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MEMORIAL DO CONVENTO - Contextualização

 

 

REINADO DE D. JOÃO V

 

 

Este monarca nasce em Lisboa, em 22 de Outubro de 1689, recebendo o nome de João Francisco António Bento Bernardo. É aclamado rei a 1 de Janeiro de 1707, casando, a 9 de Junho de 1708, com D. Maria Ana de Áustria. Faleceu a 31 de Julho de 1750.

 

 

 

 

ACONTECIMENTOS MILITARES:

 

* BATALHA DE MATAPÃO

 

O Papa pediu o auxílio dos reis cristãos no combate aos Turcos que ameaçavam a Europa. Os portugueses responderam ao apelo e a armada portuguesa derrotou a esquadra turca na batalha de Matapão, cobrindo-se de glória. O Papa concedeu, então, o título de «Fidelíssimo» a D. João V e aos seus sucessores.

 

* GUERRA DA SUCESSÃO DE ESPANHA (1701-1714), O TRATADO DE UTREQUE (1713) E A PAZ DE RASTADT

 

Guerra de Sucessão de Espanha

 

Carlos II de Navarra (território do Norte de Espanha e Sudoeste de França) legou o trono ao duque de Anjou. Um mês depois do testamento, morria e a Espanha aclamou rei o duque sob o nome de Filipe V. Toda a Europa o reconheceu, excepto o imperador germânico, D. José I, que reclamava o trono para o filho.

Luís XIV, rei de França, aceitou a herança legada ao neto, embora os seus planos sobre o caso espanhol tivessem sido outros. Seguidamente, procede como se fosse também rei de Espanha: ocupa os Países-Baixos espanhóis com tropas francesas; concede aos comerciantes franceses o monopólio de comércio com a América espanhola; admite a possibilidade de Espanha e França se unirem um dia numa só coroa.

A atitude de Luís XIV originou a coligação de vários países contra a França, pondo-se ao lado do imperador germânico (1701, com a Grande Aliança de Haia) a Inglaterra, a Holanda, a Suécia, a Dinamarca e os outros príncipes alemães (excepto o da Baviera). Pouco depois, juntavam-se-lhes Portugal e Sabóia, que inicialmente haviam patrocinado o duque de Anjou. Como a Espanha se encontrava em decadência, a França viu-se na necessidade de defender não só o seu próprio território mas também os domínios da aliada. Após uma ofensiva e algumas vitórias, começou a sofrer duros reveses, a partir de 1704, pelo que teve de abandonar os Países-Baixos. Entretanto, a Inglaterra apoderou-se de Gibraltar e da ilha Minorca.
 

A intervenção portuguesa.

Portugal, embora de princípio tomasse o partido do duque de Anjou (da França, portanto), passou, depois, a aliado da Inglaterra e, por tratado feito entre as duas nações (1703), a defender o arquiduque Carlos.

Desta atitude resultou o seguinte:

- O exército franco-espanhol invadiu Portugal pela Beira e Alentejo (1704), mas as tropas portuguesas, comandadas pelo marquês de Minas, não só o repeliram como até, perseguindo-o na própria Espanha, entraram em Madrid e chegaram a aclamar o arquiduque Carlos, sob o nome de Carlos III (1706), o qual viera da Áustria para Lisboa e aí embarcara num navio inglês para a Catalunha.

 

-  No ano seguinte, a França venceu a batalha de Almança, de que resultou a dizimação de um batalhão português e a expulsão do arquiduque Carlos.

Apesar dessa vitória, Luís XIV, devido à situação interna em que se debatia a França (revolta dos protestantes das Cevenas contra a revogação do Edicto de Nantes, depauperamento financeiro e miséria), pediu a paz, que não foi assinada pelo facto de os adversários apresentarem pretensões exageradas - por uma trégua de dois meses, o rei francês teria de ceder territórios e colaborar na eleição do arquiduque Carlos. Continuada a guerra, a França obteve novas vitórias.

 

Tratado de Utreque (1713)

 

Neste meio tempo, morreu o imperador José I (filho primogénito e sucessor de Leopoldo I) e subiu ao trono imperial o arquiduque Carlos, sob o título de Carlos VI (1711).

A Inglaterra e a Holanda, se não queriam o poderio francês também não queriam o poderio alemão. E, como o poderio francês já ficara muito abalado com as várias guerras, propuseram a paz.

