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"TANTUM ERGO" - COMENTÁRIO

 

Tantum Ergo é um dos poemas que compõem O Outro Livro de Job, obra escrita por Miguel Torga, ainda não tinha o escritor 30 anos de idade.

 

Mas quem foi Job? Personagem bíblica, ficou conhecida pelo Livro de Job, considerado uma obra-prima da literatura hebraica e cuja redacção deve datar de 587 a.C. Job foi um patriarca célebre pela piedade e resignação. Era um homem rico e poderoso de Hus, na Idumeia, a quem Deus, para pôr à prova, privou de tudo e encheu de doenças, nomeadamente a lepra, e de sofrimentos. A paciência e resignação com que aceitou essas privações levaram Deus a recompensá-lo, devolvendo-lhe tudo. Ora, O Outro Livro de Job recorre à analogia e à alternância deste famoso mito judaico. Com efeito, Torga canta, aqui, a revolta do Homem contra a Divindade. Como Aquilino Ribeiro, reduz a vida humana a uma luta amoral com a Transcendência que rejeita, luta conduzida pela obediência exclusiva ao instinto individual dentro do mais puro naturalismo. Reconhecendo ser-lhe impossível transcender a vida natural, expandirá, em rebeldes “lamentações”, a repulsa da degradante e injusta condição a que o ser humano se viu reduzido pelo Pecado Original. Tal como Régio, não se conforma com a vida tal qual foi criada, como se cada homem não passasse de um esboço que saiu mal acabado das mãos de Deus.

 

Pelo que fica exposto, e tendo apenas em atenção o título desta composição e o da obra de onde foi extraída, fácil nos é concluir que estamos perante um poema onde a problemática religiosa é mais uma vez aflorada. Lembre-se que a expressão latina Tantum Ergo (= Tão grande, tão elevado) encabeça o título de um dos mais populares cantos religiosos – Tantum Ergo Sacramentum, um canto de louvor a Deus sacramentado.

 

Ao nível fónico-formal, constatamos que o poema se caracteriza pela irregularidade: estrófica, métrica, rimática e rítmica. Efectivamente, não se respeita aqui qualquer esquema rígido. Vejamos: no que concerne ao agrupamento estrófico, deparamo-nos com uma oitava, com uma sextilha e com uma décima; ao nível métrico, versos longos (o primeiro verso é dodecassilábico ou alexandrino, sem a cesura típica deste verso) alternam com versos muito curtos (há três versos dissilábicos – “Parece...”, “Assim” e “Os outros”); quanto à rima, há unicamente dois exemplos de rima cruzada (“… aquece / …Parece!...” – primeira estrofe; “… doce / … fosse!” – segunda estrofe) e um exemplo de rima interpolada na última estrofe (“… nada / Tresmalhada…”), sendo os restantes versos brancos ou soltos; finalmente, no respeitante ao ritmo, este é muito irregular – às vezes lento, devido ao tamanho do próprio verso, às reticências, aos sons fechados e graves e às frases exclamativas; outras vezes mais rápido, embora incerto, graças ao uso do verso curto, de sons mais abertos e suaves e do encavalgamento (“Aquela tua lastimosa ovelha / Tresmalhada”). Na parte final da última estrofe, o ritmo torna-se mais cadenciado, binário, a fazer lembrar a oposição Eu / Os outros.

 

De qualquer dos modos, porquê tanta irregularidade ao nível fónico-formal?

Porque o sujeito poético quer afirmar a sua liberdade, a sua independência, face à prepotência divina. Porque o seu canto é um canto de rebeldia. Porque, em certa medida, Miguel Torga ainda segue os preceitos presencistas: defesa de uma literatura viva contra a rotina e o academismo, defesa de uma crítica livre e ousada, defesa do primado do individual sobre o colectivo, defesa do primado do psicológico sobre o social. Porque, enfim, o “eu” lírico olha à sua volta e o que vê é tudo muito confuso, muito inútil, muito irregular… Uma sensação de impotência, de frustração e de vazio cala bem fundo na sua alma… Em vez de um mundo perfeito, de uma obra acabada e digna de alguém que se diz Deus, vislumbra só imperfeições (“… aqui, onde não chega o teu amor, / É tudo igual / Ao teu gesto de desprezo…”), caminhos de resignação, de aceitação calma das coisas (“Os outros / Caídos pelos caminhos, / Nem são homens, nem são nada!”), de monotonia, de desamor, de injustiças e desigualdades, caminhos sem sentidos: “Tudo lembra / A inútil persistência / Dum rio a correr pró mar: / O mar nunca fica doce…”.

 

Para sistematizar melhor o assunto do poema, poderemos dividi-lo em três partes lógicas, correspondendo a cada uma delas uma estrofe.

