O padre Bartolomeu, personagem real da História, forma
com Baltasar e Blimunda o núcleo mágico e trágico do
romance. Vive com uma obsessão: construir a máquina de
voar, o que o leva a encetar uma investigação científica
na Holanda.
Representa as novas ideias que causavam estranheza na
inculta sociedade portuguesa. Estrangeirado, homem
curioso e grande orador sacro (a sua fama aproxima-o do
Pe. António Vieira), deixa transparecer, na obra, uma
profunda crise de fé a que as leituras
diversificadas e a postura “antidogmática” não
serão alheias, numa busca incessante de saber.
Efectivamente, como cientista que
é, ignora os fanatismos religiosos da época e questiona
todos os princípios dogmáticos da Igreja.
O seu sonho de
voar e as suas inabaláveis certezas científicas revelam
orgulho, "ambição de elevar-se um dia no ar, onde até
agora só subiram Cristo, a Virgem e alguns santos
eleitos" e tornam-no persona non grata para a
Inquisição
que o acusa de bruxaria, obrigando-o a fugir para
Espanha (morrerá “louco” em Toledo) e a deixar o seu
sonho/projecto nas mãos de Baltasar.
A sua obsessão de voar (pejorativamente era conhecido
como o “Padre Voador”) domina-o de tal forma que ele não
se inibe de integrar no seu projecto um casal não
abençoado pela Igreja e de aceitar e usufruir das
capacidades heréticas de Blimunda, que farão a passarola
voar.
A passarola, símbolo da concretização do sonho de um
visionário, funciona de uma forma antagónica ao longo da
narrativa: é ela que une Baltasar, Blimunda e o padre
Bartolomeu, mas também é ela que vai acabar por
separá-los.