Um artifício literário ou uma tentativa, ainda que
frustrada, de facilitar a leitura de uma obra tão
variada e complexa?
Aproximação aos futuristas europeus, que pretendem
estabelecer uma "relação múltipla" com a realidade e a
arte, uma arte que se quer cosmopolita?
Factores psíquicossomáticos, entre os quais se podem
incluir a histeroneurastenia, e a consequente tendência
orgânica para a simulação, a despersonalização, assim
como os cromossomas de "loucura" herdados de familiares
maternos e a mediunidade?
Factores emocionais, como fortes abalos na
infância (morte do pai e do irmão, segundas
núpcias contraídas por sua mãe, ausência da
pátria e dos amigos), que o terão levado a
fechar-se na sua concha e a viver em solidão,
criando, então, "amigos" fictícios?
Factores culturais, tais como: o biliguismo, a
assimilação de culturas diferentes - inglesa e
lusíada; leituras heterogéneas - de autores
clássicos e
românticos ingleses (Milton, Byron, Shelley, Tennyson, Pope, Edgar
Poe, Thomas Carlyle...); os simbolistas franceses; os
escritores portugueses Garrett, Antero, Cesário Verde,
António Nobre, Pascoaes; livros de psiquiatria,
teosofismo e esoterismo; filósofos variados -
Schopenhauer, Nietzche, Husserl, Wittgenstein...?
Expressão de toda a sua riqueza, complexidade e até
contradição interiores, como símbolo da cisão
psicológica e espiritual da alma humana, conflitualmente
dividida em estratos sobrepostos?
Uma possível concretização da ideia
que ele tinha do ser-se português -
o bom
português é várias pessoas?
Uma possível solução para a pergunta angustiante que se
dissemina ao longo da sua obra: Quem é eu ?
O seu espírito megalómano - como não havia, ou rareavam,
em Portugal, e mesmo na Europa, espíritos superiores com
quem trocar opiniões e filosofias de vida, era preciso
inventá-los?
O facto de se sentir um poeta de "tipo superior" e,
exactamente por isso, impulsionado para a
despersonalização, para um "drama em gente", na esteira
de Shakespeare?