Luís XIV anuiu. Os países beligerantes, excepto a Alemanha, assinaram, então, na cidade holandesa de Utreque, o Tratado de Utreque, com as seguintes cláusulas:

- Filipe V (duque de Anjou) ficou rei de Espanha e das colónias espanholas, dando início à dinastia dos Bourbons, e renunciou a todos os direitos ao trono francês;

- O duque de Sabóia é proclamado rei da Sicília;

- A Inglaterra, além de benefícios comerciais na América espanhola, recebeu Gibraltar e a ilha Minorca, cedidas pela Espanha; a Terra Nova, a Nova Escócia e a bala de Hudson, cedidas pela França;

- Portugal obteve o território sul-americano entre os rios Amazonas e Aiapoc - foi, deste modo, reconhecido o domínio de Portugal sobre a Amazónia e foi restituída, pela Espanha, a colónia do Sacramento, no Sul do Brasil.
 

Paz de Rastadt (1714)

Carlos VI, imperador da Alemanha, continuou a guerra mas, um ano depois, assinava a Paz de Rastadt, nestes termos:

- A França conservava os territórios conquistados, nomeadamente a Alsácia;

- o Sacro Império Alemão recebia os Países-Baixos, o Milanado, Nápoles e a Sardenha (territórios arrebatados à Espanha).

 

Terminou assim a Guerra da Sucessão de Espanha. A França perdeu a preponderância militar e diplomática. A Holanda enfraqueceu política e economicamente. Em boa verdade, só um país lucrou: a Inglaterra. Além dos territórios adquiridos, beneficiou no campo económico, adquiriu prestígio e proveio-lhe da guerra também a supremacia marítima e colonial obtida mais tarde.

 

ECONOMIA e EMIGRAÇÃO:

 

* AS MINAS DO BRASIL - Extracção de ouro e de diamantes, o imposto dos «quintos» e a emigração

 

As minas de ouro e pedras preciosas descobertas no interior do Brasil, por acção dos bandeirantes, atingiram, com D. João V, uma riqueza incalculável, contribuindo para o desenvolvimento do país.

 

Os bandeirantes - ilustração.

Entretanto, a coroa lançou o imposto dos «quintos do Brasil», tributo que correspondia a 20% dos diamantes extraídos no Brasil pelos bandeirantes, assim chamados por serem exploradores dos séculos XVII e XVIII que, no decurso das suas  expedições (de autêntica guerra), hasteavam a bandeira (portuguesa). Essas expedições levavam-nos a irromper pela selva virgem brasileira, impulsionados pelo desejo  de  capturar  índios,  os   quais   eram,

depois, vendidos como escravos e achar ouro ou pedras preciosas. Foram, aliás, esses expedicionários, fundadores de numerosos postos, hoje vilas ou cidades, que colaboraram com as suas viagens para a formação do Brasil moderno.

 

A exploração da riqueza brasileira foi deixada a cargo da iniciativa privada, tendo a coroa estabelecido um imposto de 20 por cento sobre o ouro obtido, tributo esse vulgarmente designado por «quintos do Brasil». Outras formas de tributação foram tentadas a partir de 1735, mas voltou-se em 1750 ao método inicial. Um dos problemas do Estado foi a constante fuga ao imposto, pois naquelas terras vastas, distantes e mal conhecidas tornava-se difícil o funcionamento eficaz da máquina fiscal e o controlo dos funcionários.

 

Em 1699, fundearam em Lisboa os navios vindos do Rio de Janeiro que trouxeram um primeiro carregamento de aproximadamente 500 quilos. As quantidades de ouro não cessaram de aumentar, a partir de então, e atingiram, somados todos os anos anteriores, um máximo de 25 mil quilos em 1720. Em 1721, o imposto dos «quintos» do ouro cobrado pela Coroa rendeu um pouco mais de 33 arrobas de ouro e, no ano seguinte, foi fixado na computação global de 32 arrobas (sistema de capitação). Em 1724, voltou-se ao sistema dos «quintos», cobrados por intermédio das Casas de Fundição e da Moeda criadas no Brasil, as quais recebiam o ouro em pó, restituindo-o em barras ou amoedado, depois de deduzido o quinto. Em 1731, o imposto assim cobrado directamente pela Coroa rendeu, só na Capitania de Minas Gerais, 87 arrobas. Porém, a receita dos «quintos» era muito inferior à que realmente se devia cobrar, pois a sonegação e o contrabando desse metal valioso desviavam grandes somas à acção do fisco.