 

Na primeira parte, depois de uma invocação a Deus (“Meus Deus…”), carregada de angústia e de desilusão e a fazer lembrar as orações litúrgicas, o sujeito poético afirma que Deus é um ser inútil para o Homem, um ser ausente que não se importa nada com o que lhe possa acontecer. Com efeito, na Terra (o deíctico localizador “aqui” remete para um espaço concreto, telúrico) não impera o amor, antes vê-se o desprezo a que Deus votou a Humanidade – e logo Ele que é a fonte da concórdia, da compreensão e do amor!... Na Terra, dizíamos, nada tem sentido. A própria Vida (note-se a maiusculação desta palavra, para enfatizar a carga semântica que a mesma encerra), que é um dom de Deus, de nada vale…– “A Vida não tem sentido”.

Inútil é também o sol, que é mais uma manifestação da divindade, símbolo da fecundidade e fonte da luz, do calor e da vida – os seus raios representam as influências celestes ou espirituais recebidas pela terra (CHEVALIER, Jean; CHEERBRANT [1969]. Dictionnaires des Symboles, com adaptações, Paris : Edições Robert Laffont S.A. e Edições Jupiter). Ora, a inanidade do sol, assevera-nos o sujeito poético, é de tal ordem que “Nem regela nem aquece!...” . Nem sequer a cor emitida pelos seus raios é um sinal revelador do Deus presente. Repare-se no emprego da anáfora (“Nem… / Nem…”), da diácope (“Nem regela nem …”) e da antítese (“Nem regela nem aquece”), cujo intuito é reforçar a ideia da inutilidade das obras ditas divinas e, já agora, do papel mesquinho que Deus representa para os homens. Até “Parece!...”, embora o sujeito poético não tenha concluído a sua ideia, que o Homem não passa de um brinquedo nas mãos de Deus e que a sua vida é jogada num tabuleiro de xadrez a seu bel-prazer!...

 

Na segunda parte, temos o resultado dessa atitude de indiferença assumida por Deus perante a humanidade. O pronome indefinido “Tudo” resume a sensação de vazio, de inutilidade de todo o esforço humano (“Tudo lembra / A inútil persistência” – frise-se que o adjectivo “inútil” está anteposto ao nome, como forma de melhor destacar o seu valor expressivo e porque também está imbuído de subjectividade). Por isso, por mais que alguém se esforce em remar contra a maré, o seu esforço será feito sempre em vão. Isto porque, conforme concluímos de uma bonita imagem metafórica, por mais que vejamos o “… rio a correr pró mar: / O mar nunca fica doce…”. Esta constatação poderia levar-nos para outro tipo de leituras, de carácter sociológico, que também se enquadram na temática torguiana: os pequenos, os pobres, os explorados, representados pela imagem do rio, nunca conseguirão sobrepor-se ao domínio e exploração dos mais ricos, dos bafejados pela sorte (?), simbolizados pelo mar. Daí as desigualdades e as injustiças sociais, contra as quais Miguel Torga tanto se bateu!... Daí o recurso à exclamação final, iniciada por uma interjeição e com valor condicional (“Ah! se o teu amor viesse, / Outro tanto mar que fosse!...”), como que a dizer que se na Terra houvesse verdadeiro amor tudo seria mais perfeito, muito embora esta exclamação possa ter uma leitura mais perniciosa, que o uso das reticências não elimina, antes vem acentuar, e que iria no sentido de que se Deus aspergisse a Terra com um grande, imenso (do tamanho de um outro mar…) amor, mesmo assim isso de nada valeria. Em consonância com esta interpretação, então teríamos mais uma vez Deus posto em causa, o que talvez até venha mais de encontro à linha ideológica do poema.

 

Na terceira parte, que começa com uma conjunção coordenativa conclusiva “Assim”, assistimos a uma espécie de conclusão do poema, onde há uma oposição entre o Eu e os Outros. Os Outros estão resignados (“Dizem que não vale a pena…”) com a prepotência, com o poder despótico de Deus, que reduz o Homem à sua mesquinhez. O Eu, na sua qualidade de Poeta (e não nos devemos esquecer que ser Poeta é ser um mensageiro, um profeta, um ungido, um inspirado), continua a lutar sozinho, dado que se declarou inimigo de Deus desde que nasceu (“Apenas luto eu, por ser Poeta / E ser teu inimigo desde o berço.” – hipérbole que acentua a sua não conformação com o poder divino sobre os homens. Os Outros submetem-se, não têm a sua dignidade em alto valor, andam caídos pela vida (“Os outros, / Caídos pelos caminhos” – metáfora), razão por que “Nem são homens, nem são nada!” – veja-se novamente a repetição, em epanadiplose, da palavra "nem" e o valor expressivo do pronome indefinido "nada"). Incapazes de assumirem a sua condição de homens, a sua individualidade e independência, os outros são seres desprezíveis, que nem coragem têm para regenerarem o mundo em que vivem. Vão vivendo por viver. Ou melhor, vão vegetando… Não passam, metaforicamente, de uma “…lastimosa ovelha / Tresmalhada…”. Uma ovelha tresmalhada que, docilmente, regressa ao ardil.
 

Escola Secundária Camilo Castelo Branco - V. N. Famalicão, Março de 2004

 

Comentário feito por

Joaquim Matias da Silva
 

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