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Fernando Pessoa

 

ONTEM À TARDE UM HOMEM DAS CIDADES (s.d.)

   

XXXII

 

Ontem à tarde um homem das cidades

Falava à porta da estalagem.

Falava comigo também.

Falava da justiça e da luta para haver justiça

E dos operários que sofrem,

E do trabalho constante, e dos que têm fome,

E dos ricos, que só têm costas para isso.

 

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos

E sorriu com agrado, julgando que eu sentia

O ódio que ele sentia, e a compaixão

Que ele dizia que sentia.

 

(Mas eu mal o estava ouvindo.

Que me importam a mim os homens

E o que sofrem ou supõem que sofrem?

Sejam como eu-não sofrerão.

Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns

                                                          [com os outros,

Quer para fazer bem, quer para fazer mal.

A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.

Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Fernando Pessoa: numa rua da

cidade.

 

 

 

Eu no que estava pensando

Quando o amigo de gente falava

(E isso me comoveu até às lágrimas),

Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos

A esse entardecer

Não parecia os sinos duma capela pequenina

A que fossem à missa as flores e os regatos

E as almas simples como a minha.

 

(Louvado seja Deus que não sou bom,

E tenho o egoísmo natural das flores

E dos rios que seguem o seu caminho

Preocupados sem o saber

Só com o florir e ir correndo.

É essa a única missão no Mundo,

Essa-existir claramente,

E saber fazê-lo sem pensar nisso.)

 

E o homem calara-se, olhando o poente.

Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

 

 

"O Guardador de Rebanhos". In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.

 

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© Joaquim Matias  2008

 

 

 

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