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AS GRANDES LINHAS
IDEOLÓGICAS DA POÉTICA DE
REIS
Pessoa apresenta-nos de novo um homem
de carne e osso. A sua esquizofrenia vai tão longe que escreve uma vez que não
ficaria admirado se encontrasse um dia Reis em qualquer parte da América.
Entretanto, faz remontar o aparecimento deste heterónimo a uma reacção sua contra “os
excessos”, especialmente de realização, da arte moderna, em oposição diametral,
por exemplo, ao outro discípulo derivado de Caeiro - Álvaro de Campos.
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E o poeta acrescenta: "Segundo o meu processo de sentir as coisas sem
as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa
reacção momentânea. Quando reparei em que estava
pensando, vi que tinha erguido uma teoria
neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a
bela e calculei interessante se a desenvolvesse
segundo princípios que não adopto nem aceito”.
Neste texto, Fernando Pessoa explicita claramente que embora REIS parta das sensações
faz intervir o pensamento como elemento (subjectivo) determinante da construção
de uma teoria estética (objectiva) que leva ao seu controle. |
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1. REIS E A SUA TEORIA ESTÉTICA
A teoria estética de R. Reis decorre antes de mais do Sensacionismo, mas
sobretudo do paganismo. É com efeito deste movimento que Reis cria o seu
neopaganismo. Declara-se pelo neopaganismo, porque julga que este é a verdadeira
base da nossa civilização, devendo por isso servir de disciplina aos nossos
sentimentos e emoções. Considera, aliás, que só o pagamismo está verdadeiramente
ao serviço da valorização do homem, diferentemente do cristianismo que apregoa
uma doutrina de expiação. Na verdade, Pessoa-Reis recusava o saudosismo com o seu colorido
cristão e o idealismo nostálgico, porque estava muito mais interessado num
significado mais humano da existência. Estudante ainda, Pessoa admirara o humanismo dos
antigos filósofos, estóicos e epicuristas, que serviram como seus modelos,
enquanto defensores de determinadas concepções do mundo: "O que é comum a toda a
moral pagã é que, seja ela qual
for, visa um fim humano, a organização da pessoa humana, não a transcendência
dela. A moral pagã é portanto uma moral de orientação e de disciplina, enquanto
a moral cristã é uma moral de renúncia e de desapego".
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À interiorização cristã de Fernando Pessoa, isto é, ao seu desespero impróprio
de um cristão, responde Ricardo Reis afirmativamente, não na vida, mas na arte.
Nesta perspectiva considera que,
como fenómeno estético, a vida é ainda digna de ser vivida, apreciada e
imortalizada na e pela Arte.
Mas se à moral estóica e à filosofia de Epicuro vai buscar Reis o
leitmotiv que
atravessa, ao nível do conteúdo, a sua poesia, traduzindo-se numa sabedoria de
inanidade e da aceitação de tudo, através de uma indiferença (matizada de um
discreto hedonismo) perante um mundo decadente e hostil, é à poética latina de
Horácio que ele retira a linha condutora, ao nível da "forma de expressão".
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O seu ideal poético é, com efeito, o poeta latino Horácio,
e as suas composições métricas preferidas são a ode
sáfica ou alcaica e o epigrama
conciso e cortante. Como Horácio, Ricardo Reis dirige os seus versos a Lídia, Cloé ou Neera.
A “disciplina” que irá dominar toda a arte poética de Reis também tem na sua
génese as morais epicuristas (''a moral epicurista é no fundo a tendência para a
felicidade pela harmonização de todas as faculdades humanas") e estóica (o auge
do estoicismo reside na ''disciplina de
si mesmo'' e na ''dedicação ao próprio destino"). No caso do poeta, tal
disciplina consistira na harmonização e na coordenação da linguagem, visando uma
finalidade específica: a criação do poema. Na opinião de Reis a “disciplina” age
precisamente ao nível do ritmo. A emoção poética, sendo mais intensa do que a
que está na origem da prosa, exige uma disciplina mais rigorosa do ritmo: "como
o estado mental em que a poesia se forma é, deveras, mais emotivo que aqueles em
que naturalmente se forma a prosa, há mister que ao estado poético se aplique
uma disciplina mais dura que aquela que se emprega no estado prosaico da mente".
