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UNIVERSO POÉTICO DE ALBERTO CAEIRO
Caeiro surge-nos como um homem de visão ingénua, instintiva, deliciado com a
infinita variedade do espectáculo das sensações (ele mesmo diz que é “O
Argonauta das sensações verdadeiras”).
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Os seus olhos azuis, infantis (como o
testemunha Álvaro de Campos) demoravam-se extasiados em cada coisa, admirando o
que a tornava diferente das outras e diferente dela própria noutro momento. A
flor amarela que vemos de manhã, à tarde já é diversa; o seu próprio amarelo é
diverso – “Nada torna, nada se repete, porque tudo é real”, “E o que vejo a cada
momento / É aquilo que nunca antes eu tinha visto”. Vive de impressões,
sobretudo visuais, e goza em cada impressão o seu conteúdo original. A diferença
para ele é o verdadeiro signo do existir.
Caeiro não admite a realidade dos números
e não quer saber do passado nem de
futuro,
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pois recordar é atraiçoar a Natureza (“A Natureza nunca se
recorda e por isso é bela”).
Proclama-se antimetafisico, é contra a interpretação do real
pela inteligência, porque essa interpretação reduziria as coisas a simples
conceitos vazios. Tal como Cesário, admirado por ele, Caeiro é um poeta do real
objectivo.
Para este poeta do olhar, nem a própria Natureza é um todo, pois não existe como
ideia. É árvores vales, planícies, sol ou lua: meras coisas isoladas e
concretas, que a cada olhar surgem na sua frente. O seu realismo
sensualístico-nominalístico não quer saber de ideias para coisa nenhuma. A
beleza também não existe, apenas há coisas belas. Na realidade há só este valor:
existir. Ter ideias, investigar significados ocultos, sondar mistérios, tudo
isso é "doentio", ''mórbido", porque afasta da vida. Caeiro escarnece os "poetas
místicos", nos quais certamente inclui também os saudosistas. Aquilo que não se
pode interromper, isto é, a corrente da vida, não se deve procurar suspender.
Pensar é supérfluo, o que é preciso é caminhar de olhos abertos.
No seu tom sonoro habitual entra em polémica com os poetas e filósofos que
procuram um sentido oculto "para além" das coisas. "Aprendei a viver!",
grita-lhes repetidamente.
Alberto Caeirro encana, dentro do poetadrama, o pólo objectivo do sistema
heteronímico. No dizer de Ricardo Reis, principal comentador crítico do
“mestre”, a sua poesia tende para o “objectivismo total”, ou “objectivismo
absoluto”. Ele apresenta-se como o poeta das sensações estremes: "A sensação é
tudo e o pensamento é uma doença". Por sensação entende Caeiro a "sensação das
coisas tais como são, sem acrescentar quaisquer elementos do pensamento pessoal,
convenção, sentimento ou qualquer outro lugar da alma" – eliminação de todos os
vestígios da subjectividade (visão fenomenológica – influências da fenomenologia
de Husserl?).
Poeta objectivo, ele define-se antes de mais como um
poeta da Natureza. Pessoa
insiste na inserção da sua poesia dentro do Sensacionismo, uma vez que a sua
base assentaria na substituição do pensamento pela sensação.
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Mas aqui depara-se um problema levantado, entre outros, por Jacinto do Prado
Coelho, ao afirmar que "há dois Caeiros, o poeta e o pensador, sendo o primeiro
que em teoria se desdobra no segundo (...). Caeiro surge como lírico espontâneo,
instintivo, inculto, impessoal e forte como a voz da Terra (...). O certo,
porém, é que é autor de poemas; e começa aqui o paradoxo da sua poesia. Às
palavras procura transmitir Caeiro a inocência, a nudez da sua visão. Daí,
algumas vezes, a simplicidade quase infantil do estilo, as séries paratácticas,
a familiaridade de algumas expressões, as imagens e comparações comezinhas,
realistas, caseiras ou de ar livre. Mas como podia Caeiro exprimir
linguisticamente a infinita variedade, as incontáveis metamorfoses do mundo? |

"Caeiro": Bartolomeu Cid. |
A linguagem situa-nos
numa esfera de abstracções, dá-nos conceitos cómodos,
insinua uma visão esquemática de acordo com os
imperativos práticos da vida (...)".
