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"S. LEONARDO DE
GALAFURA"
- COMENTÁRIO
Ao
observarmos pela primeira vez este belo poema de Miguel
Torga, incluído no vol. IX do Diário
(1964), verificamos que é constituído por três estrofes
(três é o número da perfeição, da pureza – como perfeita
e pura, na perspectiva telúrica torguiana, é a Terra) de
onze, nove e sete versos, de métrica irregular, onde, a
par de versos soltos, há outros com rima emparelhada e
cruzada, uma e outra a sugerirem o entrelaçamento
espacial Terra / Céu, que se verifica ao longo de toda a
composição poética e onde a Terra surge sempre
valorizada, ou não fosse, por exemplo, a rima toda ela
feminina.
A
irregularidade métrica, por seu lado, mais visível nas
duas primeiras estrofes, com versos longos a alternarem
com versos mais curtos, acaba por, formalmente, nos
sugestionar a irregularidade do solo transmontano e a
disposição, em socalco, dos vinhedos durienses. A
corroborar essa sugestão, temos inúmeros encavalgamentos
(vv. 3-4, 5-7 da 1.ª estrofe, por exemplo), que nos
permitem também percepcionar mentalmente a ligeira
ondulação do navio “a navegar num doce mar de mosto.”
Entretanto, a alternância de sons merece ainda uma
atenção especial, porque está intimamente relacionada
com o desenvolvimento ideológico do poema. Na verdade, a
ocorrência de sons fechados (ê, ô, â), brandos (-i, -u)
e nasais (-an, -on, -in), com predominância para estes
dois últimos, consoante nos vamos aproximando do término
da composição, coaduna-se com a lentidão, o
arrastamento, que se pretende indiciar e que seria de
esperar quando se fala de alguém que, embora santo, não
tem pressa alguma em deixar o presumível reino da
expiação (Terra) e ir para o Éden prometido. Essa pouca
vontade de deixar o “cais humano” é, por consequência,
confirmada pelo ritmo repousado, lento, moroso, do
texto.
O poema pode
ser resumido em poucas palavras:
S. Leonardo,
a caminho do paraíso, como um capitão “À proa dum navio
de penedos, / A navegar num doce mar de mosto” (a
paisagem duriense), não tem nenhuma pressa “…de chegar
ao seu destino”, porque, “… feliz no cais humano, / É
num antecipado desengano / Que ruma em direcção ao cais
divino”. Com efeito, sabe que quando aportar ao cais do
paraíso os seus olhos ver-se-ão impossibilitados de se
deslumbrarem com os socalcos e vinhedos do Douro, com os
montes que projectam o seu olhar extasiado pelas linhas
indefinidas do horizonte, com todas as paisagens
arrebatadoras que vislumbra e que terá de abandonar,
sendo que tudo o que irá encontrar “Serão charcos luz /
Envelhecida / (…) / Até onde se extinga a cor da vida”.
A viagem no rabelo processa-se, pois, a um ritmo
extremamente lento, para que o santo possa prolongar o
prazer de sorver mais um pouco o “… cheiro/ A terra e a
rosmaninho”.
E por que é
que “… é devagar que [o santo] se aproxima / Da
bem-aventurança”? A resposta é simples: é que os
conceitos de Terra e Paraíso surgem aqui
propositadamente deturpados por Miguel Torga.
Quiasmaticamente falando, a Terra passa a ser o Éden e o
Éden a Terra. Assim, verifica-se que, neste “poema
geológico”, a apetência telúrica de Torga está
transposta para a figura do Santo. Para este escritor, o
verdadeiro paraíso é a terra. Efectivamente, considera a
terra (e não o céu) o lugar onde o homem se realiza. Por
isso, invoca constantemente, na sua poesia, a aliança do
homem com a terra; ama o povo concreto e não o povo
abstracto e idealizado; estabelece uma ligação com a
terra e expressa através dela o próprio sentido do
sagrado, assumindo-se apologista directo de uma Natureza
contemplada em sua crua virgindade, de uma Natureza
agreste, mas acolhedora: “À proa dum navio de penedos /
(…) / Sem pressa de chegar ao seu destino. / Ancorado e
feliz no cais humano”.
Assim como no
mito de Anteu, em que o gigante recuperava as forças
cada vez que Hércules o deixava tocar no solo (e só pôde
vencê-lo erguendo-o alto nos braços), assim o poeta se
retempera no regresso à Terra.
Não é por
acaso, portanto, que o vocabulário associado à Terra é,
neste poema, de conotação positiva (“doce”, “feliz”,
“olhos deslumbrados”…), enquanto o vocabulário que nos
remete para o Céu vê a sua positividade ser-lhe retirada
por vocabulário de conotação negativa (“Sem pressa de
chegar ao seu destino”, “É num antecipado desengano”,
“…charcos de luz / Envelhecida”, “Rasos todos os montes
/ (…) / Até onde se extinga a cor da vida”, “… é devagar
que se aproxima / Da bem-aventurança”.
Como
facilmente se infere do resumo acima apresentado, o
poema poderia ser dividido em três partes. Na primeira
parte, que engloba a primeira estrofe, visualizamos S.
