Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
José Saramago

 

MEMORIAL DO CONVENTO - Tipologia

 

Como classificar este romace saramaguiano?

 

Memorial do Convento apresenta-nos uma descrição minudente da sociedade portuguesa do início do séc. XVIII, abrangendo um período temporal de cerca de 30 anos, no reinado de D. João V. Entrelaçados com  realidades ou acontecimentos verídicos e figuras históricas (rei D. João V e sua consorte D. Maria Ana Josefa, Guerra da Sucessão de Espanha, autos-de-fé, sumptuosidade da corte - por oposição à miséria do povo -, construção do convento, esponsais da infanta Maria Bárbara, construção da passarola pelo Pe. Bartolomeu de Gusmão…) surgem seres e factos ligados à ficção, à magia:  Baltasar, Blimunda, e respectivas famílias; a recolha das vontades dos vivos, para  obtenção do éter, com que se faria voar a Passarola; práticas de bruxaria; superstições...

 

Por isso, embora se pudesse classificar este romance como um romance histórico, alguns críticos não o fazem, pois, por um lado, apesar de nele encontrarmos uma recriação fiel do passado, a perspectiva que nos é dada desse tempo surge com base no presente, ao que se junta a ideia de que os factos históricos permitem a crítica ao tempo presente, pelo que esta obra de José Saramago subverte a essência daquilo que se considera o tradicional romance histórico; por outro lado, Saramago contrapõe uma outra visão da História àquela que havia sido imposta oficialmente, centrando a acção no relato dos acontecimentos realizados pelo povo, convidando-nos a uma reflexão, que contraria substancialmente a usual aceitação dogmática da História do país.

 

Neste perspectiva, Memorial do Convento surge-nos, antes, como um romance de intervenção social e política, um romance de espaço, uma crónica de costumes de uma época reinventada - com óbvias intenções críticas -, visando, ainda que de forma velada, escalpelizar o regime anterior à revolução dos cravos, proléptica e implicitamente referida na pág. 161 da obra: “(...) os capelães de varas levantadas e molhos de cravos nas pontas delas, ai o destino das flores, um dia as meterão nos canos das espingardas…”. Desta maneira, o passado presentifica-se e sugere um presente actuante, quer pela intemporalidade dos comportamentos, desejos ou anseios, quer pela denúncia de situações de repressão e censura no momento da escrita.

 

Apesar de tudo, e ainda que Memorial do Convento não possa ser apropriadamente classificado como um romance histórico, esta obra está directamente relacionada com este tipo de texto, constituindo um exemplo de evolução do mesmo. São vários, aliás, os aspectos que, em Memorial do Convento, conduzem à recriação / evocação do passado:

- o relato de episódios que surgem como reconstituição, mais ou menos fidedigna, de acontecimentos históricos:

- casamento e relacionamento entre o rei e a rainha;

- as traições de D. João V;

- as menções à devassidão dos representantes da Igreja e ao concluio entre esta última e o Estado;

- as referências pormenorizadas a alguns acontecimentos respeitantes à edificação do Convento de Mafra, ao vestuário das personagens e aos usos e costumes por que essas mesmas personagens se regiam;

- a descrição exaustiva dos espaços físicos;

- a linguagem dos intervenientes na narrativa.

Joaquim Matias da Silva

 

Início da página                                             Ver bibliografia consultada.

 

© Joaquim Matias 2008

 

 

 

 Páginas visitadas