Caeiro não ignora que em poesia nomear é criar a realidade do que se diz. Cada
poema não é mais do que a recriação da visão primitiva das coisas pela
linguagem. Ora, para se proceder a essa recriação, para adequar a linguagem à
realidade experimentada, é necessária a intervenção da análise, da inteligência.
Não implica também intervenção da inteligência a própria contemplação das coisas
como objectos originais, sempre diferentes? Daí a conclusão de Jacinto do Prado
Coelho: “Em Caeiro, o pensador, o 'raciocinador', suplanta o poeta. Medularmente é um abstractor paradoxalmente inimigo de abstracções. Em regra,
ouvimo-lo argumentando, criticando, não transmitindo sensações, mas discorrendo
sobre sensações”.
Caeiro expõe uma doutrina, filosofa contra a filosofia, a cada instante pensa e
analisa as sensações, o mundo que vê, as posições mentais dos metafísicos.
“Indubitavelmente, Caeiro é sobretudo inteligência”. Os seus poemas representam
a súmula poética de um eu que se confronta com o mundo. A reflexão operada nesse
confronto compreende um momento de auto-inquirição, um processo iniciático (a
"aprendizagem de desaprender"), uma profissão de fé (a “crença na eterna
novidade das coisas” e em que “tudo é como é e assim é que é”) e um programa ("O
essencial é saber ver / saber ver sem estar a pensar").
Ao forjar Caeiro, Pessoa partiu de uma imagem mental, de uma atitude apenas
vivida pela inteligência, que “ilustrou” dando voz a uma "personagem" típica.
Talvez Caeiro seja apenas a personificação ansiosamente esperada de um sonho
ideal até então insatisfeito. Através dele, Pessoa regressa à origem do sentir e
do pensar humanos, como devia ter sido na Idade de Ouro dos homens, a um sentir
e pensar que ele assinala como "pagão" ou "grego'', termo que surge corno
oposição a "cristão" e que é empregue no sentido daquela relação jovial e serena
com a Natureza e com o próprio ser, sem o peso das sensações de culpa e de
expiação cristãs ou pós-cristãs. Estamos, certamente, perante uma tentativa de
Pessoa de regresso ao jardim edénico do instintivo, da felicidade inconsciente,
ao mundo do sonho e, consequentemente, irreal, imaginário.
ALBERTO CAEIRO E CESÁRIO VERDE
Enquanto o Pessoa ortónimo se preocupa intensamente com o idealismo pessimista
de um Antero de Quental, o interesse de Caeiro dirige-se para outro poeta,
educado no parnasianismo, Cesário Verde.
Caeiro relaciona-se com Cesário na medida em que, tal como ele, observa o mundo
com clareza e nitidez e reprodu-lo sem o enevoar. Como ele, Caeiro possui o
olhar de um pintor, que retém os objectos imediatamente nas suas formas e cores.
Também na sua origem e carácter têm muito de comum: ambos são, na verdade,
naturais da capital, mas essencialmente poetas da província, onde se sentiam
mais à vontade do que na cidade. São bem conhecidos os versos de Caeiro a
propósito de Cesário:
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
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Mas ao contrário de Cesário Verde, que não se satisfaz com sensações, Caeiro é
um espírito acentuadamente antimetafísico. Para ele, o pensamento puramente
intelectual é proibido, pois afasta do bom caminho. O espelho, que apenas
reflecte, está mais perto da verdade do que o pensador. As ideias são falsidades
por detrás das quais se encontra o abstracto, não a vida.
Para ele só existe o
que é visível. O acaso domina o seu mundo, mundo esse que respira actualidade e
onde o presente consiste em meros "agoras”, que se anulam uns aos outros. A sua
vida está de tal modo preenchida que o Poeta não carece de recordações. Voltado
inteiramente para o presente, Caeiro não é homem de ambições ou de paixões, segue o seu rebanho humildemente, atento a tudo o que surge no horizonte.
Publicado por
Joaquim Matias da Silva
Bibliografia:
• COELHO, Jacinto do Prado (1987). Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
Lisboa: Editorial Verbo
• GÜNTERT, Georges, (1982). Fernando Pessoa, o Eu Estranho, Lisboa: Publicações
Dom Quixote
• GUSMÃO, Manuel. A Poesia de Alberto Caeiro
• SEABRA, José Augusto. Fernando Pessoa ou o Poetodrama
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