Em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13
de Janeiro de 1935, e respeitante à génese dos seus
heterónimos, Pessoa diz não lembrar-se do dia e do mês
de nascimento de Ricardo Reis, mas que os tinha apontado algures: 19 de Setembro de 1887.
Educado num colégio jesuíta ("latinista por educação alheia e semi-helenista
por educação própria"), formou-se em Medicina, embora nunca tenha exercido esta
actividade.
Por ser monárquico,
expatriou-se espontaneamente para o Brasil em 1919.
Era de um vago moreno mate,
um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte que Caeiro, mas seco.
A fazer fé nas
palavras do próprio Pessoa, escrevia melhor do que o seu próprio criador, mas
com um purismo que considerava exagerado.
Sobre o nascimento deste heterónimo, diz ainda Pessoa: "O Dr. Ricardo Reis nasceu
dentro da minha alma no dia 20 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite..."
Todavia, a sua actividade literária só tem início a 8 de Março, data que Pessoa
considera ser o "dia triunfal"da sua vida. Se Alberto Caeiro surge
"por pura e inesperada inspiração" e se Campos de "um súbito impulso para
escrever", Reis surge de "uma deliberação abstracta".
Ricardo Reis
(pormenor). Almada Negreiros (1893-1970), 1958. Mural
da Faculdade de Letras de Lisboa.
Condensa o seu pensamento na composição poética clássica - a ode. Aliás, é este o
título genérico que atribui à sua obra - Odes.
Ricardo Reis é o contemplador, situado na época clássica de Catulo, Horácio,
Ovídio, que identifica a eternidade com o instante e faz do tempo o que Caeiro
faz do espaço e da matéria.