 

Segundo Lúcio de Azevedo, in Épocas de Portugal Económico, 2.ª ed., págs. 369-370, durante 44 anos do reinado de D. João V (1706-1750), este deve ter recebido do Brasil cerca de 107 milhões de cruzados (incluindo 4,5 milhões de diamantes), dos quais 36 milhões nos primeiros vinte anos e 71 milhões nos seguintes vinte e quatro anos - o que dá, na época mais próspera, uma média anual de 3 milhões de cruzados, quantia que, embora longe de fabulosa, era de vulto para aquele tempo.

 

Entrementes, uma consequência da exploração do ouro foi o desenvolvimento de um fluxo migratório de portugueses para o Brasil, onde esperavam encontrar a riqueza que na metrópole lhes escapava. Daí as várias leis publicadas por D. João V para suster essa corrente de emigração que aumentava o despovoamento dos campos. Mas apesar da publicação dessas várias leis proibitivas, nada conseguiu conter a torrente emigratória na miragem do ouro, calculando-se que, em menos de 50 anos, se transferiram para o Brasil cerca de 800 000 pessoas, razão por que esta colónia portuguesa tenha beneficiado de um desenvolvimento considerável, com a fixação de novas populações e o incremento das actividades comerciais.

 

* AS RIQUEZAS QUE CHEGAVAM AO PAÍS E A SUA DISSIPAÇÃO

 

À abundância do metal precioso vieram juntar-se, no reinado de D. João V,  as receitas do comércio de açúcar, tabaco, pau-brasil ou escravos, assim como da exportação de vinho do Porto para Inglaterra.

 

Mas a falta de organização económica do país levou à dissipação das riquezas que chegavam ao país ou que aqui eram geradas (ouro, tabaco, açúcar, pau-brasil, sal , vinho, comércio de escravos, especiarias do oriente…) e  aos subsequentes aumento das desigualdades sociais e atraso de Portugal. A este propósito, o embaixador francês em Lisboa escrevia, em 1715, ao seu Governo, apontando como razão da falta de dinheiro em Portugal a desordem na administração dos rendimentos públicos e afirmando que D. João V vivia em penúria, porque os seus réditos «passavam por muitos canais subterrâneos», chegando às mãos do rei apenas uma quota-parte do que ele devia receber - ontem, como hoje, ousamos nós acrescentar...

 

De qualquer dos modos, a situação económica portuguesa beneficiou em grande escala das remessas de ouro que começaram a chegar do Brasil a partir de finais do século XVII.

Perante a crise da agricultura, a ineficácia das iniciativas industriais e a dependência das importações, foi o ouro da colónia sul-americana que salvou as finanças públicas e permitiu a afirmação do país no contexto internacional.

 

Enquanto durou a fonte de riqueza brasileira, ou seja, principalmente durante o reinado de D. João V, foi possível enfrentar as importantes carências do país, através da importação de toda a espécie de produtos agrícolas e industriais, facto que despoletou o acentuar da dependência em relação ao exterior, com destaque para a Inglaterra. Para agravar a situação ainda mais, vastos meios financeiros foram delapidados, no seguimento de uma política de opulência do «rei magnânimo», empenhado no fausto da corte, nas tenças pagas à nobreza e ao alto clero, nas embaixadas e na construção de esplêndidos monumentos.

 

CULTURA:

 

OS ESTRANGEIRADOS

 

Os Estrangeirados eram intelectuais que, pelos mais diversos motivos (perseguições políticas, falta de oportunidades no país ou necessidade de aperfeiçoar a sua formação académica), iam para o estrangeiro. Quando regressavam, a influência exercida por eles no país, sobretudo ao nível do ensino, em particular, e da cultura, em geral, era enorme, pois vinham com ideias mais modernas e arejadas. Na época em questão, merecem destaque especial: Luís António Verney, D. Luís da Cunha, Alexandre de Gusmão e Francisco Xavier de Oliveira – O Cavaleiro de Oliveira.

 

A RELIGIÃO E A POLÍTICA

 

A INQUISIÇÃO E O REGIME ABSOLUTISTA

 

A Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício e o regime absolutista e repressivo instalado. A repressão fez-se sentir desde 1534 (D. João III pediu ao Papa para organizar a Inquisição em Portugal), tendo atingido sobretudo os judeus, os cristãos-novos e as pessoas acusadas de prática de feitiçaria , de magia, de crença sebastianista, de superstição ou de corrupção de costumes. O primeiro auto-de-fé aconteceu em 1541 e as execuções só terminaram no tempo do Marquês de Pombal. Em 1821, o Tribunal do Santo Ofício é extinto em Portugal.

