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MEMORIAL DO CONVENTO - PERSONAGENS

 

POVO

 

Espoliado, trabalhador, ignorante, rude, às vezes violento e insensível, o povo atravessa toda a narrativa, constituindo-se como o verdadeiro protagonista de Memorial do Convento.

 

A nomeação de trabalhadores como Francisco Marques, José Pequeno, Joaquim da Rocha, Manuel Milho, João Anes e Julião Mau-Tempo, constituiu-se, aliás, como uma espécie de homenagem apoteótica aos trabalhadores sacrificados e oprimidos.

 

João Elvas, um outro elemento do povo, ex-soldado, afastado do exército por falta de serventia, afirma-se como o representante dos sem-abrigo, da mendicidade, numa cidade onde imperam as desigualdades sociais.

 

Figuras ficcionais e impregnadas de uma forte carga simbólica, mas integrando também a classe popular, são Baltasar e Blimunda e respectivas famílias.

O povo é, aliás, o leitmotiv, o pretexto, para a crítica mordaz e o olhar cáustico do narrador, que enfatiza a exploração a que foram submetidos milhares de portugueses para alimentar o sonho e a megalomania de um rei.

 

Muitas vezes, elementos do povo e respectivos comportamentos, valores e atitudes são colocados em confronto com os comportamentos, valores e atitudes do rei e dos senhores do poder, incluindo o poder eclesiástico. Veja-se, a título exemplificativo, a comparação da união de Baltasar e Blimunda com o casamento do rei e da rainha - "Há muitos modos de juntar um homem e uma mulher, mas, não sendo isto inventário nem vademeco de casamentar, fiquem registados apenas dois deles, e o primeiro é estarem ele e ela perto um do outro, nem te sei nem te conheço, num auto-de-fé, da banda de fora, claro está, de fora, claro está, a ver passar os penitentes, e de repente volta-se a mulher para o homem e pergunta, Que nome é o seu, não foi inspiração divina, não perguntou por sua vontade própria, foi ordem mental que lhe veio da sua própria mãe, a que ia na procissão, a que tinha visões e revelações, e se, como diz o Santo Ofício, as fingia, não fingiu estas, não, que bem viu e se lhe revelou ser este soldado maneta o homem que haveria de ser de sua filha, e desta maneira os juntou. O outro modo é estarem ele e ela longe um do outro, nem te sei nem te conheço, cada qual em sua corte, ele Lisboa, ela Viena, ele dezanove anos, ela vinte e cinco, e casaram-nos por procuração uns tantos embaixadores, viram-se primeiro os noivos em retratos favorecidos, ele boa figura e pelescurita, ela roliça e brancaustríaca, e tanto lhes fazia gostarem-se como não, nasceram para casar assim e não doutra maneira, mas ele vai desforrar-se bem, não ela, coitada, que é honesta mulher, incapaz de levantar os olhos para outro homem, o que acontece nos sonhos não conta" (página 114). Assim, de um lado (Blimunda e Baltasar), temos uma relação que surge de forma espontânea, para depois se transformar numa união perfeita (que não precisou de ser legitimada pela igreja e pelo formalismo das burocracias), numa partilha desinteressada, num amor verdadeiro; do outro (rei e rainha), tudo se desencadeia de um modo artificial e daí o casamento em que há falta de amor, os jogos de interesses, que, naturalmente, desembocarão apenas numa relação física entre duas pessoas (que por acaso são o rei e a rainha de um país...), visando essencialmente a procriação e o cumprimento de um dever conjugal.

 

Veja-se, ainda, o tratamento diferente dado ao vigário de Mafra e ao pai de Baltasar, aquando da venda das respectivas propriedades para nelas se construir o convento: "Tinha este pároco feito um bom negócio de terrenos por serem dele algumas das terras do alto da Vela, e, ou por valerem elas muito, ou por muito valer o proprietário, fez-se a avaliação por alto, cento e quarenta mil réis, nada que se possa comparar com os treze mil e quinhentos que foram pagos a João Francisco [pai de Baltasar]" (Capítulo XI, páginas 124, 125).

Joaquim Matias da Silva

 

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