Memorial do Convento
apresenta-se desde logo como uma crítica cheia
de ironia e sarcasmo à opulência do Rei e de
alguns nobres, por oposição à extrema pobreza do
povo. José Saramago apresenta uma caricatura da
sociedade portuguesa da época de D. João V,
revelando-se antimonárquico e com um humanismo
fechado à transcendência, bastante angustiado e
pessimista. Nas questões religiosas, não só usa
a ironia, como também se revela frontal nas
apreciações à
Inquisição e aos santos a ela
ligados como S. Domingos e Santo Inácio.
Objecto de uma sátira cáustica são também:
* Os frades e as freiras devassos, com
referência especial para a madre Paula de
Odivelas, a amante predilecta do rei;
* O adultério e a corrupção dos costumes;
* Os nobres, que vivem no fausto e na
ostentação;
* Os príncipes, como D. Francisco, que se
entretém a “espingardear” os marinheiros ou a
assediar a cunhada;
* O rei, por obrigar todo o homem válido a
trabalhar no convento;
* As pessoas que dançam em volta das fogueiras
nos autos-de-fé, onde se queimam os condenados,
ou que sadicamente assistem às touradas e às autoflagelações, nas procissões.
Por isso, Memorial do Convento
ultrapassa o
conceito de romance histórico para se constituir
como um texto que problematiza a História e que,
metaforicamente, procura transmitir uma visão do
mundo do século XX. Quando, como leitores,
assistimos ao desvario megalómano do rei e ao
imenso sofrimento do povo, somos induzidos a
fazer inevitáveis comparações com situações de
injustiças dos nossos dias.