 

Ao longo dos séculos, a acção do Tribunal do Santo Ofício ultrapassou em muito o seu objectivo original. Apresentada como fundamental para manter a unidade dos cristãos, impedindo a radicação do protestantismo, foi, frequentemente, utilizada como órgão de totalitarismo político, discriminação racial e social. Com efeito, converteu-se, muitas vezes, em instrumento do poder político.

 

Cena de um auto-de-fé, em frente ao Terreiro do Paço.

O Marquês de Pombal utilizou-a, por exemplo, como instrumento da sua política absolutista.

 

AS INVENÇÕES E AS OBRAS PÚBLICAS:

 

* A PASSAROLA

 

O padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724), nascido no Brasil, tornou-se célebre pela suposta invenção de um engenho voador denominado "Passarola».

 

No dia 8 de Agosto de 1709, perante a corte de D. João V, Gusmão apresentou um pequeno balão de papel, cheio de ar quente, que se elevou a cerca de quatro metros de altura, para admiração dos presentes. Em experiência posterior, o jesuíta teria lançado um enorme balão do Castelo de S. Jorge até ao Terreiro do Paço, talvez tripulado por ele próprio, embora não existam provas que confirmem a façanha.

 

Este original precursor do voo em balão acabou por ser perseguido pela Inquisição e terminou os seus dias refugiado em Espanha, onde terá morrido em Toledo, conforme informação dada a Baltasar e Blimunda, em Memorial do Convento.

 

* A CONSTRUÇÃO DO CONVENTO DE MAFRA

 

Exterior do convento

 

A bênção da primeira pedra teve lugar em 17 de Novembro de 1717 e as obras  de todo o complexo só foram concluídas em 1770. A construção do monumento foi decidida pelo  monarca em cumprimento de um voto que fizera, aquando do nascimento do seu primeiro filho.

Exterior da basílica

 

De um projecto inicial de reduzidas dimensões, o edifício acabou por atingir cerca de 40 mil metros quadrados, incluindo um palácio real, um convento para 300 monges e uma basílica, esta última tendo a sua sagração em 22 de Outubro de 1730, no dia do aniversário do monarca. Os trabalhos de construção foram levados a cabo por cerca de 45 mil homens recrutados à força em todo o país e levados para Mafra, onde laboraram sob a vigilância de sete mil soldados. A obra gigantesca obrigou ainda à importação de estátuas, madeiras, paramentos, carrilhões, assim como à participação de pintores e escultores franceses e italianos.

Uma das torres dos carrilhões da basílica do Convento deMafra

 

 

 

Um badalo em bronze de um sino do Convento de Mafra

Os carrilhões do Convento de Mafra, um em cada torre, são dos mais antigos e dos maiores do mundo. Foram fundidos na Bélgica em 1730: o da Torre Norte saiu das oficinas de Nicolau Levache, em Liège, e o da Torre Sul das oficinas de Willelm Witlockx, em Antuérpia. Ambos de grande dimensão e alta qualidade, partem de um Fá 0, um sino em bronze com cerca de 11 000 quilos! Depois seguem-se os restantes sinos, em escala cromática, perfazendo o da Torre Norte 49 e o da Torre Sul 53. Esta última torre é a que está presentemente operacional, oferecendo óptimos recitais de música, sobretudo aos domingos à tarde.

 

No seu conjunto, os sinos de cada carrilhão pesam mais de 200 toneladas.

D. João V ficou orgulhoso ao ver colocado o maior sino da Europa em Mafra, conforme nos conta Oliveira Martins: "D. João V triunfava. Não tanto, afinal, por ter levantado Mafra; mas porque via nas torres o seu enlevo, a sua paixão, o objecto dos seus cuidados - um sino que pesava 800 arrobas!Quando lhe anunciaram estar suspenso, deu ao alvissareiro o cargo de sineiro-mor, com tença de cem mil réis. O sino dobrava agora solenemente, e cada golpe vibrava no coração do rei como uma nota de alegria e de orgulho. E o sino continuava, batia! E esses golpes repetidos parecem à história os soluços de um povo inteiro, faminto e miserável, arrastado      por   um   

doido    numa procissão   grotescamente   fúnebre.  Em toda a Europa não havia um sino assim.»

(Oliveira Martins, História de Portugal.)

 

Joaquim Matias da Silva

 

Ver, aqui, informações mais completas sobre este reinado.

 

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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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