Memorial do Convento
apresenta-nos uma descrição minudente da
sociedade portuguesa do início do séc. XVIII,
abrangendo um período temporal de cerca de 30
anos, no reinado de D. João V. Entrelaçados com realidades
ou acontecimentos verídicos e figuras
históricas (rei D. João V e sua consorte D.
Maria Ana Josefa, Guerra da Sucessão de Espanha,
autos-de-fé, sumptuosidade da corte - por
oposição à miséria do povo -, construção do
convento, esponsais da infanta Maria Bárbara,
construção da passarola pelo Pe. Bartolomeu de
Gusmão…) surgem seres e factos ligados à
ficção, à magia: Baltasar, Blimunda, e
respectivas famílias; a recolha das vontades dos
vivos, para obtenção do éter, com que se
faria voar a Passarola; práticas de bruxaria;
superstições...
Por isso, embora se pudesse
classificar este romance como um romance
histórico, alguns críticos não o fazem, pois,
por um lado,
apesar de nele encontrarmos uma recriação fiel
do passado, a perspectiva que nos é dada desse
tempo surge com base no presente, ao que se
junta a ideia de que os factos históricos
permitem a crítica ao tempo presente, pelo que
esta obra de José Saramago subverte a essência
daquilo que se considera o tradicional romance
histórico; por outro lado, Saramago
contrapõe uma outra visão da História àquela que
havia sido imposta oficialmente, centrando a
acção no relato dos acontecimentos realizados
pelo povo, convidando-nos a uma reflexão, que
contraria substancialmente a usual aceitação dogmática da História do país.
Neste perspectiva, Memorial do Convento
surge-nos, antes, como um romance de intervenção
social e política, um romance de espaço, uma
crónica de costumes de uma época reinventada - com
óbvias intenções críticas -, visando, ainda que
de forma velada, escalpelizar o
regime anterior à revolução dos cravos, proléptica e implicitamente referida na pág. 161
da obra: “(...) os capelães de varas levantadas
e molhos de cravos nas pontas delas, ai o
destino das flores, um dia as meterão nos canos
das espingardas…”. Desta maneira, o passado
presentifica-se e sugere um presente actuante,
quer pela intemporalidade dos comportamentos,
desejos ou anseios, quer pela denúncia de
situações de repressão e censura no momento da
escrita.
Apesar de tudo, e ainda
que Memorial do Convento não possa ser
apropriadamente classificado como um romance
histórico, esta obra está directamente
relacionada com este tipo de texto, constituindo
um exemplo de evolução do mesmo. São vários,
aliás, os aspectos
que, em Memorial do Convento, conduzem à
recriação / evocação do passado:
- o relato de episódios
que surgem como reconstituição, mais ou menos
fidedigna, de acontecimentos históricos:
- casamento e
relacionamento entre o rei e a rainha;
- as traições de D. João
V;
- as menções à devassidão
dos representantes da Igreja e ao concluio entre
esta última e o Estado;
- as referências
pormenorizadas a alguns acontecimentos
respeitantes à edificação do Convento de Mafra, ao vestuário das personagens
e aos usos e costumes por que essas mesmas personagens
se regiam;