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Fernando Pessoa

 

 

SÁBIO É O QUE SE CONTENTA COM O ESPECTÁCULO DO MUNDO

(19-6-1914)
 

 

 

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
            E ao beber nem recorda
            Que já bebeu na vida,
            Para quem tudo é novo
            E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúveis,
            Ele sabe que a vida
            Passa por ele e tanto
            Corta a flor como a ele
            De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
            Que o seu sabor orgíaco
            Apague o gosto às horas,
            Como a uma voz chorando
            O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
            E apenas desejando
            Num desejo mal tido
            Que a abominável onda
            O não molhe tão cedo.

 

 

Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).

 

 

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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