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LI HOJE QUASE DUAS
PÁGINAS (s.d.)
XXVIII

Li hoje quase duas
páginas
Do livro dum poeta
místico,
E ri como quem tem
chorado muito.
Os poetas místicos são
filósofos doentes,
E os filósofos são homens
doidos.
Porque os poetas místicos
dizem que
[as flores sentem
E dizem que as pedras têm
alma
E que os rios têm êxtases
ao luar.
Mas as flores, se
sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem
alma, eram coisas vivas, não eram pedras; "Pessoa
no Martinho": Alberto Cutileiro.
E se os rios tivessem
êxtases ao luar,
Os rios seriam homens
doentes.
É preciso não saber o que
são flores e pedras e rios
Para falar dos
sentimentos deles.
Falar da alma das pedras,
das flores, dos rios,
É falar de si próprio e
dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as
pedras são só pedras,
E que os rios não são
senão rios,
E que as flores são
apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa
dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo
a Natureza por fora;
E não a compreendo por
dentro
Porque a Natureza não tem
dentro;
Senão não era a Natureza.
"O
Guardador de Rebanhos". In Poemas de Alberto Caeiro.
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993.
1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.
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