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A LINHA EVOLUTIVA DA  POÉTICA DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

- Características gerais -

 

Poeta sensacionista e, por vezes, escandaloso, Campos é, dos vários heterónimos, aquele em que se descobre uma linha evolutiva, que pode ser balizada em três fases:

 

• fase decadentista;

• fase futurista-sensacionista ou whitmaniana;

• fase independente ou pessoal.

 

A fase decadentista está documentada no poema Qpiário. Este poema foi concebido no decurso de uma viagem ao Oriente e é dedicado a Mário de Sá-Carneiro. Foi escrito de propósito para o n.º 1 de Orpheu em Fevereiro ou Março de 1915, mas Pessoa datou-o de Março de 1913 para documentar, mistificando, uma primeira fase de Campos, ainda em “botão”. Como Sá-Carneiro, também este heterónimo aparece-nos, neste poema, cheio de tédio, enjoado da vida, destruído interiormente.

 

Álvaro de Campos: caricatura de Vasco.

 

Conduzido a este estado por um fatalismo cego, procura evadir-se através do ópio, da morfina. Bem gostaria reagir doutro modo, mas não vê saída possível para a sua situação. Nem nas viagens, nem no trabalho consegue encontrar um lenitivo. Por isso, cheio de tristeza, marginaliza-se. Só lhe resta “fumar a vida”, reduzi-la ao niilismo que ela é de facto, desejar a morte.

 

A segunda fase - futurista, sensacionista ou whitmaniana - decorre sob a influência de Whitman. É a fase da idealização poética industrial, com a sua vitalidade transbordante, o seu amor ao ar livre e ao belo feroz. Condena a literatura decadentista e defende uma estética não aristotélica baseada, não já na ideia de beleza, no conceito de agradável, na inteligência, mas sim na ideia de força, na emotividade individual pela qual o escritor subjuga os outros sem procurar captá-los pela razão. O engenheiro-poeta proclama-se o paladino da civilização industrial, sentindo na presença da máquina um contacto quase sensual, lúbrico, idêntico ao que os românticos experimentaram face à Natureza. Vê na máquina um prolongamento do braço humano, considerando-a uma força mágica através da qual o indivíduo consegue ultrapassar as limitações da sua condição natural, como se ela fosse uma varinha de condão que transforma criaturas normais em super-homens.

 

"Álvaro de Campos": Bartolomeu Cid.

Os poemas que melhor espelham esta fase futurista são a Ode Triunfal (1914) a Ode Marítima (1915), a Saudação a Walt Whitman (1915) e Passagem das Horas (1916). São poemas onde são respeitados os princípios básicos do futurismo enunciados por Marinetti: luta sem quartel às tradições, à cultura feita; exaltação dos instintos guerreiros; apologia de um homem novo, protótipo da insensibilidade e da amoralidade, dominador, livre de todas as peias.

Em França, os principais cultores das fulgurações da mecânica, do automóvel., do paquete, do avião, da respiração fácil e ligeira das locomotivas são Apollinaire, Blaise Cendrars e Valéry Larbaud.

 

Mas é o americano Whitman que acaba por se impor, com a sua confiança cega nas forças divinas do Homem, convidando todos a viverem triunfalmente a vida. Será, aliás, Whitman o grande impulsionador do Campos da 2.ª fase. Com efeito, após a descoberta do futurismo e de Whitman, Campos transforma-se no poeta da vertigem das sensações modernas, da volúpia da imaginação, da energia explosiva. Adopta um verso livre e longo, que sai em catadupas como a água de uma central, com repetições, ressonâncias, interjectivas, abundantes aliterações, anáforas, reiterações apostróficas, repetições vocabulares, construções assindéticas e rimas internas, num ritmo eufórico, desbordante, vagabundo, vertiginoso, a sugerir o ritmo, alucinante e demolidor da técnica actual. Perante um mundo em contínua ebulição e evolução, o poeta assume muitas vezes uma atitude masoquista, uma volúpia sensual de ser objecto e vítima de uma prostituição febril das máquinas, da humanidade, do mundo.

Este mundo, imaginariamente múltiplo e dinâmico, não é o poeta que o escolhe, é-lhe antes determinado. Como modernista, nasceu na modernidade. São-lhe necessários os seus ruídos, o seu barulho, as suas cores, cheiros e choques. Absorvido, excitado, provocado pela vertigem das sensações, é arrastado para fora de si, à distância, cada vez mais longe no tempo e no espaço. Afirma-se como o cantor da Energia e do Progresso.

 

Mas esse estado de euforia, de alucinação, de neurose, foi apenas um reflexo de uma luta interior que tentou vencer por um esforço de imaginação. Depressa volta àquilo que lhe é tão característico: o tédio e a inércia. Segundo Jacinto do Prado Coelho, o Campos whitmaniano cantou a vida “por bebedeira”. “As suas sensações desenfreadas, a sua emotividade pânica jamais passaram da esfera da inteligência. Intelectual, apesar do rótulo de sensacionista, a poesia de Campos é-o também como a de Caeiro. Justifica-a o desejo de afogar o tédio, de suprimir pela embriaguez a dor de viver (...). Campos sentiu como Whitman, para deixar de sentir como Campos”. O seu pretenso dinamismo é narcótico para transpor o “muro da sua lógica”, da sua inteligência “limitadora e gelada”.

 

Essa luta consigo próprio revelou-se, no entanto, infrutífera e a partir de 1916 temos o Campos da terceira fase (a fase independente ou pessoal): inquieto, nauseado, cansado, abúlico, vazio, entediado, abatido, descontente de si e dos outros, árido interiormente. Torna-se o poeta do “tedium vitae”, devaneador, decaído, melancólico, irmão do Pessoa ortónimo no cepticismo, que vai “fumando a vida” e constituindo-se como o único heterónimo que comparticipa da vida extraliterária de Fernando Pessoa. “Eu e o meu companheiro de psiquismo”, diria Pessoa numa carta a Fernando Lopes. Com efeito, a sensibilidade poética de Campos corresponde cada vez mais à verdadeira vida do seu criador. O seu ópio chama-se álcool, a literatura não é tanto a substância como a distracção da sua vida. Nunca esteve no mundo de maneira tão fundamentalmente negativa como nos anos de “Tabacaria”. O “Eu” vazio permanece dentro e nem a arte consegue preencher o seu Ser. Tudo o conduz inexoravelmente para o esgotamento e a resignação.

 

Joaquim Matias da Silva

 

Trabalho-síntese elaborado com base na seguinte bibliografia:

* BARREIROS, A. José (1982). História da Literatura Portuguesa, vol.2, 9.ª ed., Braga: Editora Pax
* COELHO, J. do Prado (1987). Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, 9.ª ed., Lisboa: Editorial
Verbo.
* GÜNTERT, Georges (1982). Fernando Pessoa – O Eu Estranho, Lisboa: Publicações Dom Quixote.
* SEABRA, José Augusto, Fernando Pessoa – ou o Poetodrama.

 

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© Joaquim Matias  2008

 

 

 

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