E Reis continua a afirmar: “o pensamento se for alto e régio atrairá a si,
inexoravelmente, enquanto significado do poema, a sua expressão (o seu
significante), ou seja, o “conteúdo” poético terá desde logo em si uma forma,
que irá determinar por seu turno a forma de expressão; a "junção equilibrada da
ideia e
da emoção transmitir-se-á, numa harmonia preestabelecida, à frase e ao ritmo".
"A poesia difere da prosa apenas em que escolhe um novo meio exterior, além da
palavra, para projectar a ideia em palavras através da emoção. Esse meio é o
ritmo, a rima, a estrofe.”
Em suma, Reis parte sempre da "forma do conteúdo" para a "forma de expressão''.
O ritmo existe primeiro que tudo na ideia e somente em consequência nas
palavras: ''a poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com
palavras. A emoção não deve entrar na poesia senão como elemento dispositivo do
ritmo (...) e esse ritmo, quando é perfeito, deve antes surgir da ideia que da
palavra ".
Mas qual o elo de ligação entre o ritmo das ideias e o ritmo das palavras, na
linguagem poética de Reis? Primeiramente, a sintaxe (a "frase", segundo o poeta)
e depois a articulação das frases (dos versos), a '”estrofe”, cuja ordenação
configura o poema.
Relativamente a Caeiro,
que pode ser considerado o grau zero da escrita, Reis representa o poeta do segundo
grau. A sua linguagem poética é a artificialidade por excelência. Ele será o
poeta que, no dizer do Mestre, "trabalhou nos seus versos / Como um carpinteiro
nas tábuas!..." e que põe "Verso sobre verso, como quem constrói um muro".
Um dos seus processos mais típicos que lhe permite elevar a frase à "altura" do
pensamento é aproximá-la do padrão clássico latino (o modelo sintáctico que
melhor convirá à sua poética), que consiste na mudança da ordem sintagmática normal,
recorrendo, pois, frequentemente ao hipérbato. Essa alteração da ordem natural
das palavras repercute-se particularmente nos acentos rítmicos. À primeira vista
parece estarmos perante um artifício rebuscado, como um fim em si mesmo, mas a
sua função é precisamente a de conotar a "elevação", a "nobreza", o
"classicismo" da sua linguagem poética.
Através dos mais finos doseamentos sonoros (aliterações, rimas interiores,
repetições intensivas), Reis obtém uma linguagem musical, fluida, condensada até
à perfeição, ganhando assim um sentido mais profundo. O ritmo musical, que se
submete ao linguístico, determina o tempo, o movimento e o valor sentimental do
mundo linguístico criado.
Como Edgar Allan Poë e Baudelaire, Pessoa prossegue, através deste heterónimo, a
negação da doutrina realista, ao encarar a arte como acto puramente intelectual,
espiritual, impessoalizado, autónomo do homem. Reis define a poesia como uma
impressão intelectualizada, ou uma ideia transformada em emoção, comunicada a
outrem, por meio de um ritmo.
Influenciado pelos autores atrás referidos, Fernando Pessoa tentou com Reis uma poesia
que ultrapassasse o abismo entre o pensamento e o mundo, visto que tinha
esperança no efeito reconciliador do ritmo contido na música da linguagem. De
todos os heterónimos, Ricardo Reis é o que leva mais longe as novas possibilidades de
uma arte da linguagem autónoma e autocrática. Na arte se realizaria a ansiedade
do homem pela sua própria despersonalização e superpersonalização e pela sua
salvação.
2. REIS VERSUS CAEIRO
Ricardo Reis é o heterónimo que mais persiste e
que mais se ajusta ao eu pessoano
amadurecido. É aquele que revela mais sinceridade, rejeitando mistificações, e o
que é mais formalista, com mais laboração artística, com poesia mais pura na
forma e nas imagens.
Contrariamente a Caeiro - homem ingénuo, aberto, expansivo, espontâneo, natural,
contente por natureza, que se deixa levar alegremente pelo prazer de ver e de
sentir-se existir no reino das coisas -, Reis é um homem que se faz como faz
laboriosamente o seu estilo, que experimenta a dor da nossa miséria estrutural,
que sofre e vive obcecado com as ameaças permanentes e inexoráveis do Fatum, da
Velhice e da Morte. Como contrapartida a estes desígnios maléficos, Reis parte à
conquista do prazer relativo, fugaz, efémero de modo a suavizar e a iludir o
destino madrasto.
