Laicismo
Francisco Sarsfield Cabral
A polémica sobre os crucifixos nas escolas tem
passado ao lado do essencial a liberdade de ensino.
o Estado agnóstico, deveria apoiar a educação dos filhos de quem não pode pagar
colégios, incluindo os que preferem uma educação orientada por valores
religiosos. Mas adiante.
A Igreja portuguesa,
a francesa, vive hoje confortável no regime de separação do Estado, que tanta
indignação provocou há um século.
parece ainda existir um ou outro nostálgico do tempo em que o catolicismo era a
religião oficial do Estado, sendo então as outras confissões proibidas no espaço
público.
a polémica dos crucifixos evidenciou,
,
a vontade de alguns de reduzirem a religião à esfera estritamente privada. Este
laicismo - que se distingue de uma saudável laicidade do Estado - está errado
por duas razões.
,
porque os símbolos católicos têm em Portugal uma dimensão histórica, sociológica
e cultural inegável. Faria sentido,
,
acabar com o feriado do Natal?
tapar as fachadas das igrejas, para não serem vistas? Não,
,
como seria absurdo eliminar em Israel feriados da religião judaica. Aliás, ainda
não vi reclamar a eliminação de símbolos maçónicos em estátuas e monumentos nas
nossas ruas, por ofenderem os que não partilham tais convicções. E os
crucifixos, ofendem alguém? Haja bom senso.
,
é antidemocrático o laicismo que não tolera qualquer sinal religioso no espaço
público. Cito o filósofo agnóstico Habermas "A neutralidade ideológica do poder
do Estado, que garante idênticas liberdades éticas a todos os cidadãos, é
incompatível com a generalização política de uma mundividência laica".
,
sob a capa da neutralidade não se pode impor a todos, na prática, uma
determinada concepção da vida e dos valores.
Diário de Notícias,
5 de Dezembro de 2005