as estratégias utilizadas contra a
incómoda presença divina. Tal como alguém fica
incomodado quando vê o seu estado de solidão,
conscientemente assumido, ser interrompido,
assim o sujeito poético fica magoado com a
presença perturbadora e inquietante de Deus.
Então deita mão do segundo estratagema: fecha-se
numa recusa agressiva, da mesma maneira que um
ouriço se fecha ameaçadoramente quando se sente
perseguido. A terceira estratégia adoptada
consiste em soltar o seu grito de revolta,
servindo-se da sua poesia como de uma arma de
arremesso contra a “divina presença
impertinente”.
Na terceira parte (última
estrofe), introduzida pela conjunção
coordenativa adversativa “mas”, somos
confrontados com o Desfecho (e estamos de
regresso ao título do poema – discurso circular
que confirma a propriedade desse mesmo título)
inglório da luta empreendida pelo sujeito
poético, o qual, utilizando novamente as imagens
metafóricas (“Mas o tempo moeu na sua mó / O
joio amargo do que te dizia”), reconhece que,
com o passar do tempo – o movimento circular da
mó faz lembrar o ciclo da vida –, os seus gritos
(=versos?) de protesto eram triturados,
desfeitos, atirados ao vento, não produzindo
fruto algum, antes obrigando-o a confinar-se ao
silêncio, até porque o que dizia (escrevia?) não
passava de “joio”, era daninho e mau. Por isso,
“agora” (advérbio de tempo) só lhe resta a
teimosia, tal como ao seu “adversário”, só que
este continuará a possuir para todo o sempre as
suas características tão peculiares, enquanto
ele irá andar de recusa em recusa até um
eventual malogro. Deus irá permanecer sempre a
mesma divina presença impertinente, um vulto
(logo um vulto..., algo de indefinido e de
intangível!) calado e paciente... E a paciência
dele perdurará até quando?...
Talvez até sempre… Afinal
a rebeldia está no cerne de toda a poesia de
Torga: rebeldia contra si mesmo, contra o
Absoluto, contra o poder inexorável do Destino,
contra os outros homens de letras, contra as
tertúlias literárias, contra os políticos,
contra toda uma sociedade que não quadra com o
seu espírito naturalmente rebelde.
Escola Secundária Camilo Castelo Branco -
Vila Nova de Famalicão, 2004
Comentário feito pelo professor
Joaquim Matias da Silva
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