Em Caeiro, há a exteriorização do sujeito, pois o primado é do objecto; pelo
contrário, neste "pagão da decadência", austero e equilibrado, a primazia é do
sujeito, havendo pois lugar a uma interiorização.
O seu conceito de vida terrena e extraterrena assemelha-se ao homérico. No
entanto, ele é um pagão que duvida (não é ele discípulo de Caeiro e condiscípulo
de Pessoa?) para quem talvez até os próprios deuses não conheçam a verdade.
Acima deles e de nós está o Destino implacável. E Reis sofre profundamente com a
ideia de que o Fado dita os passos da nossa breve carreira, ao fim da qual se
encontra a Morte. Os homens não passam de moribundos continuamente ameaçados
pelas tesouras de Átropos.
Amargurado, Reis procura na sabedoria dos antigos um lenitivo para as suas
dores. Os gregos também tinham sofrido bastante perante a constatação da
efemeridade das coisas. No entanto, deram a volta por cima, ao optarem por
aceitar com altivez o destino que lhes era imposto. Do mesmo modo, Reis prefere
enfrentar um presente precário a um futuro incerto. Às
vezes deixa-se tentar pelos poderes opiáceos da inconsciência, mas depressa
regressa ao estado de consciência. Prefere encarar o destino de frente,
de forma lúcida e
solene. E como a sua filosofia de vida assenta num misto de epicurismo e de estoicismo,
propõe-se e propõe-nos um duro esforço de autodisciplina.
O primeiro objectivo é a submissão voluntária a um destino involuntário, que
deste modo será cumprido altivamente, sem um queixume. O segundo objectivo é
evitar as ciladas da Fortuna, depurando a alma de instintos e paixões que nos
prendam ao transitório, alienando a nossa vida. E como os epicuristas, também
Reis defende que a ataraxia é a primeira condição de felicidade.
Assim, a felicidade consiste em gozar ao de leve os "instantes volúveis",
buscando "o mínimo de dor ou gozo, colhendo as flores para logo as largar das
mãos, iludindo o curso dos dias com promessas, vagamente distraídos, mas
distraídos por cálculo, por "malícia". Como as árvores deveremos obedecer ao
ritmo das estações.
3. REIS E HORÁCIO
O ideal poético de Reis é,
como já foi dito, Horácio, o poeta que temperou com a ética estóica a
doutrina de Epicuro. Tanto Ricardo Reis como Horácio fundamentam a sua filosofia
prática na reflexão sobre o fluir do tempo, a inanidade dos bens terrenos, os
enganos da Fortuna e da Morte.
Ambos descrevem em pequenos apontamentos o Inverno e o regresso da Primavera,
evocam o dançar cadenciado das ninfas, lembram a brevidade da existência humana,
aconselham a não querer desvendar o futuro, sentem acerbamente a fuga inelutável
das horas. Ambos pregam a moderação nos desejos e nos prazeres, as delícias do
viver campestre, a vantagem em iludir o sofrimento com o vinho e o espectáculo
das flores, em enfrentar o infortúnio com um sorriso tranquilo e descuidado.
As diferenças entre ambos situam-se ao nível do erotismo e das vivências
humanas. Em Reis, o erotismo é frouxo, pois dirige apelos a mulheres fictícias.
Em oposição a Horácio, que pôs na poesia muito da sua experiência humana (cantou
o vinho que bebeu, as mulheres que amou, os campos onde viveu e os deuses em que
ainda acreditava), em Reis, poeta derivado, tudo
é divertimento estético ou figuração simbólica, horacionismo intencional. Ele é
a expressão abstracta de um modo de conceber e sentir a vida, um contemplativo
extremamente pobre de calor afectivo, sem amizades que transpareçam na poesia,
sem capacidade para o amor autêntico. Existe apenas em função do problema
crucial de remediar o sentimento da fraqueza humana e da inutilidade de agir por
meio de uma arte de viver que permita chegar à morte de mãos vazias e com um
mínimo de sofrimento.
Publicado por
Joaquim Matias da Silva
Síntese elaborada com base na seguinte bibliografia:
• COELHO, J. do Prado (1987). Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
9.ª ed., Lisboa: Editorial Verbo.
• GÜNTERT, Georges (1982). Fernando Pessoa – O Eu Estranho, Lisboa:
Publicações Dom Quixote.
• SEABRA, José Augusto, Fernando Pessoa – ou o Poetodrama.
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