Leonardo, metaforicamente visto como um “Capitão no seu
posto / De comando”, que “À proa dum navio de penedos”
(a capela a ele dedicada localiza-se no cimo de um
miradouro, o qual, visto de longe, apresenta a forma de
um navio, como foi salientado no ponto três das “Notas
Prévias”, aludindo esta imagem metafórica às serranias
transmontanas) navega “…num doce mar de mosto” – mais
uma imagem metafórica que nos remete agora para o rio
Douro e para o néctar (entenda-se vinho) que é produzido
a partir das uvas colhidas dos vinhedos que se estendem
a perder de vista ao longo das suas margens luxuriantes.
Os dados sensoriais ligados à visão e ao paladar
destacam-se nesta primeira estrofe, contribuindo para o
enaltecimento da terra transmontana e duriense.
Portanto, S. Leonardo dirige-se para o Paraíso (“cais
divino”), “…sulcando / As ondas da eternidade” –
novamente o recurso a uma imagem que nos sugere não só a
ondulação do solo transmontano e duriense mas também a
caminhada rumo ao Paraíso. De destacar o vocabulário
relacionado com a navegação marítima (“proa”, “navio”,
“a navegar”, “mar”, “capitão”, “vai sulcando”, “ondas”,
“ancorado”, “cais”), a fazer lembrar a mitologia
clássica, segundo a qual os mortos teriam que entrar num
dos barcos que os transportariam para o seu destino
último.
A navegação
do santo processa-se a um ritmo contínuo (sugerido pelo
recurso aos transportes – “…posto / De comando”, “As
ondas / Da eternidade” – e à conjugação perifrástica –
“vai sulcando”), mas muito lento. A lentidão da viagem é
denunciada pelos sons nasais e por palavras ou
expressões como “sem pressa” e “ancorado” e deve-se ao
facto do santo não estar nada interessado em chegar
rapidamente ao “cais divino”, uma vez que se sente tão
feliz no “cais humano” (Terra) que, antecipadamente, já
está a prever o seu desengano quando chegar à
“bem-aventurança”.
Na segunda
parte do poema, correspondente à segunda estrofe, são
apresentadas as razões do “antecipado desengano” sentido
pelo santo. É que lá, na eternidade, a “menina dos seus
olhos” (sinédoque) não captará as deslumbrantes
paisagens do Douro; lá, não verá mais socalcos nem
vinhedos e a luz límpida e pura reflectida pelas águas
do rio perderá todas as suas propriedades regeneradoras
e criadoras, dado que em vez de águas translúcidas e em
movimento (símbolo de vida) haverá antes “… charcos de
luz / Envelhecida” – símbolos de morte. Então, lá, a
vida, a luz, a felicidade, darão lugar à morte, à
estagnação, à sombra, à tristeza; lá, tudo será
monotonia (“Rasos, todos os montes”) e os largos
horizontes não serão de vida mas de morte: “Até onde se
extinga a cor da vida”.
A terceira
parte começa pela locução “por isso” e constitui uma
espécie de conclusão do poema. O santo parece que navega
cada vez mais vagarosamente consoante se vai aproximando
do seu destino, tendo em consideração todos os motivos
já apontados nas duas primeiras estrofes. Repare-se que
a partícula de realce “é … que” vem acentuar o valor
expressivo dos advérbios de modo “devagar” e
“lentamente”. Quanto mais tempo S. Leonardo passar no
paraíso terreno mais hipóteses terá de usufruir ao
máximo das maravilhas que a terra lhe proporciona.
Quanto mais lentamente o rabelo (barco que nos
direcciona, de novo, para o rio Douro e para o néctar
dos deuses aí produzido) avança, mais oportunidades dá
ao santo de sorver o “…cheiro / A terra e a rosmaninho”.
A divisão
tripartida do poema acaba por ser justificada também
pelas formas verbais utilizadas. Assim, na primeira
parte, temos o presente do indicativo (aspecto durativo)
e o particípio passado com valor de adjectivo – forma
adjectival (“ancorado”, “antecipado”) – a traduzirem
permanência da acção, lentidão; na segunda parte,
predomina o futuro, pois o santo está a conjecturar
sobre a sua vida futura; na terceira parte, volta a
ganhar relevo o presente do indicativo, com um retorno à
morosidade da viagem já expressa na primeira parte da
composição.
A atracção
telúrica pela província de Trás-os-Montes e Alto Douro,
fulcro da inspiração poética de Miguel Torga, está,
pois, de sobremaneira presente neste belo hino à terra.
A sucessão de imagens e de metáforas a que o sujeito
poético deita mão serve maravilhosamente os seus
intuitos: entoar um canto de louvor à Terra, à Vida, em
detrimento do Céu, do Além-Túmulo.
A fazer fé em
que este poema surge na sequência de uma página do
Diário IX, escrita em Ordonho, 2 de Outubro de 1961,
e em que durante trinta anos tentou [Torga] o «retrato
poético» do Santo que sempre se lhe furtava, mas que
nesse dia o «instantâneo» chegou, só podemos
regozijarmo-nos com essa espera e bendizermos o
surgimento desse «instantâneo», pela simples razão de
ter propiciado a feitura de um dos mais belos poemas de
exaltação terrena – mesmo que essa exaltação esteja um
tanto hiperbolizada - , escrito em língua portuguesa.
Comentário
feito pelo professor
Joaquim Matias da Silva
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